Impactos ambientais em bacias hidrográficas-rup

Impactos ambientais em bacias hidrográficas-rup

(Parte 1 de 3)

Raimundo Mainar de Medeiros

Doutorando em Meteorologia/PPGM, UFCG, Campina Grande - PB, Av. Aprígio Veloso 882, CEP 58109-970, e-mail: mainarmedeiros@gmail.com

Manoel Francisco Gomes Filho

Prof. Dr. Unidade Acadêmica de Ciências Atmosférica, UFCG, Campina Grande - PB, Av. Aprígio Veloso 882, CEP 58109-970, mano@dca.ufcg.edu.br

O artigo retrata a degradação ambiental que ocorre em regiões de bacias hidrográficas, relacionando alguns impactos ambientais e suas características, abordando como equacionar de forma positiva esses impactos, ou seja, como revitalizar as áreas degrada. Evidencia-se como exemplo a bacia hidrográfica do rio Uruçuí Preto (BHRUP) no sudoeste do Estado do Piauí, com toda sua peculiaridade climática no tempo e no espaço. Concluindo-se que com medidas de manejo adequadas e ações mitigadoras, a recuperação das áreas impacta das bacias hidrográficas ocasionará a melhoria da qualidade da água, no combate e controle da poluição difusa, no melhoramento da flora e consequentemente da fauna, ou seja, uma reabilitação ambiental quase completa, favorecendo o meio ambiente e consequentemente o homem. Palavras-chaves: Degradação ambiental; variáveis hidrográficas; chuva.

The article portrays the environmental degradation that occurs in regions of watersheds, relating some environmental impacts and its characteristics, addressing how to resolve these impacts positively, ie as revitalize degraded areas. Is evidenced as an example the river basin Uruçuí Preto (BHRUP) in the southwest of Piauí State, with all its climatic quirk in time and space. Concluding that with appropriate management and mitigation actions, the recovery of areas impacting watershed will cause the improvement of water quality, the combat and control of diffuse pollution, improvement of flora and fauna as a result, ie a almost complete environmental remediation, favoring the environment and consequently man. Keywords: environmental degradation; hydrographic variables; rain.

A bacia hidrográfica é o elemento fundamental de análise no ciclo hidrológico, principalmente na sua fase terrestre, que engloba a infiltração e o escoamento superficial. Ela pode ser definida como uma área limitada por um divisor de águas, que a separa das bacias adjacentes e que serve de captação natural da água de precipitação através de superfícies vertentes. Por meio de uma rede de drenagem, formada por cursos d’água, ela faz convergir os escoamentos para a seção de exutório, seu único ponto de saída (Linsley et al., 1978; Tucci, 1977). Isso significa que a bacia é o resultado da interação da água e de outros recursos naturais como: topografia, vegetação e clima. Assim, um curso d’água, independentemente de seu tamanho, é sempre o resultado da contribuição de determinada área topográfica, que é a sua bacia hidrográfica (Brigante et al, 2003).

A água tem sido a centralizadora das atenções mundiais nos últimos anos, gerando diversas discussões sobre a utilização dos recursos hídricos, como: uma melhor gestão e uma melhor adequação desses recursos tão escassos. Os sistemas aquáticos, apesar de importantes para a manutenção da vida, vêm sofrendo, devido às ações humanas, um processo acelerado de deterioração das suas características físicas, químicas e biológicas, que por sua vez, resultou na atual crise mundial, na qual grande parte da água doce do planeta apresenta algum tipo de contaminação, acarretando efeitos nocivos para a população em geral.

A importância da conservação e do uso sustentável das áreas úmidas vem sendo pauta de pesquisas e tratados intergovernamentais. O estabelecimento de diretrizes para avaliação ambiental em regiões que contemplem ou interferem na qualidade e na dinâmica de áreas úmidas tem sido prioridade em estudos desenvolvidos por organizações nacionais e internacionais voltadas ao meio ambiente.

A convenção sobre Áreas Úmidas, assinada em Ramsar, Irã, em 1971, é um tratado intergovernamental para a conservação e o uso racional das áreas úmidas, através de ações regionais, nacionais e cooperação internacional, visando atingir o desenvolvimento sustentável no mundo (Frazier, 2002).

O modelo de civilização geradora da crise ambiental pela qual passamos é o resultado da relação desmistificada e utilitarista do homem com a natureza, que teve na Europa pós-medieval seus precursores, e se difundiu posteriormente para o mundo colonizado, o qual comparava os sistemas vivos a simples máquinas biológicas, análogos a um relógio, sendo possível conhecê-los completamente pela análise das suas partes, numa visão profundamente reducionista e incapaz de alcançar a matriz sistêmica na qual toda a natureza está inserida. Essa forma equivocada de abordagem permitiu a barbárie na relação do homem com o meio ambiente natural e a consequente exploração desenfreada dos recursos naturais, culminando na moderna sociedade de consumo (Pelizzoli,1999).

Foram nesses contextos que se desenvolveram os principais centros urbanos do mundo ocidental moderno. Por necessidades óbvias, esses centros urbanos, com suas demandas e produção de resíduos, instalaram-se próximos aos rios, lagoas e lagos, exercendo grande pressão sobre esses sistemas, carregando desde a sua origem um grande passivo ambiental Silva et al., 2006. Indo de contraponto com a formação da bacia hidrográfica como unidade básica natural, pois é uma unidade geográfica pré-estabelecida naturalmente, possuindo características biogeofísicas e sociais integradas.

Desta forma, é importante salientar que o nível de degradação ambiental em que se encontram as nossas bacias hidrográficas, bens imprescindíveis para as nossas vidas, decorre da falta de comprometimento ambiental e da inadequação das nossas políticas públicas, normas e falta de pessoal especializado, geraram e geram profundas vulnerabilidades ambientais em termos de impactos ao meio ambiente, que por sua vez podem ser revistos, dando o devido tempo de recuperação aos recursos naturais.

Não obstante, se essas considerações não forem adequadas ao tempo necessário que a natureza necessita, o grande perdedor da história será o homem, o maior vilão ambiental de todos os tempos, perdendo todas as suas reservas de água, solo férteis, fauna, flora, ou seja, toda a biodiversidade que é tão importante para o equilíbrio ambiental e a harmonia do nosso planeta.

Thomaz & Vestena (2003) ressaltam que a bacia hidrográfica pode ser considerada um sistema físico em que a entrada é o volume de água precipitado e a saída é o volume de água escoado, considerando-se como perdas intermediárias os evaporados, transpirados, captados e infiltrados profundamente.

O conceito de bacia hidrográfica como unidade de planejamento e gestão ambiental é resultante do conhecimento das relações entre as características físicas de uma bacia de drenagem e quantidade e qualidade das águas que chegam ao corpo hídrico; por outro lado, as características de um corpo hídrico refletem as de sua bacia de drenagem (Pires at al., 2002), levando também em consideração todas as suas características químicas e biológicas do corpo hídrico.

Neste contexto, a metodologia de adotar a bacia hidrográfica como unidade geoambiental de estudo dos processos de degradação ambiental é a mais apropriada no caso da contaminação difusa de corpos hídricos. Portanto, importante se faz monitorar os teores de substâncias orgânicas, como os agrotóxicos, e inorgânicos como o nitrato, cloreto, sulfato e fosfato, mercúrio, arsênio capazes de afetar a qualidade das águas superficiais e subterrâneas. Os impactos na qualidade da água e do solo devido ao uso de agroquímicos estão associados a diversos fatores tais como o ingrediente ativo da formulação, contaminantes existentes como impurezas dos processos de fabricação, aditivos que são misturados (agentes molhantes, diluentes ou solventes, adesivos, conservantes e emulsificantes). Os produtos resultantes da degradação química, microbiológica ou fotoquímica dos ingredientes ativos, constituem-se em motivos de grande apreensão, pois estes metabólicos possuem atividade ecotoxicológica muitas vezes mais intensa que a molécula original (Hemond et al., 2000).

da natureza da comunidade vegetal presente (Ruhe, 1975; Bahia, 1992)

Por outro lado, a ocupação antrópica das terras através de usos múltiplos indica a complexidade e dificuldade na elaboração de propostas para a gestão territorial, tanto em nível local como regional. Especificamente, o uso da terra que se destacam, por afetar diretamente a agricultura, que têm sido objeto de interesse de instituições e órgãos governamentais voltados ao planejamento e à adoção de políticas agrícolas viáveis ao desenvolvimento sem agressão ambiental, alguns impactos é observado na Tabela 1. Principalmente nas bacias hidrográficas, umas das ações supracitadas, a erosão, ou seja, a erosão hídrica, que é causada pela água das chuvas, é identificada como a principal causa do empobrecimento do solo. Neste processo, a estrutura do solo é destruída pelo impacto da chuva que atinge a superfície do terreno e, em seguida o material solto, rico em nutrientes e matéria orgânica, é removido do local e depositado nas depressões no interior das vertentes e no fundo dos vales. A intensidade de ação deste processo erosivo depende, além do clima, da resistência do solo e da presença de diversas condições ligadas ao manejo do solo e água e

Impactos NaturaisImpactos Antrópicos
erupções ulcânicasdiminuição da matéria orgânica;
terremotoscompactação;
inundaçõesimpermeabilização;
tornadossalinização;
furacõesdesabamento de terras;
maremotoscontaminação;
eventos extremosseca, chuva, inundação, alagamento, cheias;

Impactos ambientais desmatamento das matas ciliares; crescimento demográfico; queimadas; irrigação; mineração; erosão, desertificação;

FONTE: (Ayoade, 2006). Tabela 1 – Impactos ambientais naturais e antrópicos.

Outros impactos de grande degradação são o desmatamento, as técnicas agrícolas inadequadas, o mau uso dos recursos naturais e o emprego de agroquímicos, levam à contaminação dos corpos hídricos e do solo. A agricultura tradicional possui importante papel na economia brasileira devido à geração de empregos no campo e distribuição de renda. Entretanto, muitas vezes, ela é conduzida por indivíduos que não possuem consciência da necessidade da conservação do meio onde vivem, principalmente quando a prática da cultura ocorre em áreas de grande sensibilidade como as próximas às nascentes de corpos hídricos e nas bordas de fragmentos florestais.

A legislação ambiental brasileira considera a bacia hidrográfica como a unidade básica para a gestão ambiental (Brasil, 1997). Neste contexto, é importante ressaltar as práticas de manejo, conservação das águas de superfície, reposição das matas ciliares e retiradas de solo superficial. Pois, com isso, as condições naturais destes mananciais podem ser modificadas, porque o transporte de sedimentos em suspensão e de fundo resultará na alteração da qualidade da água e em assoreamento, diminuindo a vida útil dos reservatórios.

Por sua vez, o conhecimento das condições dos solos do território brasileiro, em termos da presença dos processos de erosão acelerada, e mesmo com referência à sua potencialidade, enseja a realização de trabalhos em escala local e regional, para caracterizar seus indicadores e correspondente cartografia (Pinto et al., 1995).

A ocupação desordenada das terras, o crescimento demográfico e a escassez de terras férteis, determinam a necessidade de se gerar fundamentações, estratégias, atividades e diretrizes que proporcionem aptidão dos ecossistemas com sistemas de ocupação, capazes de certificar produções sustentáveis em longo prazo. Consequentemente deve-se moldar o uso dos recursos naturais, de forma a aumentar e melhorar as condições econômicas e o progresso social da população afetado por esses processos danosos. Não obstante, para a utilização permanente, sustentável e eficiente desse meio ambiente, devem-se caracterizar as circunscrições físicas, biológicas e espaciais para a sua ocupação, identificando-se as possíveis sensibilidades dos ecossistemas aos impactos ambientais futuros.

Desde o início dos tempos, o homem se fixou junto às margens dos cursos d'água devido às riquezas ali encontradas, que lhe proporcionavam alimento (água, caça, pesca e lazer) e matériaprima (lenha, madeira, carvão entre outros), suprindo suas necessidades. Para o cultivo de alimentos, essas áreas se apresentam como mais produtivas em função da maior fertilidade natural quando comparado a áreas de campo e cerrado. Com isso, teve início às antropogenia nesses ecossistemas, perdurando até hoje.

Mesmo com a ocupação intensa desses novos ambientes, que ofertam extensas áreas para o cultivo, a pressão sobre essas regiões, sobre a água, o solo e matas ciliares, principalmente, continua crescente. Desta forma, as matas ciliares foram os primeiros ambientes a sofrer degradação pelo estabelecimento do homem e continuam sob pressão do mesmo. As políticas de incentivo agrícola, pecuário, piscicultura e florestal implantadas, aliadas à falta de tradição florestal e ao desrespeito à legislação, fizeram com que extensas regiões como o Triângulo Mineiro apresentassem aproximadamente 8% de cobertura vegetal nativa (IEF-MG, 1995).

Na atualidade, os conhecimentos sobre a fauna e flora nativa são pouco concisos para sustentar alterações na legislação devido à descontinuidade e pequeno volume de estudos do tipo: quando florescem e frutificam, como se propagam e cresce, qual é seu habitat preferencial, qual o mínimo necessário para favorecer a proteção do solo e manter a dinâmica sustentada e como manejar economicamente a floresta e mata (Oliveira-Filho, 1994).

O preparo do solo visa a melhorar as condições físicas do solo e/ou incorporar fertilizantes e corretivos, para favorecer o estabelecimento do povoamento. As técnicas e equipamentos a serem utilizados no preparo do solo vão depender das características físicas, químicas e topográficas do solo, bem como da disponibilidade de recursos financeiros para a execução do mesmo. A seguir têm-se as formas de preparo do solo ecologicamente correta (Tabela 2).

Formas de preparo do solo

Coveamento; sulcamento na linha de plantio ou na área total (em nível); aração (em nível); gradagem (em nível); subsolagem (em nível), na linha de plantio ou na área total. Tabela 2 – Formas de preparo do solo.

Recomenda-se, no preparo do solo, observar as suas variações e suas condições físicoquímicas e análise das condições locais, antes de efetivar alguma atividade na área. De modo geral, a correção do pH do solo deve se feita mediante calagem conforme análise de solo, mantendo seu valor por volta de 6,0 a 6,5 por ser a faixa ideal para o desenvolvimento da maioria das plantas. Quanto à fertilização, deve ser feita de forma a corrigir deficiências mais severas dos principais nutrientes.

Do ponto de vista dos recursos abióticos, as florestas e matas localizadas junto aos corpos da água desempenham importantes funções hidrológicas (Lima, 1989), compreendendo: proteção da zona ripária, filtragem de sedimentos e nutrientes, controle do aporte de nutrientes e de produtos químicos aos cursos da água, controle da erosão das ribanceiras dos canais e controle da alteração da temperatura do ecossistema aquático.

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