pedro demo pesquisa participante

pedro demo pesquisa participante

(Parte 2 de 7)

Enfim, as realidades sociais se manifestam sob formas mais qualitativas do que quantitativas, dificultando procedimentos de manipulação exata ou as usuais mensurações. Por exemplo, o fenômeno ideológico dificilmente se submete a mensurações, mas nem por isto é menos importante. De mo do geral, pode-se mesmo dizer que em ciências sociais o mais re levante raramente coincide com o mais mensurável.

d) Não há ciências sociais sem imiscuição ideológica. Ao realizarmos a demarcação científica,é vão pretendermos isentá-la da ideologia, já que isto seria apenas a próxima ideologia, porque um dos expedientes mais corriqueiros da ideologia é montar um quadro de pretensa isenção ideológica.

As ciências sociais não são objetivas e neutras, embora devam distinguir, na medida do possível, entre o que a realidade é e o que gostaríamos que fosse. Claro,-interessa a realidade, não sua deturpação. como, porém, a detur pação é inevitável, pelo menos até certo ponto, a questão não é simplesmente como não deturpar, mas como reduzir ao mínimo pos_ sível a deturpação.

É importante esta colocação, para não recairmos na ideologia solta, como se fosse a finalidade primei-ra da ciência. É inevitável e conseqüência necessária, mas nem por isto sempre desejável. Embora as ciências sociais contenham também justificações políticas, deve predominar nelas a argumen tação, ou seja, a teoria e a prática metodologicamente fundamen tadas. Não conseguem ser uma expressão pura de lógica formal, mas é importante que se atenham a parámetros da lógica, que sejam coerentes, consistentes, originais, objetivantes, rigorosas etc. 0 controle da ideologia (não sua eliminação) está entre os compromissos metodológicos mais fundamentais das ciências sociais.

Ademais, a ciência nao é a Ünica manei_ ra de conhecer. Existem outros saberes, que nao aqueles gerados na universidade ou nas instituições de pesquisa. Para aclararmos esta postura, partimos de certas definições básicas:

Assumimos as ciências sociais como o tratamento teórico e prático da realidade social. A conjunção entre teoria e prática é essencial em ciências sociais, ainda que predomine a crença da necessidade de isenção de envolvimentos pra ticos. Se, porém, aceitamos que a realidade social é intrinseca -mente ideológica, nao há como fabricar tal isenção. Ao contrário, a própria falta de prática possui significado ideológico, ou seja é uma das práticas e favorece a alguém. Assim, não há sentido só na teoria, nem só na prática, mas na sua interação dinâmica, embo ra sem confundi-las.

Pesquisa aparece no contexto da ciên -cia como seu movimento fundamental de descoberta da realidade. Par timos da idéia de que a realidade nao pode. ser totalmente desco -berta e esgotada, o cue nos remete a um conceito processual . de ciência; intrinsecamente dialético, sempre superável, discutível e histórico.

É possível descobrir a realidade de mui tas maneiras. Só pode ser uma ideologia obtusa aquela que quer um modo único de pesquisa. Também o que chamamos ciência não passa de um dos modos possíveis de tratar a realidade social. A expecta tiva de que o modo dito científico seja o preferencial e talvez "superior", precisa ser demonstrada, nao suposta. Ainda, nossa ma neira de fazer ciência deveria ser chamada de "modo ocidental de produzir ciência", reconhecendo-se que poderiam existir outros, que valorizem mais, por exemplo, a intuição, a sensibilidade, comunicações de estilo religioso ou místico, o contato ecológico simples, a identificação com pretensas realidades extraterrenas etc. (6) .

Nesta linha, procuramos distinguir pelo menos quatro gêneros de pesquisa: a teórica, a metodológica, a empírica e a prática.

(6) Sobre o problema da demarcação científica, veja P. DEMO, Metodologia Cien tífica em

Ciências Sociais, op. cit., p. 13 s. G. BACHELARD, O Novo Espírito Científico, Tempo Brasileiro, 1968. G. CAN-GUILlllví, Sobre uma Epistemologia concordatária, in: Epistemo logia, lempo Brasileiro, N9 28, p. 47 s.

1. Pesquisa Teórica

Admitimos que nao há ciencia sem o adequado movimento teorico, que significa a ordenação da realidade ao nível mental. Nao há pesquisa apenas teórica, porque já seria pura especulação. A ciência sempre é também uma forma de pensar a realidade, de a elaborarar em categorias mentais.

Pode surpreender que consideremos a possibilidade e mesmo a necessidade da pesquisa teórica, porque muitas vezes confundimos teoria com especulação. Todavia, mesmo a especulação pode ser criativa, e somente é condenável quando passa a substituir a realidade. Ou seja, quando desanda num movimento subjetivista e alienado, de tal sorte que a realidade se reduza a mero jogo de idéias.

É mister evitar os extremos. Existe a indigestão teórica, a exacerbação reflexiva, a,crítica pela crítica. Há disciplinas que recaem facilmente nesta tendência, como talvez fosse o caso da sociologia e da filosofia. Não é di- fícil encontrarmos sociólogos que possuem quase que somente co nhecimentos teóricos. Podem dominar teorias sobre a realidade , mas não saberiam manipular a realidade e até mesmo devotam cer to desprezo por aqueles que gostariam de sujar as mãos com prá ticas concretas.

. Aspectos deste extremo são, por exem plo, as discussões intermináveis em torno de problemas que, por isto mesmo, não chegam a ser resolvidos; ou o começo fatal de tudo por "Adão e Eva", no sentido de que, antes de qualquer ação, se colocam tantas questões teóricas prévias e precedentes, que sempre é possível mostrar que ainda não é tempo para entrar mos nas vias de fato; ou a tendência a simples crítica das propostas alheias, sem apresentar contraproposta; ou a fuga teórica, como expediente para se evitar o encurralamento na prática, já que toda prática limita e compromete, enquanto que a teoria produz a sensação de superioridade de quem nasceu para julgar , não para fazer; ou a veneração dos clássicos, geralmente estran geiros, à sombra dos quais se parasita tranquilamente, deprezan-do-se por vezes olimpicamente a realidade concreta que nos cerca; e assim por diante.

O outro extremo seria a negação teórica, ou, como diria Bachelard, a "demissão teórica"-. é preciso reconhecer uma contradição básica nesta postura, porque é mis -ter teoria para negar a teoria(7). Qualquer dado já é um produto teórico, se admitimos que a realidade não se dá, pura e simplesmente, mas precisa ser interpretada. Não-existe a evidência empírica, que, aliás, seria a própria morte da pesquisa, como acreditava Marx, quando dizia que, se o fenômeno coincidisse cem a essência da realidade, não seria necessária a ciência. Talvez seja possível afirmar que a forma mais comum de mediocridade ci entífica é a falta de base teórica. Sem teoria, somos apenas cré dulos(8).

Entre estes dois extremos, podemos vislumbrar a teoria como nosso diálogo científico interminável com a realidade que não conseguimos nunca dominar de todo. Embo ra a teoria tenha sempre uma estrutura sistemática, é importante insistirmos na idéia do diálogo, para fazermos justiça a seu conteúdo histórico. Ao mesmo tempo, tôda teoria torna-se clás -sica, où seja, não tem condições de perenidade explicativa. 0 fato de que usamos depois de muito tempo teorias passadas, signi-fica geralmente que seu autor foi genial, ou seja, conseguiu a-tingir aprofundamentos estruturais da realidade, e não somente facetas circustanciais. Todavia, ninguém escapa em ciências sociais da validade histórica, quer dizer, contextuada no espaço e no tempo.

Assim, o trabalho teórico é fundamen tal ao processo científico, desde que direcionado ã descoberta e discussão da realidade. Alguns momentos centrais dele serian:

a) A elaboração de quadros de refe - rancia toca a questão vital da sistematização da realidade em nossa mente. No fundo, é uma das medidas da nossa capacidade de compreensão do que se passa na realidade. uma análise teorica -mente bem fundamentada seria aquela que apresenta uma estrutura ção "amarrada", sólida, coerente, consistente, onde os enunciados se desdobram de forma concatenada, criativa e profunda.

(7) Cfr. G. CANGUILHEM, op. cit.: "Nao é, pois, surpreendente que nenhum rea lismo, e sobretudo o realismo empírico, encontre graças, como teoria do conhecimento, aos olhos de Bachelard. Nao há real antes da ciência ou fora dela" - p. 51-52.

(8) Mesmo Popper reconheceria que todo enunciado observável já é uma "interpre taçao à luz de teorias" - K. R. POPPER, The Logic of scientific discovery, Hutchinson of London, 1965, p. 107.

O quadro teórico de referencia decide nossa capacidade explicativa, no sentido de apontar, para os efei tos, as causas reais, de descobrir a dinamica dos processos nisto ricos, de superar a superfície para atingir dobras mais profun -das da realidade. Sem quadro de referência, ficamos na descrição, na acumulação de fatos e dados, na complexidade desencontrada.

Significa, ao mesmo tempo, o trajeto de amadurecimento do cientista, através do qual adquire solidez própria e apresenta-se como capaz de produção original. Quando se aceita alguém como "teórico" de certa disciplina, significa isto que construiu seu próprio lugar, tem mensagens próprias. No lado oposto, emerge o repetidor, a estilo do discípulo que nada mais faz do que redizer, de forma geralmente empobrecida, quando não deturpada, o que o mestre já disse.

Assim, elaborar quadro próprio teórico de referência é o desafio substancial da formação teórica, que se resolve no tirocínio árduo e profundo da pesquisa teórica. A partir dele, o cientista não somente sabe explicar a realidade , mas, mais que isto, tem sua forma própria de explicação, criativa, e talvez ate alternativa. Não se contenta em constatar como as coisas acontecem, mas quer saber por que acontecem. Consegue discordar e contrapropor. Corrige e se corrige.

b) A compreensão dos clássicos é ou -tro campo importante da pesquisa teórica, através da qual pode -mos nos armar com alternativas explicativas, algumas ainda pelo menos parcialmente válidas. Os clássicos significam a referência histórica básica de cada disciplina, marcando profundamente seu trajeto temporal. Traduzem a acumulação já elaborada de conhecimento, circunscrevem as principais polêmicas havidas e ainda vigentes, cristalizam maneiras típicas de ver a realidade, de a in vestigar e sistematizar, e assim por diante.

O problema maior neste terreno é o mo do como se estudam os clássicos. Predomina certamente o estudo passivo, na qualidade de receptor ou de discípulo. Por vezes, acentua-se demais o respeito aos clássicos. No entanto, poucos fe nómenos são mais negativos dentro do processo científico, do que o do discípulo fiel. Diríamos que respeitar os clássicos é principalmente revidar sua criatividade, e nao reduzi-los a mera transmissão ou repetição. Porquanto, o melhor discípulo é aquele

que supera o mestre, tal qual aconteceu com o próprio mestre, que a tanto chegou porque nao aceitou ser apenas discípulo.

A demasiada aceitação dos clássicos significa, de modo geral, um tratamento subserviente, no qual a fidelidade ideológica é preferida à construção de identidade teórica própria. 0 bom clássico é aquele que continua provocan do boas discussões, nao aquele que as paraliza. Assim, a leitu ra assídua dos clássicos não tem como finalidade emperrar. as alternativas explicativas, dividindo os cientistas entre here-ges e asseclas, mas, ao contrário, manter viva a luz da criati vidade, na qualidade de convite perene à indagação incansável.

c) O domínio relativo da produção vigente, pelo menos na especialidade própria, é construído na atividade constante de pesquisa teórica, através da qual ques tionamos, aceitamos, rejeitamos e propomos alternativas. O pa drão teórico de discussão é, neste sentido, indicativo da vita lidade de determinada disciplina. Caso contrário, chega-se fa cilmente ao marasmo ou às igrejinhas fechadas.

A produção vigente tem principalmen te a finalidade de recompor interminavelmente o contexto da criatividade científica sobre uma realidade entendida como inex gotável. Esta nos desafia constantemente a novas idéias, a,revisões de quadros já cristalizados de referencia, a polêmicas inventivas em torno de aspectos relevantes, de tal sorte que a vida continua, conflituosa e atraente.

d) A reflexão teórica elaborada é um exercício fundamental da formação teórica, através da qual aprofundamos conceitos, visões teóricas, categorias básicas de autores, inventamos outras e assim por diante. Infelizmente , a formação acadêmica não privilegia este procedimento na gra - duação e, por vêzes, sequer na pós-graduacão.

Ao aceitarmos que a atividade básica da ciência é a pesquisa, estamos sugerindo que o cientista deveria ser fundamentalmente uma instância criativa. 0 processo de criação não é, como sempre, espontâneo. Precisa ser cultivado. uma das maneiras mais profícuas de tal cultivo, é a elaboração constante da reflexão teórica, na qual o autor é convidado a dominar a literatura circundante, a debater-se com.

propostas divergentes, a formular posição própria etc.

Muitas vêzes, nao vamos além da ficha bibliográfica, que nada mais seria do que controle de leitu ra. Isto é pouco. No fundo, nada tem a ver com procedimento uni versitário, porquanto 1er um autor ê uma característica prévia. Ê preciso saber interpretar um autor, discordar dele, apresen -tar alternativas explicativas, dialogar com ele de igual para igual, reinventá-lo.

pressupostos teóricos, a estruturar explicações. Colaboraem superar

Saber elaborar um trabalho teórico já é grande virtude, porque leva a ordenar idéias, a sistematizar o ambiente frouxo das discussões marcadas pela falta de leitura prévia, pelo "achismo" ou pelo preconceito ideológico.

•Neste sentido, é essencial trabalhar mos indagações teóricas com profundidade e rigor, desde que nao nos refugiemos na mera especulação.

e) A crítica teórica sempre corre o risco da alienação prática, mas, adequadamente conduzida, pode ser mesmo a alma da ciência, porque é ela que mantém sua proces sualidade imorredoura. Neste sentido, dificilmente poderia ser supervalorizada. É também questão de coerência: se a realidade é crítica (conflituosa e dinâmica), precisa ser tratada critica-mente.

Qualquer proposta alternativa alimen ta-se da vigilância crítica, que não nos permite degeneramos em fósseis acadêmicos. A teoria crítica traduz a envergadura con -creta da capacidade de produção teórica e significa o grito de alerta contra dogmatismos, monolitismos e maniqueismos. A reali dade é mais importante que nossas classificações e sistematiza-ções. Os quadros de referência devem levar-nos à criatividade , não ao cárcere das próprias idéias. A capacidade crítica, que precisa ser complementada com a capacidade prática, é o oxigê -nio da sobrevivência científica(9).

(9) "A má vontade crítica não é uma penosa necessidade da qual o sábio poderia desejar se ver dispensado, porque ela não é uma conseqüência da ciência, mas sua essência. A ruptura com o passado dos conceitos, a polêmica, a dialética é tudo o que nós encontramos ao fim da analise dos meios do saber. Sem exagero, mas não sem paradoxo, Bache lard coloca na recusa a mola propulsora do conhecimento" - G. CANGUILHEM, op-cit., p. 51.

(Parte 2 de 7)

Comentários