Artigo científico

Artigo científico

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3 QUÍMICA NOVA NA ESCOLAN° 20, NOVEMBRO 2004Dez anos de Química Nova na Escola

Recebido em 29/10/04, aceito em 3/1/04 ESPAÇO ABERTO

A seção “Espaço aberto” visa abordar questões sobre Educação, de um modo geral, que sejam de interesse dos professores de Química.

Química Nova na Escola, ou

QNEsc, como carinhosamente nos referimos à revista no nosso cotidiano de editores, nasceu durante o VII Encontro Nacional de Ensino de Química, realizado em Belo Horizonte em julho de 1994. Numa bela tarde de inverno, em uma sala do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, o sol brilhou de forma especial para a Química e seu ensino no Brasil. No mês seguinte, em uma reunião no Instituto de Química da USP, em São Paulo, um grupo de professores ligados à Divisão de Ensino de Química da SBQ, e que viria a compor o primeiro corpo de editores associados da revista - Alice Lopes, Áticco Chassot, Eduardo Mortimer, Júlio Cézar Lisboa, Lenir Zanon, Roberto Ribeiro da Silva, Romeu C. Rocha-Filho e Roseli Schnetzler -, elaborou as primeiras idéias sobre a linha editorial da futura revista: abrigar diversas seções de modo a contemplar uma variada gama de interesses das pessoas ligadas profissionalmente ao ensino de Química; produzir uma revista inovadora, ousada, mas simples e direta. Imaginávamos que alguns professores talvez assinassem a revista apenas pelos experimentos que apareceriam na seção Experimentação no Ensino de Química, pelas características e histórias dos elementos químicos que apareceriam na seção Elementos Químicos, ou pelo relato do Prêmio Nobel daquele ano ou da descoberta dos novos elementos químicos que apareceriam na seção Atualidades em Química. No entanto, sabíamos que outros professores, que se preocupavam com inovações pedagógicas e em mudar sua prática cotidiana, também apreciariam os Relatos de Sala de Aula ou a discussão conceitual, muitas vezes polêmica, de Conceitos Científicos em Destaque, ou ainda os temas relevantes para a sociedade e para a formação do cidadão que apareceriam em Química e Sociedade. Por outro lado, sabíamos que os professores participantes dos vários grupos de pesquisa em Educação Química então já existentes no país, assim como os alunos de mestrado e doutorado ligados a esses grupos, poderiam usufruir de seções como Pesquisa em Ensino de Química e Aluno em

Foco. E várias pessoas, de todos os gostos, com certeza apreciariam artigos de História da Química.

Foi com esse espírito, de contemplar uma ampla diversidade de interesses e atrair todo e qualquer professor para a leitura de Química Nova na Escola, na esperança de contribuir para a melhoria de suas aulas, que o grupo reunido naquela tarde de inverno decidiu pôr as mãos na massa e preparar o primeiro número da revista, a ser lançado em maio do ano seguinte na reunião anual da Sociedade Brasileira de Química. Decidimos convidar um professor do Ensino Médio - o Prof. Nelson Beltran, com ampla experiência editorial da época das publicações da Funbec - para ser o

Eduardo Fleury Mortimer

Neste artigo apresentamos um pouco da história e um balanço de Química Nova na Escola com base nas informações com as quais lidamos no dia-a-dia da editoria: critérios utilizados na definição dos árbitros para cada artigo recebido; a relação entre trabalhos submetidos, aceitos e recusados; o perfil dos nossos autores; a distribuição dos artigos por seção. A idéia é compartilhar com o público leitor a história da consolidação da nossa revista e apontar para tendências e problemas no seu crescimento, principalmente em relação à sua produção, mas sem deixar de levantar questões relativas à sua distribuição e ao uso pelos professores de Química.

Química Nova na Escola, história, editoria

QNEsc nasceu em uma bela tarde de inverno, em uma sala do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, durante o VII Encontro Nacional de

Ensino de Química, realizado em Belo Horizonte em julho de 1994

4 QUÍMICA NOVA NA ESCOLAN° 20, NOVEMBRO 2004Dez anos de Química Nova na Escola editor da revista, convictos que éramos, e ainda somos, da importância do trabalho em parceria e do respeito mútuo, inclusive às diferenças, entre os pesquisadores universitários e os professores da educação básica. Decidimos também convidar o Prof. Eduardo Peixoto, que havia contemplado os sócios da SBQ com a brilhante seção sobre os elementos químicos nos boletins impressos da Sociedade, a se juntar a nós e ficar responsável por essa seção.

Esse sonho de fazer uma revista que pudesse contribuir decisivamente para a melhoria do ensino de Química e para a formação inicial e continuada de professores não havia surgido ali, naqueles dias ensolarados do inverno de 1994, quando ainda comemorávamos o título de tetracampeões do mundo, arrebatado pela nossa seleção canarinho havia poucos dias. Ele era, de certa forma, um coroamento de todo o acúmulo de experiências propiciado pelos então 14 anos de encontros nacionais e regionais e diversas outras iniciativas organizadas pela comunidade reunida na Divisão de Ensino de Química da SBQ. Um projeto financiado pelo Sub-Programa para a Educação em Ciências (SPEC) do PADCT-CAPES, importante iniciativa que ajudou a criar e consolidar uma comunidade brasileira de Educação em Ciências e que já financiava nossos encontros, propiciou o suporte necessário para o lançamento da revista. Afinal, além de custear as despesas com diagramação e produção gráfica, era necessário reunir esse grupo de editores, então os únicos autores, para dar força e coesão inicial à revista e garantir que ela pudesse alçar vôo e se sustentar no ar com as contribuições espontâneas da comunidade.

As nossas reuniões presenciais, entre o editor e os então editores associados, realizadas na sede da SBQ para o fechamento dos primeiros números da revista, com certeza deixaram saudades entre todos nós que delas participamos. Nelas discutíamos exaustivamente cada artigo, já lido de antemão por todos, preparávamos as linhas mestras do editorial e discutíamos a pauta do número seguinte, já preocupados em incorporar outros colegas como autores nos números iniciais da revista.

A consolidação de QNEsc

Esse nosso esforço inicial foi altamente recompensado e QNEsc completa 10 anos como uma revista definitivamente incorporada à cena educacional brasileira, com ampla repercussão não só entre os pesquisadores da área de Educação em Ciências mas em toda a comunidade de químicos reunidos na SBQ. A revista foi classificada no Qualis da última avaliação trienal da CAPES com nacional A na área de Química e nacional B nas áreas de Educação e de Ensino de Ciências e Matemática. Os dados apresentados no Quadro 1 também testemunham claramente essa evolução. A vontade inicial dos editores em fazer a revista, sua presença marcante como autores nos quatro números iniciais e a colaboração dos colegas mais próximos à Divisão de Ensino de Química garantiram a publicação semestral, sempre em dia, de QNEsc nos anos de 1995 e 1996. A partir de 1997, a submissão espontânea de artigos à revista vai se ampliando progressivamente. De cinco artigos em 1997, passamos para 28 já em 1999 e em 2001 alcançamos a meia centena de artigos por ano, patamar em que a submissão se estabilizou.

Por outro lado, o Quadro 1 também revela que a porcentagem de artigos recusados - algo em torno dos 50% - é bastante alta. Isto remete a algumas questões fundamentais para a editoria de uma revista que busca a qualidade e tem um perfil bastante diferenciado, por exemplo, em relação às revistas acadêmicas que são unicamente dedicadas à publicação de resultados de pesquisa. QNEsc é uma revista acadêmica e, como tal, tem todos os artigos submetidos arbitrados por, no mínimo, dois assessores. O rigor no trabalho de arbitragem é fundamental para garantir a qualidade da revista e isto resulta num número relativamente alto de recusas. Além disso, em QNEsc, normalmente, esses dois árbitros não pertencem à mesma comunidade de pesquisadores. Por causa da natureza indisciplinar da área de atuação da revista - a Educação Química - geralmente precisamos ser assessorados por um pesquisador da Química, que conhece profundamente o assunto abordado no artigo, e por um pesquisador da Educação em Ciências, que conhece profundamente as implicações metodológicas e teóricas para a Educação e para o ensino do tema, antes de podermos tomar a decisão sobre aceitar um artigo, aceitá-lo com modificações, solicitar uma reformulação geral ou recusá-lo. Essa dupla arbitragem por pessoas que vivem em universos acadêmicos diferentes muitas vezes resulta em conflito de visões nos pareceres, o que traz como conseqüência a necessidade de um terceiro parecer. Isto muitas vezes contribui para aumentar o tempo entre a submissão do artigo e seu resultado final.

Em geral temos conseguido fechar a revista com artigos na maioria das seções. Com exceção de Aluno em Foco e Pesquisa em Ensino de Química, as seções com o menor nú-

Quadro 1: Números de artigos submetidos, aceitos e recusados, por ano.

QNEsc foi classificada no Qualis da última avaliação trienal da CAPES com nacional A na área de

Química e nacional B nas áreas de Educação e de

Ensino de Ciências e Matemática

5 QUÍMICA NOVA NA ESCOLAN° 20, NOVEMBRO 2004 mero de artigos publicados ao longo da nossa história, todas as outras seções têm mantido o patamar mínimo médio de um artigo a cada número. No outro extremo, temos Experimentação no Ensino de Química, cuja média é superior a dois artigos por número. Destaca-se, ainda, o aumento do número de artigos publicados nos últimos anos em Relatos de Sala de Aula, o que, como comentaremos, reflete uma característica bastante positiva da nossa comunidade: a construção de parcerias entre professores universitários e professores da educação básica.

Há ainda que ressaltar que a revista tem se mostrado aberta à dinâmica da área e ao aparecimento de novas interfaces com a Educação em Química. Assim, já em 1997 incorporávamos duas novas seções à revista: Educação em Química e Multimídia, para a qual foi convidado o Prof. Marcelo Giordan, e Espaço Aberto, que teve por objetivo possibilitar que a revista tratasse de temas não contemplados nas seções pensadas originalmente. Por meio dessa seção, temas educacionais mais amplos, como avaliação e currículo, passaram a ser tratados na revista. Essa reformulação iniciada em 1997 completouse em 1999, quando modificou-se o desenho editorial da revista de modo a torná-lo mais próximo das outras publicações da SBQ e aumentar a agilidade do trabalho editorial. Nessa mudança, foi decidido que a revista passaria a ter três editores responsáveis - um deles no papel de editor coordenador -, que foram escolhidos entre os então editores associados. Os editores associados passaram a compor o Conselho Editorial, que foi ampliado para incorporar dois professores brasileiros e quatro estrangeiros. Otávio Aloísio Maldaner e Rejane Martins Novais Barbosa ficaram responsáveis pelas seções Conceitos

Científicos em Destaque e Aluno em Foco, e António Francisco Carrelhas Cachapuz (Aveiro, Portugal), Aureli Caamaño (Barcelona, Espanha), Gisela Hernández (Cidade do México,

México) e Peter Fensham (Vitória, Austrália) passaram a compor o Conselho Editorial, conferindo-lhe um caráter internacional.

O próximo desafio que se coloca para QNEsc é o aumento de sua periodicidade. As informações do Quadro 1, combinadas àquelas do Quadro 2, revelam a dimensão desse desafio. Para que possamos publicar três e não apenas dois números por ano, será necessário um aumento de cinqüenta por cento nas submissões, ou seja, no lugar dos 50 artigos submetidos em média nos últimos anos, precisamos de 75. Esse é um aumento considerável e, para atingi- lo, será necessária uma grande mobilização de toda nossa comunidade: dos pesquisadores, de nossos estudantes de mestrado e doutorado, dos professores de Ensino Médio que trabalham em parceria conosco nos programas de formação continuada, de nossos alunos de licenciatura. Isto remete a um outro dado que gostaríamos de compartilhar com o leitor, relativo ao perfil profissional dos autores de QNEsc, apresentado a seguir.

Quem publica em QNEsc

O Quadro 3 mostra o tipo de atuação profissional dos autores dos artigos publicados nas diferentes seções da revista. O exame das porcentagens de autores de cada setor mostra uma clara predominância de autores docentes universitários (67%), seguidos de longe por docentes da educação básica (1,1%), alunos de graduação (8,6%) e alunos de pósgraduação (6,4%). O exame de como essa distribuição se manifesta nas diferentes seções da revista revela, no entanto, algumas tendências interessantes.

A maioria dos artigos da seção Relatos de Sala de Aula envolve parcerias entre docentes universitários e docentes da educação básica (média ou fundamental). Esta também é uma característica de vários artigos da seção Experimentação no Ensino de Química. Essas duas seções são as que tiveram mais artigos publicados nesses 10 anos de QNEsc (vide

Dez anos de Química Nova na Escola

Quadro 2: Número de artigos por ano por seção.

Ano

A maioria dos artigos da seção Relatos de Sala de Aula envolve parcerias entre docentes universitários e docentes da educação básica (média ou fundamental)

QUÍMICA NOVA NA ESCOLAN° 20, NOVEMBRO 2004

Quadro 2). São também as seções que envolvem o maior número de autores por artigo e que apresentam a maior diversidade em relação à área de atuação profissional dos autores. Para a seção Experimentação no Ensino de Química, listamos na coluna “outros” quatro artigos publicados por grupos de pesquisa ou de atuação em Ensino de Química, que normalmente também envolvem parcerias entre professores universitários e professores da educação básica, com a participação também de alunos de graduação e pós-graduação. As seções Elemento Químico e História da Química são aquelas que envolvem a menor diversidade de área de atuação dos autores, que são na sua quase totalidade professores universitários. A seção Experimentação no Ensino de Química tem um número significativo de autores que são alunos de graduação (2), na maioria das vezes atuando em parceria com professores universitários.

Os alunos de pós-graduação têm publicado muito pouco suas pesquisas em QNEsc, pelo menos nas seções exclusivas da revista para a pesquisa - Pesquisa em Ensino de Química e Aluno em Foco. Se quisermos fortalecer QNEsc e ter a perspectiva de ampliar sua periodicidade, um bom caminho é incentivar nossos estudantes de pós-graduação a produzirem artigos para a revista.

Não é desprezível o número de professores da educação básica que publicaram artigos na seção Pesquisa em Ensino de Química (cinco autores). Esse dado, junto àquele constatado em relação à participação dos professores da educação básica como autores, conjuntamente com os docentes universitários, na seção

Relatos de Sala de Aula, demonstra que nossa comunidade tem realizado trabalhos em parceria com docentes da educação básica, o que é positivo e corrobora as tendências atuais dos trabalhos sobre formação de professores (vide o artigo de Schnetzler, neste número). No entanto, o amplo predomínio de artigos publicados pelos professores universitários indica que essas parcerias precisam ser ampliadas e aprofundadas no sentido de tornar o professor do Ensino Médio um parceiro cada vez mais freqüente na produção de artigos. Entendemos que, na área de Ensino de Química, a QNEsc é um veículo bastante apropriado para publicar os resultados dessa parceria.

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