pedro demo pesquisa participante

pedro demo pesquisa participante

(Parte 5 de 7)

g) O mérito da P nao está só em re colocar o âmbito da prática, mas também de trazer os ventos da alternativa na esfera das ciências sociais. Isto já vale muito a pena.

5. Conclusões preliminares

A organização proposta do espaço da pesquisa é certamente tentativa. Tem como finalidade principal mostrar que é incorreto prender a pesquisa ao espaço empírica . Quando o científico é reduzido ao observável e mensurável, recai quase sempre na superficialidade e na irrelevância. Em ciên cias sociais, as dimensões qualitativas são essenciais; crité -rios quantitativos podem ajudar muito, mas estão longe de serem decisivos. Nisto a FT trouxe uma colaboração inestimável, desde que nao se conceba exclusiva e substitutiva dos outros generos de pesquisa.

A título de ilustração, propomos o seguinte esquenta instrumental, que tenta contrapor os quatro neros através de algumas características da pesquisa:

Quanto a PT PM PE P

Preduto científico quadro de refe -rência; sistematização teorica.

opção metodoló gica; instru - mentos teor.

experimentação ; instrumentos quantitativos.

opção política ci entificamente fun dada ; qualitativa

Ideologi a inerente, mas contida ostensiva

Controle ideologi co. através da criti ca teórica. através da cri tica metodol.

através da ex- perimentação. através da opção clara.

• predominância teórica predominância prática

Teoria e Pra tica explicação teórica. instrumental de explic. teó rica.

experimentação e teste. política

Relação Sujei- identidade relativa

(objetivação) identidade totalizante to/Objeto dialogal distanciamento fusão

Descoberta

Realidade indireta - siste matização categorial. indireta - sistematização instrumental.

direta - teste experrimen tal. direta - pratica política.

Demarcação científica predomi -nante coerência e objetivação adequação ins- trumental à realidade lógico-experi- mental critério da prática

É sempre possivel inventar outros es quemas. Não insistimos em tais categorizações, para além de servi_ rem de esclarecimento explicativo. Oquist, por exemplo, baseando-se em Guttman, propõe a distinção entre pesquisa descritiva, mono lógica, de formulação de políticas, e de ação(15). A descritiva a-tém-se ao registro, geralmente quantitativo, da realidade. A mono lógica dirige-se ao estabelecimento de relações necessárias entre os fenômenos, no sentido nomotético, e é por isto de teor analíti co. A de formulação de políticas conota a pesquisa no contexto do planejamento político. E a pesquisa/ação coincide com a partici - pante, no sentido aqui atribuído.

(15) Paul OQUIST, La Epistemología de la investigación-acción, Naciones Unidas, Quito, 1978, p. 5-6.

Voltando ao esquema proposto acima, no que se refere ao produto científico, a PT organiza quadros teóricos de referência e amarra sistematizações teóricas, que são importantes para qualquer intento explicativo; a PM leva a amadurecer opções metodológicas e a fundamentar por que cremos que aquilo que fazemos deva ser reconhecido como científico, levando à elaboração de instrumentos teóricos de explicação da reali dade; a PE produz a experimentação, obtida geralmente através de instrumentos quantitativos; a P funda cientificamente. uma opção política e trabalha com pertinácia componentes qualitativos da realidade.

No que se refere à ideologia, é entendida como fenômeno inerente nas PT, PM e PE., embora se insista em contê-la, a fim de que predomine o argumento sobre a justifi cação; no caso da P, a ideologia é ostensiva e assumida. Quanto ao controle ideológico, é obtido, na PT através da crítica teórica vigilante; na PM, através da crítica metodológica a ser viço da processualidade científica, contra dogmatismos e relati vismos; na PE, através da experimentação, quantitativamente con trolada; na P, através da opção clara.

No que se refere à relação entre teoria e prática, as PT e PM são predominantemente teóricas, enguanto que as PE e P sao predominantemente práticas. A PT volta-se a explicações de base teórica, a PM a produção de instrumental de explicação teórica, a PE à constituição de condições experimentais e de teste, e a P ao compromisso político.

No que tange a relação sujeito/objeto, a P? propende à identidade tatalizante, enquanto que as outras à identidade relativa, no sentido da objetivação. A PT e a PM trabalham um relacionamento dialogal, a PE geralmente insiste mais na necessidade do distanciamento, enquanto que a P tende à fusão.

A descoberta ce realidade é indireta nas PT e PM, e é direta nas outras duas. A PT persegue a realidade através da sistematização categorial, a PM através da sistematização instrumental, a PE através dotaste experimental, e a P através da prática política.

No plano da demarcação científica pre dominante, a PT age com base na coerência lógica e no esforço de objetivação ao construir seu objeto; a PM busca a adequação entre instrumentos de captação e manipulação, e a realidade a ser captada e manipulada; a PE atém-se ao padrão lógico-experi mental; e a P funda-se no criterio da pratica.

Não será incorreto afirmar que a P, em parte, nasce e se sustenta sob o signo da decepção com respeito à pesquisa tradicional. Por pesquisa tradicional podemos entender tocos os gêneros, que nao a própria P, mas refere-se principal-ite à PE. Ao mesmo tempo, esta decepção estende-se às ciências sociais como tais, no sent: que sao em grande parte inúteis para resolver os grandes problemas da sociedade.

Se debulhássemos algumas iniciativas ti picas dos últimos tempos, talvez ficasse patente, o quanto a pes quisa está a serviço do próprio pesquisador e do grupo social a que pertence ou ao qual se subordina. é o caso do tema do mercado informal, das necessidades básicas, das estratégias de sor revivencia, da pobreza crítica, da política social em geral: sao chances renovadas de pesquisa, certamente; mas que tenham real -mente diminuído a pobreza dos marginalizados, isto é muito dificil de mostrar.

Pobreza tornou-se um objeto interessante e promissor de estudo. Muitas vezes foi vasculhada sem tejo en todos os ángulos imagináveis. Mas nao saiu de objeto. Por outro lado, muitos pesquisadores enfeitam-se com um discurso progressista sobre a pobreza, mas seriam incapazes de assumir a pra tica coerente. Aí revela-se marca fundamental da pertença de classe: o privilegiado, propende a justificar seus privilégios e usa para tanto, se preciso for, a própria linguagem contra os privilégios(1)..

A alienação da universidade faz eco a esta mesma decepção, porque nela se cultiva um grupo ensimesmado, tendente a desprezar os que a ela não têm acesso, profundamente elitista e capaz de justificar qualquer ideologia, desde que bem paga. Nao se enfrenta a realidade e ensaia-se na sala de aulas um teatro artificial, que enquadra o mundo dentro das quatro paredes. Embora o diapasão do discurso possa vibrar desde a máxima

(1) Pedro DEMO, Intelectuais e Vivaldinos, Aimed, 1982. Id, A pobreza também te charme,in: Pobreza sócio-econômica e política, Edit. da Univ. Feder. de Santa Catarina, Florianópolis, 1980.

esquerda até à máxima direita, praticamente todos se encontram no mesmo clube de conservadores da pequena burguesia iluminada. Deba tese a miséria até cansar. Mas nao se consegue assumir uma prati ca de redução efetiva.

Estão cansadas nossas ciências sociais. Nao há a mínima proporcionalidade adequada entre, por exemplo, a monta -nha de estudos econômicos e a efetiva realização do desenvolvimen to, entre a avalanche de teorias sociológicas sobre a desigualdade social e a diminuição das discriminações classistas, entre a massa de discussões psicológicas e a efetivação da felicidade humana, entre a profusão de recomendações pedagógicas e a implantação da educação, etc. Ao mesmo tempo, as instituições internacionais, em si dedicadas ao fomento destes objetivos caros à socieda de, como a UNESCO, a CEPAL, a OIT etc, chegaram talvez ao fim de suas potencialidades, porque a questão não é propriamente técnica, mas política. E força política elas não têm. São dispensáveis? Tal vez.

1. A repulsa por parte da P

Na literatura sobre P, esta talvez seja a cantilena mais repetida, Budd Hall, já em 1975, apontava quatro principais defeitos da pesquisa tradicional, imputando-lhes o tra ço pejorativo frequente de "receitas culinárias"(2):

(2) Budd L. HALL, Participatory Research: an approach for change, in:

behavior as much as possible likethe methods natural scientists

Convergence, VIII, 1975, p. 24: "Like most of us, my trai-ning in educational research was based on what might be called a classical approach to social science research; such 'orthodox social science research methodology is based on the attempts . of sociologists and psychologists to develop an approach to understanding human use to study plant, animal, chemical and physical properties. The essentials of most research courses cover such subjects as hypothesis construction; sampling strategies; instrument design (almost always some form of questionnaire) ; data analysis (aggregation of individual data into group statistics); and interpretation. There are many thorough textbooks, written rather as cookbooks, to guide the novice through this process and into the work of 'science'".

a) a PE simplifica em excesso a realidade., tornando-se imprecisa; os Instrumentos contêm arbitrariedades, extraem informa ção de indivíduos isolados, forçar, as pessoas a selecionar respostas, e produzem meras descrições estáticas; mais que descobrir a realidade, enquadra-a em sistematizações artificiais; deturpam a dialética da vida social real; b) a PE muitas vezes se apresenta alienan te, dominadora ou opressiva, porque, ao buscar isenção ideológica, pratica uma ideologia subrepticia e favorável s discriminações sociais vigentes; o con trole dela é unilateral e é vedado o acesso por parte do pesquisado; c) a PE nao facilita a ligação com a ação subsequente, principalmente por causa do distanciamento intencional com rela_ ção ao objeto; d) a PE usa métodos inconsistentes com cer. tas características da população estuda da, porque esta pode de fato colaborar como sujeito.

em 1978 acentuava Hall, ao lado das preca riedades acima levantadas, três inspirações básicas do movimente da P:

a) cs métodos quantitativos não estão ofe recendo compreensão adequada da realidade; b) o desejo de uma pesquisa que leve a pra ticas alternativas, capazes de sedimentar o desenvolvimento, a justiça social e a autopromoção;

c) a vontade de repor o humanismo no terreno da ciincia(3).

é preciso desmascarar ou "desindotrinar" a influência ideológica opressora das pesquisas tradicionais, por

— que acabam produzindo um efeito conservador com respeite à ordem vigente. Quanto mais se apresentam objetivas, neutras, rigorosas, mais sao capazes de exercer o papel de reprodução do sistema(4). A tendência quantitativa é preciso opor a valorização das dimensões qualitativas da realidade(5).

Segundo Tandon, duas foram as idéias-força que motivaram o surgimento da P. "A primeira diz respeito ao desconforto de alguns pesquisadores profissionais, que acharam o paradigma da pesquisa clássica insuficiente, bem como opressivo. O paradigma clássico põe ênfase na neutralidade axiológica do pesquisador; faz da objetividade a marca do processo de pesquisa; sugere completo controle unilateral pelo pesquisador sobre os pro cessos inteiros de pesquisa; trata a população como objeto, do qual se espera apenas que responda às questões do pesquisador; e pretende estudar a população e os fenômenos sociais como o fazem as ciências naturais. Muito tem sido escrito sobre estes aspec -tos e as limitações do paradigma clássico de pesquisa. 0 ponto importante aqui é que a P é uma expressão, pelo menos em parte, contra as limitações do paradigma dominante"(6).

(3) Budd HALL, La Creación de Conocimiento: la ruptura del monopo lio, métodos de investigación, participación y desarro -llo, in: Crítica y Política en Ciencias Sociales, Simposio Mundial de Cartagena, Ed. Punta de Lanza, Bogotá, vol. I, 1978, p. 1.

(4) Bude L. HALL, Participatory Research, Popular Knowledge and

Power: a personal reflection, in: Convergence, XIV, Nº 3 1:31, p. 13.

(5) M. PILSWORTH & R. RUDDOCK, Some Criticisms of Survey Research

Methods in Adult Education, in: Convergence, VIII, 1975, p. 37.

A segunda idéia-força, a P participante a retira da crescente marginalização da população majoritária, apoiada pelo acesso ao saber, que é "uma fonte de poder" (7). 0 paradigma clássico produz uma socialização conservadora dos pesquisadores profissionais, através da qual emergem como baluar tes ideológicos da ordem vigente. A inculcação de premissas valo rativas da neutralidade e da objetividade leva o pesquisador a "considerar-se acima da ideologia e, de fato, faz tentativas na maioria das vezes sem êxito - de remover a ideologia da pesquisa. 0 pesquisador mostra 'o que é', 'como é', mas raramente mostra 'por que é', porque isto poderia revelar a ideologia do pesquisador"(8). Ao mesmo tempo, monta-se a idéia de que a pesquisa é coisa de perito profissional; como tais peritos provêm da parte privilegiada da sociedade, as pesquisas tendem a servir à manutenção dos privilegiados e de seus privilégios. "A es sência do nosso argumento é que a P é uma tentativa de insti -tuir uma alternativa ao paradigma dominante de pesquisa, bem co mo de providenciar acesso ao saber por parte dos marginalizados. E esta dupla ênfase na P que a distingue de outras modas e a torna algo mais que um conjunto de novas técnicas"(9).

'(7) Id. , ib. : "The second motive force for Participatory Research has emanated from the continued and ever-increasing exploitation and oppression of a large majority of people. In many ways, the power of the oppressors is derived from their superior knowledge about legal rights of a sharecropper or land-holding patterns to a landless labourer or the balance sheet of a corporation to a contract labourer are some of the comemon place illustrations or the same.. Knowledge has been and will continue to be a source of power. Participa tory research has been an attempt to shift this balance of power in favour of the have-nots" (p. 21).

(8) Id., ib. (9) Id., ib., p. 2.

das vêzes, o que a reduz amero objeto; possíveis propostas são lançadas de cima para
baixo,o que a torna fator de dominação e de alienação, tendendo a uma postura
distanciada deestudo, separando-o de qualquer ação; acaba disfarçando sua ideologia
, ao insistir na neutralidade(10)Le Broterf também estigmatiza a pesquisa clássica

Para Salinas, a pesquisa clàssica no máximo informa a população pesquisada dos resultados da pesquisa, desconhecendo-a na maioria conservadora e a uma percepção segmentada; não democratiza o saber, que passa a peculiaridade da elite; o pesquisador executa de forma autônoma, numa atitude como passiva, estática; não leva a popula -ção a responder ativamente; encerra a questão no âmbito fechado dos especialistas; e os resultados acabam interessando somente aos pesquisadores e contratantes(1).

conhecimento científico e conhecimento socialFalando do conhecimento científico (que
que procede pela redução de problemas complexos empartes componentes para
invés tigação àqueles efeitos observáveis e mensuráveis(12)Todas es tas precariedades

Korten faz interessante distinção entre se aproxima do que se está chamando paradigma tradicional), diz que "os métodos da moderna ciência ocidental têm sido baseados num processo de reducionismo analítico estudo individual, isolando a causalidade ¿tra vés de métodos experimentais e quasiexperimentais, colocando o pesquisador no papel de observador objetivo, e limitando a levariam a motivar traços negativos da manipu lação comportamental, da.visão mecânica e determinista, da postura coercitiva e alienante.

(Parte 5 de 7)

Comentários