Sinais de pontuação

Sinais de pontuação

(Parte 1 de 2)

Edmon Neto de Oliveira

Gramática – Pontuação

e-Tec Brasil – Português Instrumental

Apresentar estratégias para a composição de textos utilizando a norma culta da língua portuguesa, por meio de mecanismos de pontuação.

Ao final desta aula, você deverá ser capaz de: 1. identificar problemas de pontuação em um texto; 2. redigir textos de acordo com as regras de pontuação previstas na gramática.

194 e-Tec Brasil – Português Instrumental195 ula 1 • G r a mática - P o n t u a ç ã o

Todo mundo aceita que ao homem cabe pontuar a própria vida: que viva em ponto de exclamação (dizem: tem alma dionisíaca); viva em ponto de interrogação (foi filosofia, ora é poesia); viva equilibrando-se entre vírgulas e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem que use a só pontuação fatal: que use, na frase que ele vive o inevitável ponto final.

(João Cabral de Melo Neto)

Antes de começarmos a apresentar os sinais de pontuação existentes na gramática da língua portuguesa, vamos a uma questão:

Você já parou para pensar qual a necessidade de usar sinal de pontuação quando escrevemos?

Pense um pouco sobre isso e escreva o que pensa no espaço a seguir.

Fonte: w.sxc.hu

Adam Ciesielski

Para responder a essa pergunta, é necessário esclarecer uns pontos sobre algumas das diferenças essenciais entre a modalidade oral e a modalidade escrita da linguagem.

Repare que, quando falamos, contamos com a possibilidade de usar o ritmo e os contornos melódicos dos enunciados, assim como pausas (de duração variada), em determinados pontos, para indicar limites de e-Tec Brasil – Português Instrumental organização e unidades de sentido, ou seja, a junção dos elementos de nossa língua que faz com que entendamos um ao outro. Os contornos melódicos são características comuns da fala do indivíduo, mas se apresentam de forma diferente em cada falante.

Assim, a “marcação” dos limites entre as palavras que vamos constituindo à medida que articulamos nossos enunciados orais é feita por meio de recursos de natureza PROSÓDICA.

Além desses recursos, contamos com os nossos gestos para deixar claro o que queremos dizer. Em resumo, quando falamos, a interação face a face que mantemos com quem falamos garante a presença de elementos suficientes para a interpretação daquilo que dizemos.

Quando escrevemos, por outro lado, o tipo de interlocução que mantemos através dos nossos textos é bastante diferente, em vários aspectos. Pelo fato de não mantermos uma relação direta com quem estamos querendo nos comunicar, não podemos correr o risco de que nossos enunciados não sejam entendidos.

Diferentemente da comunicação oral, não podemos, ao escrever, contar com os recursos prosódicos que, dentre outras funções, servem para delimitar as unidades de forma/sentido, na fala, ou seja, unidades que apresentam uma determinada estrutura e representam um significado na língua. Por esse motivo, os chamados sinais de pontuação se desenvolveram no registro escrito, desempenhando a função de demarcadores de unidades e de sinalizadores de limites da estrutura das orações. Nesse caso, como os recursos comuns à fala estão ausentes, a pontuação irá nos dizer exatamente em que sentido devemos encaminhar nossa leitura, sinalizando as situações de pausa, respiração, entonação etc., assim como onde termina uma idéia e começa uma outra.

Ao longo desta aula, iremos resgatar os conhecimentos que você já viu na escola. Vamos começar?

Parte da gramática que se dedica às características da emissão dos sons da fala, como o acento e a entonação (Fonte: Dicionário Houaiss, 2001).

196 e-Tec Brasil – Português Instrumental197 ula 1 • G r a mática - P o n t u a ç ã o

A pontuação é um sistema de sinais gráficos que indica, na escrita, uma pausa na linguagem oral. Esse sistema se desenvolveu, ao longo dos anos, no uso literário das línguas ocidentais, como, por exemplo, o português, o francês, o italiano etc.

Podemos dividir os sinais de pontuação em dois grandes grupos: 1. sinais para pausas CONCLUSAS; 2. sinais para pausas INCONCLUSAS.

Esse grupo é essencialmente representado pelo ponto (.), uma vez que a utilização desse sinal só acontece quando a oração já foi concluída, ou seja, quando não há mais nenhum elemento a ser adicionado àquela frase. O mesmo acontece com os outros sinais pertencentes a esse grupo, mas com características diferentes. Na língua portuguesa, temos os seguintes sinais:

a. o ponto-e-vírgula (;), usado quando duas frases estão articuladas entre si. Ex.: Muitos se esforçam; poucos conseguem.

b. a interrogação (?), usado quando se trata de uma frase interrogativa. Exs.: Haverá aula amanhã? Como ajudar os meninos que estão morando nas ruas das grandes cidades brasileiras? c. a exclamação (!), usado quando se trata de uma frase exclamativa. Exs.: Eu quero ir pra casa logo! Faça o favor de terminar esse exercício antes de a aula acabar!

Relativas à noção de finalização, algo já terminado, concluído.

Algo ainda não terminado, que necessita de conclusão.

Sigurd Decroos

Fonte: w .sxc.hu e-Tec Brasil – Português Instrumental

Esse grupo é essencialmente representado pela vírgula (,), que separa orações ou membros da oração. Os sinais pertencentes a esse grupo são usados dentro das estruturas das frases que ainda não concluíram uma idéia. A escolha do sinal adequado depende do que se quer expressar com a utilização dele. Nesse grupo, temos os seguintes sinais:

a. o dois-pontos (:), usado quando a frase, ou o membro oracional seguinte, explica ou desenvolve o que foi dito antes.

Exs.: E a felicidade resume-se a isto: criarem-se hábitos.

Estavam presentes: o pai, a mãe, o sobrinho e todos os outros membros das duas famílias.

b. os parênteses ( ), usados quando no meio de uma dada frase se intercala outra frase com uma estrutura diferente.

Ex.: Na semana passada (parece que foi há anos) eu encontrei com Sr. Vivaldo pela última vez.

c. as aspas (“ ”), usadas para abrir e fechar a transcrição de palavras ou frases que foram ditas por outra pessoa.

Ex.: “A esperança vencerá o medo”, disse, emocionado, o presidente.

d. o travessão (–), que pode ser usado nas seguintes situações:

• simples, para substituir o dois-pontos diante de um elemento da oração.

Ex.: Ela queria de qualquer jeito o divórcio – ele acabou cedendo.

Ex.: A noiva cumprimentou – com muita má vontade – os convidados após o casamento.

• simples, combinado com as aspas (ou não), para as mudanças de interlocutor na transcrição de um diálogo.

Exs.: – Eu gostaria que você me dissesse alguma coisa. – Alguma coisa?

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Há ainda o sinal de pausa de reticências (...), usado numa citação escrita para indicar parte suprimida.

Ex.: “Comecei a recolher os materiais necessários (...) e a tomar notas de toda parte e de tudo” (Machado de Assis).

Vamos, agora, discutir cada sinal de pontuação que você relembrou na seção anterior e saber os lugares que eles ocupam dentro de uma frase ou texto.

O ponto é usado nas seguintes situações:

a. indicar o final de uma frase declarativa, ou seja, frases que informam ou declaram alguma coisa. Essas frases podem ser afirmativas ou negativas;

Ex.: Lembro-me muito bem dele. b. separar períodos entre si;

Ex.: Fica comigo. Não vá embora. c. nas abreviaturas. Ex.: Av.; V. Ex.ª

O dois-pontos é usado nas seguintes situações: a. iniciar a fala dos personagens

Ex.: Então o padre respondeu: – Parta agora.

b. antes de apostos ou orações apositivas, enumerações ou seqüência de palavras que explicam e/ou resumem idéias anteriores.

Ex.: Meus amigos são poucos: Fátima, Rodrigo e Gilberto.

e-Tec Brasil – Português Instrumental c. antes de citação.

Ex.: Como já dizia Vinícius de Moraes: “Que o amor não seja eterno posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”

RETICÊNCIAS ()

As reticências são usadas nas seguintes situações: a. indicar dúvidas ou hesitação do falante.

Ex.: Sabe...eu queria te dizer que...esquece.

b. interrupção de uma frase deixada gramaticalmente incompleta.

Ex.: – Alô! João está?

– Agora não se encontra. Quem sabe se ligar mais tarde...

c. ao fim de uma frase gramaticalmente completa, com a intenção de sugerir prolongamento de idéia.

Ex.: “Sua tez, alva e pura como um foco de algodão, tingia-se nas faces duns longes cor-de-rosa...” ("Cecília", José de Alencar).

d. indicar supressão de palavra(s) numa frase transcrita.

Ex.: “Quando penso em você (...) menos a felicidade” ("Canteiros", Raimundo Fagner).

PARÊNTESES ( )

Os parênteses são usados na seguinte situação:

Isolar palavras, frases intercaladas de caráter explicativo e datas.

Ex.: Na 2ª Guerra Mundial (1939-1945), ocorreram inúmeras perdas humanas.

200 e-Tec Brasil – Português Instrumental201 ula 1 • G r a mática - P o n t u a ç ã o

Uma manhã lá no Cajapió (Joca lembrava-se como se fora na véspera), acordara depois duma grande tormenta no fim do verão. (O milagre das chuvas no nordeste, Graça Aranha)

Importante: Os parênteses também podem substituir a vírgula ou o travessão.

Ex.: Chovia (calmamente) enquanto os pássaros se escondiam nas copas das árvores naquela tarde.

O ponto de exclamação é usado nas seguintes situações: a. Após vocativo.

Ex.: “Parte, Heliel!” (As violetas de Nossa Sra, Humberto de Campos) b. Após imperativo.

Ex.: Cale-se! c. Após interjeição.

Ex.: Ufa! Ai! d. Após palavras ou frases que denotem caráter emocional. Ex.: Que pena!

O modo imperativo expressa ordem, pedido ou conselho. Ex.: Caminhe todos os dias.

O vocativo é o único termo isolado na oração, pois não se liga ao sujeito. Sua função é chamar ou interpelar o elemento a quem se está dirigindo a oração. Ex.: Ana, por favor, traga meu livro amanhã.

A interjeição é o vocábulo de representação das emoções ou sensações dos falantes. Ex.: Ufa, não agüentava mais esperar tanto tempo.

e-Tec Brasil – Português Instrumental

O ponto de interrogação é usado nas seguintes situações:

a. Em perguntas diretas.

Ex.: Como você se chama? b. Às vezes, juntamente com o ponto de exclamação.

Ex.: – Quem ganhou na loteria? – Você.

– Eu?!

É usada para marcar uma pausa do enunciado com a finalidade de nos indicar que os termos por ela separados, apesar de participarem da mesma frase ou oração, não formam uma unidade sintática.

Ex.: Lúcia, esposa de João, foi a ganhadora única da Sena. Quando há uma relação sintática entre termos da oração, não se pode separá-los por meio de vírgula. Vamos conhecer alguns desses casos? a. predicado de sujeito.

Ex.: José, comprou um presente para seu pai. (errado) José comprou um presente para seu pai. (correto) b. objeto de verbo.

Ex.: Ela disse, que ligaria ontem. (errado) Ela disse que ligaria ontem. (correto) c. adjunto adnominal de nome.

Ex.: Nosso velho, mestre sempre nos voltava à mente. (errado)

Nosso velho mestre sempre nos voltava à mente. (correto)

202 e-Tec Brasil – Português Instrumental203 ula 1 • G r a mática - P o n t u a ç ã o d. complemento nominal de nome.

Ex.: A vitória, de um é a conquista de todos. (errado) A vitória de um é a conquista de todos (correto) e. predicativo do objeto do objeto.

Ex.: Os policiais pediram calma, absoluta. (errado) Os policiais pediram calma absoluta. (correto) f. oração principal da subordinada substantiva (desde que esta não seja apositiva nem apareça na ordem inversa).

Ex.: Interessa-me, que você compareça. (errado) Interessa-me que você compareça. (correto)

As orações subordinadas substantivas exercem função sintática própria do substantivo. São geralmente introduzidas por conjunções integrantes, como “que” e “se”.

Já as orações apositivas funcionam como aposto da oração principal. Em geral vem após dois-pontos ou, mais raramente, entre vírgulas e explica o sentido da oração principal, que deve estar sintaticamente completa.

Ex.: Todos querem o mesmo destino: que atinjamos a felicidade.

a. separar o vocativo.

Exs.: Maria, traga-me uma xícara de café.

A educação, meus amigos, é fundamental para o progresso do país.

b. separar alguns apostos. Ex.: Valdete, minha antiga empregada, esteve aqui ontem.

e-Tec Brasil – Português Instrumental c. separar o adjunto adverbial antecipado ou intercalado.

Exs.: Chegando de viagem, procurarei por você.

As pessoas, muitas vezes, são falsas. d. separar elementos de uma enumeração.

Ex.: Precisa-se de pedreiros, serventes, mestres-de-obras. e. isolar expressões de caráter explicativo ou corretivo.

Ex.: Amanhã, ou melhor, depois de amanhã podemos nos encontrar para acertar a viagem.

f. separar conjunções intercaladas.

Ex.: Não havia, porém, motivo para tanta raiva. g. separar o complemento pleonástico antecipado. Ex.: A mim, nada me importa.

No complemento pleonástico antecipado, há uma repetição de idéias, por isso denominado ‘complemento pleonástico’. Observe que há uma redundância no que foi dito; quando isso ocorre, o complemento é isolado por vírgula.

Ex.: Estas histórias, não as reconheço como as melhores de Clarisse.

h. isolar o nome de lugar na indicação de datas.

Ex.: Belo Horizonte, 26 de janeiro de 2001.

i. separar termos coordenados assindéticos; ou seja, separar termos que exercem a mesma função sintática na oração, caso não estejam ligados por conjunção.

Ex.: “Lua, lua, lua, lua, por um momento meu canto contigo compactua...” (Caetano Veloso) j. marcar a omissão de um termo (normalmente o verbo).

Ex.: Ela prefere ler jornais e eu, revistas. (omissão do verbo preferir)

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Exs.: Conversaram sobre futebol, religião e política. Não se falavam nem se olhavam./ Ainda não me decidi se viajarei para Bahia ou Ceará. Entretanto, se essas conjunções aparecerem repetidas, com a finalidade de dar ênfase, o uso da vírgula passa a ser obrigatório.

Ex.: Não fui nem ao velório, nem ao enterro, nem à missa de sétimo dia.

a. separar as orações subordinadas adjetivas explicativas.

Ex.: Meu pai, de quem guardo amargas lembranças, mora no Rio de Janeiro.

b. separar as orações coordenadas sindéticas e assindéticas (exceto as iniciadas pela conjunção e).

Exs.: Acordei, tomei meu banho, comi algo e saí para o trabalho.

Estudou muito, mas não foi aprovado no exame.

• quando as orações coordenadas tiverem sujeitos diferentes.

Ex.: Os ricos estão cada vez mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres.

• quando a conjunção e vier repetida com a finalidade de dar ênfase (polissíndeto). Ex.: E chora, e ri, e grita, e pula de alegria.

• quando a conjunção e assumir valores distintos que não seja da adição (adversidade, conseqüência, por exemplo) Ex.: Coitada! Estudou muito, e ainda assim não foi aprovada.

c. separar orações subordinadas adverbiais (desenvolvidas ou reduzidas), principalmente se estiverem antepostas à oração principal.

e-Tec Brasil – Português Instrumental

Ex.: “No momento em que o tigre se lançava, curvou-se ainda mais; e fugindo com o corpo apresentou o gancho.” (O selvagem, José de Alencar) d. separar as orações intercaladas.

Ex.: “– Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em a estar plantando...”

Essas orações poderão ter suas vírgulas substituídas por duplo travessão.

Ex.: “Senhor – disse o velho – tenho grandes contentamentos em a estar plantando...” e. separar as orações substantivas antepostas à principal. Ex.: Quanto custa viver, realmente não sei.

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