lavrado roraima paisagem

lavrado roraima paisagem

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São Paulo, UNESP, Geociências, v. 34, n. 1, p.5-68, 2015 5

Roseane Pereira MORAIS1 & Thiago Morato de CARVALHO2

(1) Mestranda em Geografia, Departamento de Geografia da Universidade Federal de Roraima, Boa Vista. Endereço eletrônico: moraisroseane@ymail.com (2) Professor coordenador do Lab. de Métricas da Paisagem (Mepa), Departamento de Geografia, Universidade Federal de Roraima, Boa Vista. Endereço eletrônico: thiago.morato@ufrr.br

Introdução Materiais e métodos

Caracterização da área de estudo Metodologia aplicada

Resultados e discussão

Aspectos fisiográficos do lavrado, nordeste de Roraima Cobertura da paisagem do lavrado A paisagem do lavrado como escala espacial para gestão territorial

Considerações finais Referências bibliográficas

RESUMO - Esta pesquisa teve como objetivo a caracterização da paisagem do lavrado roraimense, com enfoque em uma abordagem não somente funcional da ecologia, mas também com destaque para a valorização dos conceitos e técnicas da geografia, que como ciência do espaço possui um vasto conhecimento sobre os elementos que compõe dada paisagem e sobre os processos que a dinamizam. A metodologia abordada foi o uso de técnicas de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto para quantificação estatística das unidades da paisagem que mais se destacam no ambiente estudado, entre elas estão os sistemas lacustres do lavrado e os municípios que fazem parte dessa extensa matriz dominante. Essa quantificação também foi realizada com a aplicação de algumas métricas (ou índices) da paisagem, tais como índice de forma e índice de classes. Os resultados nos mostram que o lavrado de Roraima é uma região única, com atributos próprios e por esta razão deve ser estudada com enfoque em sua própria biodiversidade, identidade ecológica e cultural e o uso de técnicas estatísticas merecem ter maior destaque nos estudos da paisagem em geral do Estado, pois os estudos de paisagem ainda são, por vezes, subjetivos e descritivos, tornando o conhecimento limitado. Palavras-chave: Ecologia da Paisagem. Geografia de Roraima. Lavrado de Roraima. Técnicas Estatísticas e de Geoprocessamento.

ABSTRACT - This research had as objective the characterization of the landscape of lavrado Roraima, focusing on an approach that is not only functional, but also ecology with emphasis on the appreciation of the concepts and techniques of geography, like space science has a vast knowledge about the elements that make up given landscape and on the processes that streamline. The methodology addressed was the use of Gis and remote sensing techniques to statistical quantification of landscape units that stand out in the environment studied, among them are Lake systems of the plowed and the municipalities that are part of this extensive dominant matrix. This quantification was also performed with the application of some metrics (or indices) of the landscape, such as shape index and index of classes. The results show us that the lavrado of Roraima is a unique region, with own attributes and for this reason should be studied with a focus in their own biodiversity, ecological and cultural identity and the use of statistical techniques deserve to have greater prominence in the landscape studies in General, because the landscape studies are still sometimes subjective and descriptive, making the limited knowledge. Keywords: Landscape Ecology. Geography of Roraima. Lavrado Roraima. Statistical Techniques and Geoprocessing.

O processo de caraterização da paisagem é bastante complexo, por se tratar de um tema que vem sendo discutido ao longo dos anos sobre diversas perspectivas de análise, sobretudo na área da Geografia. A paisagem é um termo de difícil definição, pois durante seus estudos e comparações é levada em consideração uma série de fatores que se individualizam no ponto de vista do pesquisador, tais como estéticos, culturais e históricos. Em escalas temporais distintas, análise multi-temporal, podemos enxergar na paisagem aparentemente estática o dinamismo dos elementos que a compõe, seja estes relacionados às forças naturais, que atuaram e atuam no modelado do relevo, como o sistema de drenagem, clima, tectônica, etc.; seja devido às forças humanas manifestas em distintos modos de produção e formações sociais, culturais, que evoluem ao longo das gerações (Soares Filho, 1998; Morais & Carvalho, 2013).

Segundo Hovel & Lipcius (2001) os estudos que envolvem a fragmentação de paisagens costumam enfatizar a importância do tamanho e isolamento desses fragmentos, já que a diminuição das áreas nativas implica em uma redução do tamanho populacional e o isolamento dessa fragmentação reduz o fluxo de espécies, aumentando os riscos de extinção em paisagens com uma biodiversidade endêmica, como por exemplo, as áreas campestres do nordeste de Roraima, o lavrado. De maneira simplista, essas relações entre fragmentação, conectividade e biodiversidade são passíveis de serem quantificadas como uma medida de controle temporal e espacial das atividades humanas sobre o ambiente natural, quando aplicadas dentro de uma abordagem geográfica e sobre a perspectiva ecológica contribuem para a conservação de ambientes naturais (Morais & Carvalho, 2013).

Diante de um complexo envolvimento de variáveis sejam físicas, bióticas ou sociais, não se pode falar de paisagem sem compreender a que processos (interação entre os elementos) ela está inserida. É preciso entender como ela está organizada (estruturada), suas funcionalidades e a que mudanças ela está passível de sofrer ao longo do tempo. Neste último caso, a temporalidade faz diferença para que haja modificações no comportamento de ordem natural ou antrópica as quais influenciam nos padrões do sistema paisagístico. Morais & Carvalho (2013) deixam claro que a paisagem é dinâmica, passível de modificação de ordem escalar espacial e temporal, provenientes de forçantes físicas, biológicas e sociais, as quais atuam mutuamente no equilíbrio dinâmico dos elementos estruturantes, os quais estão dispostos na paisagem de acordo com suas funções e adaptações ao meio. Este é o ponto de partida para se explorar estudos que abarcam as características fisiográficas de uma determinada região, analisar seus elementos funcionais, base para compreender sua evolução.

Por exemplo, as perguntas que podem ser respondidas com base neste ponto de vista são: quais os ambientes alagáveis no lavrado? Existem ambientes que permanecem secos, ou seja, são bem drenados impedindo o acúmulo de água nos meses chuvosos? Onde estão os ambientes sempre úmidos, com água perene, estes são exclusivos de ambientes fluviais e lacustres? Quais as características morfológicas da zona de transição aquática-terrestre no lavrado? Quais as características do relevo destes ambientes? Quais os principais sistemas hidrográficos que drenam o lavrado, estão conectados ou não?

A paisagem a qual é foco deste estudo, o lavrado de Roraima, está inserido no maior sistema de áreas abertas da Amazônia setentrional, com aproximadamente 70.0 km², e situa-se principalmente no Estado de Roraima, com enclaves na Venezuela (Gran Sabana) e Guiana (Rupununi) (Figura 1). A morfologia do relevo apresenta diferentes associações com unidades agradacionais e denudacionais.

De acordo com o mapeamento do projeto Radambrasil, este sistema é denominada de Pediplano Rio Branco-Rio Negro, o qual de forma generalizada é pertencente ao domínio morfoclimático em patamares erosivos e superfícies pediplanadas, sobre rochas do Pré- Cambriano (Veloso, et al., 1975; AbSaber, 2003).

Na verdade trata-se de um sistema hidrogeomorfológico com um mosaico de unidades geomorfológicas e vegetacionais, oriundas de processos agradacionais e denudacionais, formando extensas planícies regionais de aplainamento e sistemas recuantes erosivos, discutidos aqui em uma primeira aproximação.

Sobre as unidades agradacionais, estas estão associadas às planícies fluviais, aos depósitos aluvionares e aos sistemas lacustres, os quais são independentes à dinâmica de sistemas fluviais. São unidades bem desenvolvidas na região do lavrado de Roraima, cuja morfologia é característica de superfície de aplainamento rebaixada, com dissecação fraca/muito fraca, variando aproximadamente de 50 a 200 metros. As regiões do Rupununi (Guiana) e Gran Sabana (Venezuela), destacamse por planícies de aplainamento com maior grau de dissecação, planícies fluviais menos desenvolvidas e encaixadas, e sistemas lacustres não significativos, atuando em patamares entre 100 e 200 metros no Rupununi, cuja extensão geral norte sul é em torno de 200 km; e entre 1000 e 1300 metros na Gran Sabana, com extensão geral norte sul em torno de 140 km, domínio dos tepuyes (relevo tabuliforme). O contato entre a superfície regional de aplainamento da Gran Sabana com a superfície mais rebaixada adjacente, o lavrado de Roraima, é por um sistema erosivo recuante, com forte controle estrutural, o qual denominamos de Sistema Erosivo Recuante Parima-Pacaraima, cuja extensão norte sul é em torno de 50 e 70 km.

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Discute-se também sobre as unidades denudacionais, formadas por morros isolados e complexos de serras associadas a forte controle estrutural. Estas unidades são mais abrangentes na Venezuela, Guiana e adjacências das áreas abertas de Roraima, ao longo do sistema erosivo recuante Parima-Pacaraima. O relevo com unidades denudacionais associadas é predominantemente erosivo, escarpado, colinoso e associados a processos de ravinamento, sobre rochas do pré-Cambriano (exemplo granitos e gnaisses) e rochas do Jurássico (exemplos basaltos, diques de diabásio e arenitos). Possui médio e forte grau de dissecação com declividade variando de 3° a 40°.

A metodologia abordada a partir de métodos de quantificação das unidades de paisagem é utilizada como resultado da integração de estudos da paisagem numa perspectiva de análise de escala ecológica e sua aplicabilidade na resolução de problemas ambientais. A Ecologia de Paisagens centraliza o reconhecimento de interdependência espacial entre as unidades de paisagem, ou seja, o pleno funcionamento de determinado sistema é regido pelas interações que uma unidade mantém com as unidades vizinhas (Metzger, 2001), sendo uma fusão entre análise espacial da geografia e o estudo funcional da ecologia. Por isso a utilização de métodos quantitativos que associam padrões espaciais e processos ecológicos em diferentes escalas.

Essa pesquisa irá contribuir com estudos sobre quantificação de unidades da paisagem em Roraima, funcionando como base para futuras abordagens científicas da temática, fornecendo subsídios com embasamento estatístico da relação entre as heterogeneidades do lavrado, em desenvolvimento no Laboratório de Métricas da Paisagem (Dep. Geografia/UFRR). Essa situação se justifica pela necessidade de se trabalhar com questões relacionadas a métodos quantitativos de unidades da paisagem, cuja base está na Ecologia da Paisagem, Geossistemas e Geografia Regional no Estado de Roraima, em particular na região nordeste do estado, domínio regional do Lavrado. Região que apresenta uma diversidade física complexa e um histórico de expansão de suas cidades. É dentro dessa perspectiva que os modelos de quantificação da paisagem podem ser utilizados também no auxílio da gestão sobre a influência antrópica, em áreas de conectividade regional - Georedes (redes urbanas-rural), as quais precisam ser caracterizadas na relação de seu domínio na paisagem, contribuindo para o planejamento e gestão territorial da região.

Caracterização da área de estudo

No domínio florestal da Amazônia ocorrem alguns enclaves de áreas abertas naturais: as campinas, campinaranas, e no caso do nordeste de Roraima o lavrado, que caracteriza-se por ser um sistema campestre com área de 43.281,519 km², que se estende parte para Guiana e Venezuela (Figura 1). É um ambiente considerado por compor uma fitofisionomia com características específicas e singulares inseridas dentro do domínio morfoclimático da Amazônia (Carvalho & Carvalho, 2012a; Carvalho, 2009; Vanzolini & Carvalho, 1991; Veloso et al., 1975).

O lavrado de Roraima abrange 19,30% do Estado, uma área considerável em relação as diversas peculiaridades que se contrastam notoriamente com a floresta densa, que predomina na Amazônia. Suas características visuais lembram o cerrado, no entanto, essas semelhanças só seguem até este ponto, já que o lavrado possui seus próprios atributos ecológicos e geográficos. O termo lavrado é utilizado regionalmente pela população, surgiu da identidade histórica e cultural dos moradores dessas áreas e sua relação indissociável com a paisagem onde vivem. A partir dessas concepções essenciais e por considerar que os nomes regionais para paisagens com grandes extensões devem ter prioridade, deve-se atribuir este termo as áreas abertas do nordeste de Roraima (Carvalho, 2009).

Figura 1. 1 - Limite do Lavrado em Roraima; 2 - Gran Sabana; 3 - Rupununi, Amazônia setentrional.

Cerca de 72,03% da população do Estado mora nessa região. A capital de Roraima, Boa Vista possui 284.313 habitantes (IBGE, 2010), é a maior concentração populacional de Roraima, a qual está inteiramente dentro do domínio do lavrado. Os demais municípios que tem parcialmente áreas dentro do lavrado são Alto Alegre, Amajari, Pacaraima, Normandia, Uiramutã, Bonfim e Rorainópolis. Uma das atividades econômicas predominante sobre as pastagens nativas do lavrado é a pecuária bovina, que segundo Gianluppi et al., (2001) caracteriza-se por ser uma atividade extensiva e pouco produtiva. Na região, a atividade mais importante é o cultivo de orizicultura, arroz irrigado ou de várzea.

O clima predominante nesta região apresenta duas estações bem definidas, uma chuvosa e outra seca, com temperatura média entre máximas de 30° e médias mínimas de 22°, com umidade relativa média de 67%. De acordo com os dados analisados da estação pluviométrica de Boa Vista para o período de 1910 a 2010, a estação chuvosa inicia-se entre Abril-Maio e estende-se até Agosto-Setembro, a estiagem é característica entre Outubro a Março, com média pluviométrica de 1643 m/ano. A média de precipitação para a estação chuvosa é de 230,85 m/ano, sendo no início da estação chuvosa de 210 m/ano (Abril-Maio); em Junho-Julho no período de máxima precipitação, a média é de 330 m/ano. O período de Outubro a Março retorna a estiagem, com médias de 4,98 m/ano, os meses de menor precipitação são Janeiro- Fevereiro com 29 m/ano. A diferença média percentual da precipitação entre as duas estações é de 431,2%.

A cobertura vegetal dominante do lavrado roraimense é formada por uma camada de gramíneas e ciperáceas em algumas áreas francamente abertas, em outras elas são entremeadas por vegetação arbustiva, como o caimbé (Curatella americana) e murici (Byrsonima spp) e árvores como sucuuba (Himatanthus articulatus) e sucupira do campo ou paricarana (Bowdichia virgilioides) (Oliveira, 2011). Além destas, a vegetação do lavrado é composta por complexa rede de ilhas de matas diversamente distribuídas por formações de buritizais lineares ou agrupados. Os buritizais (Mauritia flexuosa) presentes nesta região se distribuem de duas maneiras, a primeira, são os que se formam ao longo dos igarapés que drenam o lavrado, os quais são interconectados com os principais rios por uma mata de galeria, e a segunda formação de buritizal, é associada aos paleocanais (terraços) de alguns rios como o Cauamé, Uraricoera e Branco, dispostos em agrupamento (Carvalho & Carvalho, 2012a) (Figura 2).

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