RBertoni-O Ensino Cognitivo e suas Fundamentações Neurológicas como Proposta para o Ensino - Educação Especial

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FIBRA - Faculdades Integradas Brasil-Amazônia Especialização em Educação Especial com Ênfase na Inclusão

O Ensino Cognitivo e suas Fundamentações Neurológicas como Proposta para o Ensino

Renato Bertoni Lardosa Santos

Artigo escrito em cumprimento aos requisitos para obtenção do grau de

Especialista em Educação (não publicado)

O Ensino Cognitivo e suas Fundamentações Neurológicas como Proposta para o Ensino

Renato Bertoni Lardosa Santos

Abstract

This work deals with the neurological foundations of the higher mental functions that are the basis of the cognitive learning as a proposal for the improvement of the Brazilian educational system. The process of learning has as in its foundation the development of the higher mental functions, which are cognitive processes that process the information and thoughts. The act of learning is achieved through the individual’s physiological development of the brains, which happens when the neural network is established, being this where the information is processed and stored. Thus, the neurological foundations of learning provide a wider understanding of the processes of though formation and memory storage by the cognition. In this context, the cognitive learning acts as being a methodology of teaching that promotes this cognitive development, strengthening the neural synaptic bindings, through the exercise of the higher mental functions. Methodology that combines the knowledge of the neurosciences and pedagogy, forming the constructivism, presented here through the ideas of three major thinkers of this area: Jean Piaget, Lev Vygotsky and Jerome Bruner. To whom the teaching environment must take into consideration designing activities for the classroom that promotes greater participation of the students, as well as grater student-student and student-teacher interaction during the learning process. So that they develop their cognitive capabilities in a more efficient way.

Keywords: Learning, neurosciences, constructivism, cognition.

Resumo

Este trabalho trata dos fundamentos neurológicos das funções mentais superiores que fundamentam o ensino cognitivo como proposta para a melhoria do ensino brasileiro. O processo de aprendizagem está fundamentado no desenvolvimento das funções mentais superiores, que são processos cognitivos que processam as informações e pensamentos. O ato de aprender é concretizado através do desenvolvimento fisiológico cerebral do indivíduo, que é quando ocorre o estabelecimento de redes neurais, sendo este o local onde são processadas e armazenadas as informações. Com isto, os fundamentos neurológicos da aprendizagem fornecem um entendimento mais amplo dos processos de formação de pensamentos e armazenamento de informações por parte da cognição. Neste contexto, o ensino cognitivo atua como sendo a metodologia de ensino que promove este desenvolvimento cognitivo, reforçando as ligações sinápticas neurais exercitando as funções mentais superiores.

Metodologia que, aliando conhecimentos de neurociência aos conhecimento de pedagogia, forma o construtivismo, exposto aqui pelas ideias de três dos maiores pensadores dessa área: Jean Piaget, Lev Vygotsky e Jerome Bruner. Para os quais, o ambiente de ensino deve o desenvolvimento de atividades em sala de aula que propiciem maior participação dos estudantes, bem como maior interação estudante-estudante e professor-estudante durante o processo de aprendizagem. De modo a desenvolverem suas capacidades cognitivas de forma mais eficiente.

Palavras-chave: Aprendizagem, neurociências, construtivismo, cognição.

1- Introdução

O baixo desempenho dos estudantes brasileiros é evidenciado repetidamente quando suas habilidades são medidas, seja pelo índice nacional como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), ou por um índice internacional como o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) (BRASIL, 2014) (OECD, 2012). Isto é reflexo da ineficiência da sociedade em formar pessoas capazes de responder aos desafios que o mundo lhes impõe.

As causas disso é motivo de debates e várias razões poderiam ser evocadas (ANGELINI, 2006) (LIMA,2008), contudo, ressalta-se a dificuldade de a escola conseguir manter a atenção do estudante na aula, e a sua motivação no processo de aprendizagem. Por um lado, isto está relacionado ao próprio fato de a educação e o conhecimento não serem valores sociais ensinado às crianças. Por outro, está relacionado com o conteúdo dos currículos, ou como eles são executados. E ambos têm a ver com a perda de foco do propósito da educação básica, cujo objetivo maior é o de formar cidadãos aptos à vida social e à solução dos problemas que aflijam a sociedade. Prendendo-se apenas a situações mais imediatas como as provas das disciplinas e exames de seleção como o vestibular. Situações nas quais exige de tais currículos somente o enfoque em sistematização de teoria e treino com exercícios. O que acaba por transformar as aulas em tarefas desconexas com o dia a dia, abstratas e tediosas, levando o professor a se deparar com o desinteresse e mesmo indisciplina em sala de aula (GOMES; CASTILHO, 2009) (MOÇO; GURGEL, 2009).

Contudo, esta situação está mudando, ainda que lentamente. Pela Lei de Diretrizes e Bases da

Educação Nacional (LDB) (BRASIL,1997) e o Plano Nacional de Educação (PNE) em tramitação (BRASIL, 2010), e evidenciada pelo papel cada vez mais relevante do ENEM. Que apesar de ser uma prova, ela avalia de maneira diferente, contextualizando situações e unindo disciplinas, exigindo mais preparação do raciocínio do que o acúmulo de informações. O que consequentemente fará o Ensino

Básico rever a maneira com que conduza educação do estudantes. Valorizando mais as habilidades mentais do que as de memorização para provas. E as condições do mundo de hoje tem dado mais evidências de como o papel da escola precisa ser revisto, uma delas é a atuação das novas tecnologias.

Em 1998, o educador Attico Chassot (2006) escreveu um texto intitulado “O impacto da tecnologia na educação”, onde faz uma descrição de como os avanços tecnológicos vem mudando o ambiente escolar desde de seu tempo escolar, na década de 1940, até antão. Neste texto ele já afirmava que o papel da escola não era mais o de ser fonte de informação para a sociedade, pois isso agora já havia passado a ser feito pelos meios de comunicação, cada fez mais difusos em assuntos, e onipresentes para as pessoas. Fazendo, assim, um alerta, pois se a educação se focar no acúmulo de informações, perderá sua função. E que a escola deveria assumir um papel de processadora e seletora de informações, ensinando o estudante a ser crítico com relação à cada vez maior quantidade de informação presente no mundo (CHASSOT, 2006).

Já em 2013, Howard Gardner e Katie Davis (2013) descrevem em seu livro “The App

Generation” como o estudante de hoje está dependente de aplicativos que operam em aparelhos eletrônicos, como os celulares. Uma situação na qual esses aparelhos se tornam sempre presentes e influenciadores no acesso a informações e em como as pessoas se comunicam. Eles fazem a distinção entre dependência habilitadora, na qual o indivíduo tem suas habilidades aumentadas por esses artifícios tecnológicos, e a dependência viciante, na qual o indivíduo só é capaz de produzir com esses artifícios. Eles mostram também como a percepção dessa juventude tem se tornado cada vez mais visual, e que estão menos capazes de perceber a substância que jaz além da aparência de tudo. Implicando prejuízos tanto na concentração quanto na elaboração de ideias por meio da linguagem escrita.

Tudo isso remete-nos à situação em que seja necessário uma mudança da atuação da escola quanto a condução da educação. Pois ir à escola receber instruções sobre coisas fora do dia a dia, e que podem ser acedidas através da internet caso venham a ser necessárias, são situações que desmotivam a participar do processo educacional, não só os que não têm ciência da importância da educação, mas também o que estão cientes e querem ser bem sucedidos no mundo de hoje. Com isso, de modo aos estudantes serem mais produtivos, a escola deve ensinar seus estudantes a pensar, ao invés de memorizar conteúdos, ou treinar a resolução de exercícios excessivamente, pois isso também é contraeficiente. É necessária uma nova abordagem na condução do dia a dia escolar.

Uma modalidade de ensino que já segue esse caminho é a metodologia pedagógica denominada de Ensino Cognitivo, que é uma metodologia de ensino que reúne conhecimentos de neurociências à pedagogia, com a finalidade de alcançar o melhor desenvolvimento das habilidades mentais, as aptidões cognitivas, dos estudantes durante o transcorrer da escolarização (FONSECA, 2007).

O ensino cognitivo tem como objetivo o desenvolvimento das funções mentais superiores, tais como a percepção, a atenção, a introspeção, a memória, a imaginação, o raciocínio, e a emoção. De modo a permitir aos estudantes realizar os processos de captação, integração e elaboração, e expressão de informação; que são a base a aprendizagem (FONSECA, 2007). Onde o seu currículo leva em consideração o desenvolvimento do estudante em relação às suas capacidades de maneira individualizada, enquanto ele atua em conjunto com outros estudantes. Diferentemente do funcionamento do ensino atual, o qual está fundamentado no ensinamento de conteúdos universais, ensinadas de maneira passiva e individualista.

Desta forma, no ensino cognitivo os objetivos das aulas são desenvolvidos ativamente pelos próprios estudantes, que trabalhando em conjunto e orientados pelo professor, tem a oportunidade de expor suas ideias e avaliar se seu entendimento está indo de encontro com os objetivos da atividade. É desta maneira uma metodologia de ensino que permite liberdade de adaptação às circunstâncias de cada sala de aula, promove a participação e o engajamento na condução nos rumos das aulas. Tem-se, assim, que ao fim de uma aula o estudante não tenha estado passivo, mas tenha atuado como observador, elaborador e expositor de ideias a respeito do que se passava. Consolidando suas habilidades cognitivas.

Com isto em mente, o objetivo deste trabalho é desenvolver as ideias fundamentais do ensino cognitivo que o fazem ser conveniente ao ensino. Desenvolver as fundamentações neurológicas que fundamentam as funções mentais superiores, cujo desenvolvimento são o objetivo do ensino cognitivo. Tendo em mente a capacitação do estudante, como um ser crítico, com habilidades mentais de atuar como um interpretador do mundo; capaz de elaborar modelos que visem dar uma explicação às situações com as quais se depare, um formador de opiniões.

De modo a entender melhor o desenvolvimento e funcionamento das funções mentais superiores, faz-se necessário remeter-se aos conhecimentos elaborados pela Neurociência (COSENZA; GUERRA, 2011). Que é a área do conhecimento que estuda a estrutura do sistema nervoso e o funcionamento cerebral, tratados na Seção 2. Em seguida, na Seção 3, analisam-se as funções cognitivas mais relevantes no aprendizado, e como elas estão relacionadas ao desempenho escolar do estudante. Na Seção 4 tem-se um tratamento do ensino cognitivo e suas fundamentações mais importantes úteis no ensino. Findando-se então este trabalho com as conclusões obtidas, na Seção 5.

2 – Fundamentos Neurológicos do Sistema Nervoso Humano

As funções cognitivas superiores estão estruturadas no sistema nervoso central humano. E a característica mais importante do sistema nervoso central que está relacionada ao aprendizado é a plasticidade da estruturação dos neurônios. Portanto, para que se tenha melhor entendimento de como se processa o aprendizado e se desenvolvem as funções cognitivas, é conveniente tratar neste tópico da estruturação do sistema nervoso.

O sistema nervoso humano pode ser dividido em dois sistemas: o Central e o Periférico.

Ambos são constituídos principalmente de neurônios e células auxiliares, as glias. O neurônios são responsáveis pelo processamento das informações do sistema nervoso, e as glias fornecem suporte estrutural e nutricional aos neurônios.

O neurônio são as células cinzentas do sistema nervoso pelas quais as informações transitam, são as células que concretizam os processos cognitivos. Ele é constituído de um corpo celular (ou soma) onde está localizado o núcleo celular, e prolongamentos. Para um lado prolongam-se os dendritos (mais curtos), e para o outro, os axônios (mais longos). Nas extremidades dos neurônios encontram-se as sinapses. As sinapses são elementos que atuam junção e comunicação entre os neurônios, é uma área onde ocorrem os fluxos de neurotransmissores, emitidos pelo elemento présináptico (axônio) e captados pelo elemento pós-sináptico (dendritos). Nos dendritos estão localizados receptores químicos que recebem os neurotransmissores emitidos pelas sinapses de outros neurônios, e os transformam em pulsos elétricos a serem processados pelo neurônio, que os transformam em informação química novamente ao chegarem nas terminações dos axônios. Os neurônios organizamse em circuitos, e a interação desses circuitos são a origem de todas as funções cerebrais do sistema nervoso, e assim sendo, de todos os processos mentais. A Figura 1 exibe um modelo de transmissão de informação entre neurônios.

Figura 1: Pulso elétrico provoca liberação de neurotransmissores na extremidade do neurônio. Fonte: PANTANO; ZORZI, 2009, p. 14.

As glias são células auxiliares de quatro tipos diferentes, que estão presentes no sistema nervoso que possuem suas funções principais: uma de manter as células nervosas presas umas nas outras, e de nutri-las. Estas células (de coloração branca) unem os neurônios aos capilares sanguíneos, servindo de meio de transporte de nutrientes. Também efetuam o transporte dos dejetos produzidos nos neurônios para o líquido cefalorraquidiano. Já no que tange o auxílio à comunicação entre os neurônios, as glias promovem o metabolismo dos neurotransmissores e regulam o equilíbrio iônico (químico) cerebral. Uma dessas regulações é a formação da bainha de mielina, que ao regular a troca iônica entre o meio externo e o axônio, permite que ajam acelerações no fluxo do pulso elétrico; e consequente aumento da velocidade da transmissão das informações.

O cérebro humano é dividido em dois hemisférios cerebrais, que apresentam na sua superfície, o córtex. Este é dividido por sulcos com espessura variando de 1,5 a 4,5 m, dependendo da região. O córtex cerebral é a camada externa do cérebro, constituído de circuitos neurais muito complexos que estão encarregados de realizarem as funções cognitivas do ser humano. Tem como característica a de se comunicar com a maioria das outras partes do cérebro, ao mesmo tempo que cada córtex dispõe de uma rede de conexões adaptada à sua função. Os sulcos mais profundos presentes no córtex dividem cada hemisfério em quatro grandes lobos: o frontal, o temporal, o parietal, e o occipital. Embora sejam anatomicamente similares, os dois hemisférios cerebrais diferem grandemente quanto às suas funções

(FIORI; 2008). Contudo, os dois hemisfério estão interligados através do corpo caloso, que é uma via de fibras nervosas (LENT, 2002)

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