Paisagens Protegidas de Diamantina

Paisagens Protegidas de Diamantina

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ISSN 0103-8427 Caderno de Geografia, v.2, n.38, 2012

A valoração das paisagens protegidas de Diamantina (MG): premissa para o turismo culturali

Valuating protected landscapes of Diamantina (MG): premise for the cultural tourism

Renata Salgado Rayel

Professora Especialista do Dep. de Desenvolvimento Social do SENAC-São Carlos rerayel@gmail.com

Solange Terezinha de Lima Guimarães

Professora Livre Docente da Universidade Estadual Paulista “Julio Mesquita Filho” – UNESP - Rio Claro hadra@uol.com.br

Artigo recebido para revisão em 26/03/2012 e aceito para publicação em 30/05/2012

A paisagem de Diamantina apresenta relevantes valores cênicos e estéticos, os quais constituem seus atrativos turísticos, gerando fluxos de visitantes para favorecer o desenvolvimento local e regional. Em decorrência da valoração ambiental, Diamantina obteve significativa conquista direcionada à proteção patrimonial do centro histórico e de suas áreas naturais. Desse modo, o patrimônio diamantinense representado pelas paisagens protegidas foi apropriado por parte da comunidade que tem interesse pelo turismo cultural, ao valorar economicamente seus bens e serviços.

Palavras-chave: Paisagens Protegidas. Valoração Ambiental. Turismo Cultural. Valores Cênicos e Estéticos.

ABSTRACT The Diamantina’s landscape presents significant scenic and aesthetic values, which constitute its touristic attractions, generating visitor flows to promote local and regional development. As a result of environmental valuation, Diamantina achieves significant accomplishments towards the patrimonial protection of historic center and their natural areas. Therefore, the Diamantina’s patrimony represented by the protected landscapes was appropriated by part of the community which has interest in cultural tourism, valuating economically their goods and services.

Keywords: Protected Landscapes. Environmental Valuation. Cultural Tourism. Scenic and Aesthetic Values.

1. INTRODUÇÃO

O município de Diamantina destaca-se no cenário histórico brasileiro desde o ciclo do ouro e, principalmente, da exploração diamantífera nos caminhos da Estrada Real, em um período compreendido pela interiorização e pelo povoamento do país em buscas de riquezas mi- nerais, que determinou o surgimento de núcleos urbanos, alguns dos quais se transformaram em ricas e esplendorosas cidades barrocas.

Machado Filho (1980), em seu livro

“Arraial do Tijuco: cidade Diamantina” relata que o ouro descoberto nos fins do século XVII, em Serro Frio, chamou a atenção de bandeirantes e de aventureiros das várias regiões do país.

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Desse modo, um grupo de exploradores seguiu em direção ao Pico do Itambé, nas cercanias de Serro Frio à procura de um local para mineração. O povoamento dessa região desenvolveu-se com a extração de ouro do leito dos rios até 1729, sendo as lavras do Tijuco consideradas exclusivamente auríferas. Posteriormente, entrou em cena a extração de diamantes, e na primeira década do século XVIII, no antigo Arraial do Tijuco – atual Diamantina – foram encontradas, no Rio Jequitinhonha e no Rio Pardo, áreas com grande quantidade de diamantes, segundo Machado Filho (1980).

Na segunda metade do século XVIII, a extração de diamantes deixou de pertencer à realeza, tornando-se livre o arrendamento de suas jazidas. Dessa maneira, o Distrito Diamantino enriqueceu, possibilitando o acúmulo de grandes fortunas. Esse período de esplendor, no entanto, estendeu-se apenas até meados do século XIX, devido ao esgotamento das jazidas e à concorrência internacional da extração de diamantes da África do Sul, motivos que promoveram a estagnação econômica da região.

Com a expectativa de melhorar a situação socioeconômica dos moradores de Diamantina, foram construídas a Fábrica de Tecidos de Biribiri e sua Vila Operária que, por meio da produção têxtil, deu um novo impulso à economia local. (MENDONÇA, 2005). Entretanto, a situação econômica do município de Diamantina, no século X, foi tomando rumo mais próspero, não somente no setor industrial, mas também pelo fortalecimento do comércio. Os dois últimos segmentos, bem como a atividade turís- tica, são responsáveis por favorecerem, até os dias atuais, o desenvolvimento da economia local e regional.

O turismo em Diamantina fomenta e conserva as raízes culturais do seu passado barroco, em um processo de reconhecimento, proteção e valorização do patrimônio arquitetônico e urbanístico. A valiosa arquitetura diamantinense em estilos barroco e eclético apresenta riqueza de detalhes, representada pelos edifícios destinados à administração pública, igrejas e capelas, casarões residenciais e casas comerciais, constituindo-se um acervo considerado patrimônio histórico material, de acordo com a inscrição no Livro de Tombo das Belas Artes, sob nº 59, datado de 17 de fevereiro de 1938.

A cidade recebeu o título de Patrimônio

Histórico Nacional, através do processo de tombamento do Conjunto Arquitetônico e Urbanístico do Centro Histórico de Diamantina, declarado, em 1938, pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, atual Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Em 1999, entrou para o cenário mundial ao receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciências e Cultura – UNESCO.

Em 14 de dezembro de 2000, foi aprovado o tombamento provisório da Serra dos Cristais, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA), cujo tombamento definitivo ocorreu em 19 de novembro de 2010, sendo aprovado pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep),

ISSN 0103-8427 Caderno de Geografia, v.2, n.38, 2012 como medida de proteção e salvaguarda do conjunto paisagístico natural, ameaçado pela ocupação irregular e desordenada.

Figura 1 - Paisagem protegida de Diamantina com a Serra dos Cristais ao fundo. Fonte: Divulgação IPHAN.

O patrimônio cultural diamantinense não se resume nos atributos arquitetônicos, se estende às manifestações artísticas e socioculturais. Os aspectos culturais do município se encontram disseminados no folclore, por meio da música, produção poética e literária e artesanato, além de outras expressões culturais que permanecem vivas e resistentes às mudanças históricas.

A musicalidade de Diamantina destacase no cenário cultural regional e nacional. A cidade possui o Conservatório Estadual de Música de Diamantina, além de grupos musicais folclóricos, que abrangem vários estilos musicais – barroco, sacro, popular –. Esses se apresentam em igrejas, capelas, vilas e becos, ruas, salões de festas, incluindo festivais de música que atraem muitos visitantes do país e do exterior. Nesse cenário, não podemos deixar de destacar as Serestas e as Vesperatas – estas, constituindo eventos realizados à noite, quando os músicos se apresentam ao ar livre, nas sacadas de antigos casarões – uma peculiaridade da cultura musical de Diamantina, sendo um dos atrativos do turismo cultural.

2. AS IMAGENS TURÍSTICAS DE PAISAGENS VALORADAS

O Turismo é um fenômeno que elabora estéticas paisagísticas, a partir das percepções humanas ou, então, utiliza cenários considerados belos e atraentes para serem transformados em mercadorias turísticas, como coloca Silva (2000). Assim, é notório que o ser humano mantém uma relação com o ambiente e influencia na dinâmica construtiva dos espaços e lugares, alterando suas paisagens, mudando as imagens percebidas para imagens concebidas. Essas imagens são representações sociais e culturais que nos revelam formas, elementos, símbolos e significados, com determinadas funções que, por ora, são selecionadas de acordo com os interesses econômicos, políticos e sociais (RAYEL, 2011).

As paisagens nos revelam cenários e imagens em constante processo de transformação, cujas formas e conteúdos, de maneira dinâmica, representam a identidade de um povo, do espaço natural ou vivido, segundo Rayel (2011). As imagens paisagísticas nos

ISSN 0103-8427 Caderno de Geografia, v.2, n.38, 2012 trazem sensações agradáveis ou de receio do desconhecido, porém as paisagens turísticas são imagens escolhidas, com conteúdo estético significativo, não somente para os olhos do indivíduo que as aprecia, mas para o olhar coletivo, que faz referência aos signos da paisagem em um contexto interpretativo do conhecimento das representações sociais e das características identitárias.

Como afirma Augustin Berque (1995) “a paisagem não é universal” e sim, as formas e elementos que assumem e compõem os espaços em nosso planeta. Um fator que distingue essas formas é a estética, a beleza que recebe “valor mutável, variável ao longo do tempo e do espaço”.

Nesse sentido, as formas ou os elementos paisagísticos recebem o termo de landmark, conceituado por Allen (1979) como ponto de referência ambiental, definido com base nas implicações perceptuais cognitivas e ambientais, que podem servir de indícios formativos da identidade social. São marcos paisagísticos referenciais, urbanos ou naturais, simbolicamente destacados pela sociedade. As landmark, consideradas marcas da paisagem, atuam como referenciais do passado e do presente, oferecendo subsídios materiais para conduzir ao entendimento físico da paisagem e do modo organizacional de uma sociedade.

Diamantina apresenta, em suas paisagens, símbolos de patrimônio material e imaterial representados como códigos históricoculturais de uma sociedade multicultural, formada por antepassados portugueses, africanos,

cional
Figura 2 – Paisagem da cidade de Diamantina, MG

indígenas e brasileiros. A representatividade social diamantinense sobressai nos prédios e casarios barrocos com características da arquitetura medieval portuguesa, além de manifestações artísticas tradicionais que marcam o cenário cultural e as ambiências do centro histórico. Para este artigo, selecionamos algumas landmarks relevantes no âmbito regional e interna- Fonte: Renata Salgado Rayel, julho de 2010.

Lugar simbolicamente representado na paisagem da cidade, constituindo significativa marca de sua paisagem urbana, o Mercado Municipal de Diamantina – conhecido como Mercado Velho – foi construído em 1835, no antigo Largo da Cavalhada Nova, atual Praça Barão de Guaicuí. Apresenta-se como uma das mais importantes construções coloniais brasileiras no Estado de Minas Gerais (MG), sendo tombado, em 1950, pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN).

Referência no espaço urbano histórico, o

Mercado Velho é uma landmark, ícone por sua característica arquitetônica, cuja localização propiciou a formação do centro urbano e sua função socioeconômica para a população local.

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O Mercado Velho, no século XIX, sempre muito utilizado, favoreceu o dinamismo urbano. O edifício foi construído para ser de residência do Tenente Joaquim Casimiro Lages; serviu, no entanto, também, como rancho, conhecido como “Intendência dos Lages” para os tropeiros que precisavam descansar, realizar trocas comerciais e abastecer suas tropas de cavalos ou mulas. Esse local, antigo entreposto, passou a atrair tropeiros e mineradores que estavam de passagem e outros moradores do município ou arredores, tornando-se referência regional desde tempos passados.

Figura 3 – Mercado Velho de Diamantina
Fonte: Renata Salgado Rayel, julho de 2010

Considerada como outra destacada landmark arquitetônica, o Passadiço da Glória evidenciou-se como um símbolo das construções barrocas de Diamantina, especialmente na época em que a cidade se preparava para a conquista do título de Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1999, pela UNESCO, unindo interesses governamentais aos sentimentos topofílicos da comunidade local.

O Passadiço da Glória ficou cristalizado como marco paisagístico urbano, transformado em cartão-postal pelos seus significados e funcionalidades distintos de outros símbolos arquitetônicos das cidades barrocas mineiras. A campanha publicitária para tombamento como Patrimônio Cultural da Humanidade foi responsável por consolidar a imagem do Passadiço da Glória como recorte da arquitetura diamantinense, utilizado como fator de inspiração para os visitantes conhecerem a cidade de Diamantina e, assim, promover o turismo local.

Figura 4 – Passadiço da Glória. Fonte: Renata Salgado Rayel, julho de 2010.

Observa-se que a religiosidade se consolidou em Minas Gerais e continua viva nos moradores de Diamantina, principalmente nos mais idosos, que prezam pelos seus espaços sagrados, impregnados pela espiritualidade, de valorização ao patrimônio eclesiástico, desde as paredes, afrescos e adornos, até às imagens de peças sacras. As igrejas, antes de exercerem o papel de atrativo turístico, representam um lugar sagrado para a realização das práticas religiosas do catolicismo romano, onde os fiéis demonstram e vivenciam sua fé, servindo também de espaço

ISSN 0103-8427 Caderno de Geografia, v.2, n.38, 2012 de convívio social durante a realização dos encontros comunitários.

Figura 5 – Igreja de Nossa Senhora do Carmo

Fonte: Renata Salgado Rayel, fevereiro de 2011.

A Casa de Chica da Silva (figura 6) aparece também como referência em Diamantina, por ter se transformado em atrativo turístico, alterando seu valor de uso e função, de residência para escritório do IPHAN e museu. Assim, passou a emergir como elemento da atividade turística, contribuindo, ainda, para a salvaguarda da memória diamantinense. Entretanto, observase uma valorização exacerbada da história de vida de Francisca da Silva, conhecida como Chica da Silva, convertendo-a em um ícone da cultura local. Sua história é capaz de movimentar pessoas interessadas em desvendar os mistérios vividos pela ex-escrava, a “Rainha Negra do Tijuco”. Uma mulher negra que chocou a sociedade da época por adotar costumes restritos às mulheres brancas e, ainda, por viver um romance com o importante Desembargador e contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira.

Figura 6 – Interior do Museu - Casa da Chica da Silva. Fonte: Renata Salgado Rayel, julho de 2010.

Na figura do Ex-Presidente do país, Juscelino Kubitschek de Oliveira, conhecido por JK, temos outra personalidade diamantinense destacada no cenário nacional. Por vontade e pedido do próprio Juscelino, sua antiga casa (figura 7) foi transformada em museu inaugurado em 12 de setembro de 1985, e mantido em funcionamento até os dias de hoje, para preservar sua memória: a de um cidadão diamantinense que amava suas origens.

Figura 7 – Casa de Juscelino, Museu JK

Fonte: Renata Salgado Rayel, julho de 2010.

Atualmente, o museu Casa de Juscelino tem como função principal, mostrar um pouco de sua infância e trajetória política, com a inten-

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rio

ção de resguardar a imagem emblemática, a memória social e os ideais do ex-Presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira, falecido em 2 de agosto de 1976, em um acidente rodoviá-

Ainda no inventário dos atrativos turísticos, no campo imaterial, o Carnaval em Diamantina foi, ao longo dos anos, tomando dimensão maior, tornando-se um dos mais conhecidos do Brasil, além de gerador de um dos maiores fluxos de visitantes da região do Alto Vale do Jequitinhonha. É festa popular tradicional de caráter turístico, muito valorizada pelos brasileiros, ao misturar a criatividade e a alegria dos foliões nas apresentações de blocos carnavalescos caricatos, tais como Rato Seco (Figura 8), Sapo Seco, Chega Chegando. Cabe lembrar, que alguns desses blocos têm mais de 80 anos, sendo esses compostos por crianças, jovens e adultos. As batucadas e repiques dos grupos de samba oficiais diamantinense como Bartucada e Bat-caverna, contagiamos os participantes com suas percussões.

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