Manual-de-pragas-de-soja (1)

Manual-de-pragas-de-soja (1)

(Parte 1 de 3)

Manual de Pragas da Soja

Autores: Henrique José da Costa Moreira Flávio Damasceno Aragão

Manual de Pragas da Soja

Henrique José da Costa Moreira Engº Agrônomo

Flávio Damasceno Aragão Engº Agrônomo

Campinas-SP 2009

Prefácio5
Introdução6
Cascudinho-da-soja (Myochrous armatus)8
Coró-da-soja (Phyllophaga cuyabana)9
Cupim-subterrâneo (Procornitermes triacifer)1
Lagarta-elasmo (Elasmopalpus lignosellus)15
Lagarta-rosca (Agrotis ipsilon)19
Percevejo-castanho (Atarsocoris brachiariae)23
Percevejo-castanho (Scaptocoris castanea)24
Piolho-de-cobra (Julus hesperus)27
Torrãozinho (Aracanthus mourei)31
Ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus)34
Ácaro-rajado (Tetranychus urticae)36
Larva-alfinete (Diabrotica speciosa)38
Broca-das-axilas (Epinotia aporema)42
Cascudinho-verde (Megascelis spp.)46
Cascudinho-verde (Maecolaspis spp.)48

MANUAL DE PRAGAS DA SOJA SUMÁRIO Pragas subterrâneas Pragas da parte aérea Formiga-cortadeira (Acromyrmex spp.) ...............................................................................................................................52

Formiga-cortadeira (Atta sexdens rubropilosa)56
Gafanhoto (Rhammatocerus schistocercoides)60
Grilo-pardo (Anurogryllus muticus)64
Lagarta-cabeça-de-fósforo (Urbanus proteus)6
Lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis)68
Lagarta-da-vagem (Etiella zinckenella)72
Lagarta-da-vagem (Spodoptera eridania)73
Lagarta-da-vagem (Spodoptera cosmioides)74
Lagarta-enroladeira (Omiodes indicatus)80
Lagarta-medideira (Pseudoplusia includens)84
Lagarta-medideira (Rachiplusia nu)8
Lagarta-medideira (Trichoplusia ni)92
Lagarta-militar (Spodoptera frugiperda)96
Mosca-branca (Bemisia tabaci raça B)100
Percevejo-acrosterno (Acrosternum hilare)104
Percevejo-barriga-verde (Dichelops furcatus)108
Percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus)109
Percevejo-asa-preta (Edessa meditabunda)114
Percevejo-formigão (Neomegalotomus parvus)116
Percevejo-marrom (Euschistos heros)118
Percevejo-pequeno (Piezodorus guildinii)122
Percevejo-verde (Nezara viridula)126
Tamanduá-da-soja (Sternechus subsignatus)130
Tripes (Frankliniella schultzei)132
Tripes (Caliothrips brasiliensis)133
Vaquinha-da-batatinha (Epicauta atomaria)136
Vaquinha-preta-e-amarela (Cerotoma arcuata tingomariana)138

O negócio é evoluir

Em mais de 30 anos de profissão, presenciei muitas mudanças na atividade agrícola. Vivenciei descobertas, fui testemunha das lutas, das perdas, mas também das muitas vitórias na árdua batalha dos produtores contra as pragas e doenças que acometem as lavouras. Toda a evolução a que assisti, vendo a agricultura cada vez mais se afastar do conceito de arte e se aproximar da ciência, fizeram-me ter uma fé inabalável de que temos as ferramentas necessárias para transformar esta numa atividade cada vez mais importante do ponto de vista econômico e também social. Naturalmente, dentro de um contexto de respeito ambiental e de sustentabilidade em uma autêntica Agricultura Responsável.

E a minha crença de que temos em nossas mãos a chave para um futuro glorioso só faz aumentar, posto que atualmente as evoluções nessa área caminham a passos gigantes. Mas não podemos esquecer também do importante trabalho de formiguinha realizado por gente que aposta suas fichas na busca pelo conhecimento, consciente do valor das informações técnicas para o exercício da atividade agrícola. Exemplos não faltam, mas por ora ressalto esta iniciativa de desenvolver um Manual de Pragas da Soja com tanta riqueza de detalhes e informação. Certamente será uma ferramenta inestimável para os profissionais que atuam no campo e mais um valioso instrumento de evolução.

Por todos esses motivos, enfatizo uma vez mais a minha crença de que o agronegócio do Brasil crescerá cada vez mais em tamanho e importância. A FMC estará, sempre na ponta desta evolução, acreditando e investindo na agricultura e reforçando sua presença e participação nos mercados de soja e milho, onde estamos predestinados a uma posição de liderança em poucos anos.

Antonio Carlos Zem Diretor-Presidente América Latina

A habilidade de identificação das pragas em seus diversos estágios de desenvolvimento e os desafios enfrentados a cada safra na cultura da soja foram o que motivou a criação deste livro, que, pela sua importância, promete ser, desde já, uma referência para este cultivo. Tenho certeza de que se tornará um verdadeiro guia para os profissionais envolvidos no trabalho dessas culturas, auxiliando-os no dia-a-dia da sua atividade.

Fruto de um trabalho primoroso executado pelos consultores Henrique Moreira e Flávio Aragão, o manual traz fotos e descrições que ajudam a identificar as pragas nos seus vários estágios, antecipando seu potencial de danos e, dessa forma, constituindo-se em uma fonte de consultas indispensável para identificar as pragas presentes na cultura. Ponto primordial na definição de uma estratégia de controle.

São mais de 140 páginas, com fotos de pragas devidamente identificadas, registradas em diferentes fases, que resultaram de um estudo realizado pelos autores nos últimos anos em suas visitas a lavouras. Associada às fotos, há no livro, também, uma minuciosa descrição que derivou de consulta a literaturas conhecidas, de onde foram extraídas as informações sobre as pragas, indicando seu ciclo biológico, períodos de ocorrência e condições climáticas favoráveis para a sua multiplicação.

Por tudo isso apoiar essa iniciativa é mais do que uma prestação de serviço da FMC ao produtor. É, principalmente, uma forma de contribuirmos com o agronegócio brasileiro, tornando mais simples o trabalho de quem atua diretamente no campo.

Gustavo Canato Gerente de Produto - FMC Agricultural Products

Pragas subterrâneas

Cascudinho-da-soja

Myochrous armatus (Baly, 1865) (Coleoptera: Chrysomelidae)

Besouro com 5 m de comprimento, formato oval e coloração cinza-escura, marrom ou preta, sempre com manchas mais escuras ou claras. Os adultos têm pouca habilidade para voar e quando perturbados se fingem de mortos e permanecem imóveis ou se jogam ao chão. As larvas são amareladas e vivem no solo. Alimentam-se de matéria orgânica e raízes de plantas de diversas espécies. Não causam danos significativos nessa fase. Os adultos atacam várias culturas, entre elas a soja. O ataque geralmente ocorre poucos dias após a emergência das plantas. Nesse período, os insetos concentram-se no caule e causam o tombamento e a morte das plântulas. Se essa fase coincidir com uma estiagem, o ataque pode ser mais danoso. Também podem infestar plantas mais desenvolvidas. Nesse caso, os alvos são os pecíolos e as hastes mais finas, que murcham e secam.

Coró-da-soja

Phyllophaga cuyabana (Moser, 1918) (Coleoptera: Melolonthidae)

Besouros de coloração castanha, com até 2 cm de comprimento e sem chifres. Possuem hábitos noturnos e realizam as revoadas para acasalamento a partir de outubro. Após o acasalamento, os ovos são postos no solo em até 15 cm de profundidade. Em média, são necessários 10 dias para a eclosão, sendo que variações na temperatura e umidade do solo podem adiantar ou retardar esse processo. As larvas são chamadas de corós. Elas possuem corpo recurvado e esbranquiçado, cabeça castanha ou marrom e três pares de pernas torácicas (Fig. 01.1). Podem chegar a 4 cm de comprimento. O seu hábitat de desenvolvimento é o solo, onde podem ser encontradas a até 40 cm de profundidade. Essa é a fase mais longa do ciclo biológico e dura mais de 250 dias. Só ocorre uma geração por ano. Esses besouros são comuns em lavouras de soja e em diversas outras culturas. Os adultos são responsáveis pela reprodução e dispersão da espécie. As fêmeas consomem folhas, mas não causam danos significativos. Os prejuízos são causados pelas larvas, que se alimentam de raízes e podem causar a morte das plantas, especialmente as recém-germinadas. Os ataques ocorrem em reboleiras e são identificados pela observação de plantas amareladas e pouco desenvolvidas.

Cupim-subterrâneo

Procornitermes triacifer (Silvestri, 1901) (Isoptera: Termitidae)

Os cupins são muito comuns em áreas de cerrado, lavouras e pastagens degradadas. Sua presença é bastante associada aos montes de terra endurecida na superfície do solo, construídos por cupins-de-montículo. Algumas espécies, como P. triacifer, constroem ninhos subterrâneos, que são menos visíveis. Entretanto, alguns ninhos de cupim-subterrâneo também afloram na superfície, porém são frágeis e não causam impedimentos aos implementos agrícolas. A sociedade dos cupins é dividida em reis e rainhas reprodutores, espécimes alados e operários. Os soldados, responsáveis pela defesa da colônia, são os indivíduos utilizados para identificação da espécie. São amarelados no geral, sendo a cabeça castanha e as mandíbulas são escuras e em forma de pinça (Fig. 02.1, Fig. 02.2, Fig. 02.3). Estão presentes em diversos ecossistemas, tais como cerrado e matas fechadas. Passam a maior parte do tempo no subsolo, onde constroem longas galerias em diferentes profundidades. Estão sempre em busca de locais com umidade e temperatura ideais e boa oferta de alimentos. São insetos mastigadores e polífagos que se alimentam de matéria vegetal em decomposição ou viva. Em lavouras, consomem sementes e raízes. Com isso, provocam falhas nas linhas de plantio e o enfraquecimento e a morte das plantas, especialmente as mais jovens. Também podem atacar a parte aérea dos vegetais.

1312 Fig. 02.1 - Cupim-subterr neoFig. 02.2 - Cupim-subterr neo

Lagarta-elasmo

Elasmopalpus lignosellus (Zeller, 1848) (Lepidoptera: Pyralidae)

Mariposa de hábitos noturnos com cerca de 2 cm de envergadura e coloração geral cinza. As fêmeas (Fig. 03.2) apresentam cor mais escura e homogênea do que os machos (Fig. 03.3), cujas asas são claras com bordas escuras. Quando estão em repouso, permanecem com as asas rentes ao corpo e podem ser confundidos com restos vegetais. As fêmeas ovipositam no solo próximo das plantas hospedeiras e têm preferência por solos arenosos e secos. Os ovos inicialmente são claros e, com o aproximar da eclosão, tornam-se vermelho-escuros. As lagartas são amareladas ou esverdeadas com listras e anéis vermelhos no corpo. Quando completamente desenvolvidas medem de 1 a 2 cm de comprimento (Fig. 03.1). São elas que causam os danos à cultura. Alimentam-se do caule e das folhas das plântulas, causando murcha, seca e tombamento. Nas plantas maiores, abrem galerias no interior do caule e constroem um abrigo conectado a essa galeria ou próximo dela, onde a pupa será formada. O resultado do ataque é o enfraquecimento, tombamento e até a morte da planta. Possuem alta mobilidade, o que explica a possibilidade de uma única lagarta atacar várias plantas e causar grandes falhas nas linhas de plantio, comprometendo seriamente o estande da cultura. O ataque é mais danoso na fase inicial da cultura, pois as plantas jovens são facilmente devoradas e possuem menor capacidade de recuperação.

1716 Fig. 03.1 - Lagarta-elasmoFig. 03.2 - Lagarta-elasmo (f mea adulta)

Lagarta-rosca

Agrotis ipsilon (Hufnagel, 1767) (Lepidoptera: Noctuidae)

Os adultos são mariposas que podem atingir até 5 cm de envergadura e têm coloração que varia do pardo ao marrom. Sua cabeça, tórax e asas anteriores apresentam pontuações e manchas escuras de vários formatos. Suas asas anteriores são mais claras, podendo ser translúcidas e apresentar manchas (Fig. 04.3). Os ovos são depositados em colmos, hastes, folhas ou no solo, próximo das plantas hospedeiras. Eles são esbranquiçados e podem ser encontrados isolados ou em grupos. As lagartas medem até 5 cm de comprimento, são robustas, lisas e de coloração variável, com predominância do cinza-escuro e marrom com pontuações pretas (Fig. 04.1 e Fig. 04.2). Possuem hábitos noturnos e durante o dia ficam abrigadas no solo, sob a vegetação morta, em buracos ou sob torrões, normalmente próximos das plantas das quais se alimentam. Sua principal característica é se enrolar quando perturbadas. A fase larval dura aproximadamente 30 dias. A pupa é encontrada no solo dentro de casulos de terra construídos pelas lagartas. O inseto permanece nesse estágio por aproximadamente 15 dias, quando então eclode o adulto, reiniciando o ciclo. Os prejuízos causados pelas lagartas são relatados principalmente na fase inicial da cultura, pois elas se alimentam das sementes recém-germinadas e da haste das plantas. Os principais danos observados em campo são reboleiras com falhas de germinação, plantas murchas e tombadas. O ataque também pode ocorrer em plantas mais velhas. Nesse caso, as lagartas cortam folhas ou abrem galerias e seccionam a base do caule e as raízes mais superficiais.

2120 Fig. 04.1 - Lagarta-roscaFig. 04.2 - Lagarta-rosca

2322 Fig. 04.3 - Lagarta-rosca (adulto)

Percevejo-castanho

Atarsocoris brachiariae (Becker, 1996) (Hemiptera: Cydnidae)

Os adultos têm corpo oval com cerca de 1 cm de comprimento e cor amarelada (Fig. 05.2). As ninfas são mais claras e têm coloração geral esbranquiçada (Fig. 05.1). O ciclo biológico dura de 10 a 12 meses. Vivem no solo, aproximadamente a 30 cm de profundidade, durante toda sua vida, onde obtêm boas condições de umidade e temperatura. Em busca de tais condições, podem se aprofundar a mais de 1 m, o que geralmente ocorre durante a seca. Deixam seu hábitat natural apenas por alguns dias na estação chuvosa. Nessa ocasião, são observadas revoadas de machos e fêmeas que vão em busca de novas áreas e também ocorre a postura dos ovos. A sua presença é facilmente notada pelo cheiro que liberam e o som estridente que produzem. Tanto os adultos quanto as ninfas se alimentam da seiva de raízes de várias espécies de plantas cultivadas e silvestres. Ambos possuem patas dianteiras adaptadas para escavação. Os danos observados em campo são reboleiras com plantas pouco desenvolvidas e com sintomas de deficiência nutricional e hídrica. Além de sugarem a seiva, os insetos também injetam substâncias tóxicas, prejudicando ainda mais a cultura. A região atacada das raízes fica escurecida e as plantas enfraquecidas podem morrer.

Percevejo-castanho

Scaptocoris castanea (Perty, 1830) (Hemiptera: Cydnidae)

O comportamento, a aparência e a biologia desse inseto são muito semelhantes aos do outro percevejo-castanho, Atarsocoris brachiariae. Ambos vivem no solo, alimentam-se da seiva de raízes de diversas plantas cultivadas, realizam as revoadas durante as chuvas e exalam forte odor quando expostos na superfície. A diferenciação entre as espécies baseia-se em algumas características dos tarsos, do orifício ostiolar e do ápice do clípeo. Os danos nas lavouras também são observados em reboleiras e as plantas atacadas apresentam desenvolvimento inferior ao restante da cultura e alguns sintomas de deficiência nutricional e hídrica. Esses problemas ocorrem em razão da sucção da seiva e da injeção de substâncias tóxicas. As plantas enfraquecidas podem morrer.

Fig. 05.1 - Percevejo-castanho (ninfa)

2726 Fig. 05.2 - Percevejo-castanho (adulto)

Piolho-de-cobra, centopéia

Julus hesperus (Chamberlin, 1914) (Diplopoda: Julida)

Esses artrópodes podem passar de 10 cm de comprimento e possuem o corpo formado por vários segmentos, com dois pares de pernas em cada um (Fig. 06.1). Apresentam hábitos noturnos e durante o dia abrigam-se sob palhada, pedras, torrões, troncos ou em túneis abertos no solo. Quando ameaçados, enrolam-se em uma espiral (Fig. 06.2 e Fig. 06.3). Eles se alimentam de material vegetal vivo ou em decomposição e são mais comuns em solos pouco revolvidos e com boa cobertura vegetal, como ocorre no plantio direto. A reprodução é sexuada e seus ovos são postos no solo. Geralmente ocorre apenas uma geração por ano, mas em temperaturas altas pode ocorrer mais. Essa praga causa danos no início da cultura, pois se alimenta de sementes, cotilédones e plântulas. Os piolhos geralmente se concentram nas linhas de plantio, onde penetram o solo mais facilmente e obtêm o alimento. Em altas infestações, pode haver grandes falhas de germinação e necessidade de replantio. As maiores perdas ocorrem quando o ataque coincide com condições de estresse, como seca, profundidade excessiva de semeadura e solos frios com excesso de umidade.

2928 Fig. 06.1 - Piolho-de-cobraFig. 06.2 - Piolho-de-cobra

Torrãozinho

Aracanthus mourei (Rosado Neto, 1981) (Coleoptera: Curculionidae)

Besouro com poucos milímetros de comprimento, formato oval e coloração cinza-escura ou marrom. Os adultos têm o hábito de se jogar no solo e fingir de mortos quando perturbados. Eles possuem protuberâncias na região dorsal às quais aderem detritos do solo e os deixam parecidos com torrões de terra. Apresentam maior atividade durante a noite e em dias com menor luminosidade. Seu ciclo de vida é anual e passam a maior parte dele na fase larval, alimentando-se de raízes e matéria orgânica no solo. O ataque geralmente ocorre na fase inicial da cultura e se inicia pelas bordas das lavouras. Os sinais típicos do ataque são folhas com as margens recortadas ou com perfurações (Fig. 07.1). Além das folhas, os besouros também podem se alimentar de cotilédones, hastes, gemas de crescimento e brotações.

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