A CRIANÇA E A MAGIA DA LINGUAGEM

A CRIANÇA E A MAGIA DA LINGUAGEM

(Parte 3 de 5)

Enfim, na conclusão, retomamos os pontos mais relevantes do presente estudo, ressaltando a importância de se realizarem novas pesquisas no que se refere ao humor na linguagem infantil, na área de aquisição e desenvolvimento da linguagem na criança, com vistas ao fornecimento de novas contribuições ao ensino/aprendizagem da língua materna.

1 o humor e SuaS variaçõeS

Humour: pudeur, jeu d’esprit.

C’est la propreté morale et quotidienne de l’esprit.1 Jules Renard

Como demonstrava a primeira edição da Encyclopaedia Britan nica, de 1771, ou ainda, como dizia Louis Cazamien, em seu artigo Pourquoi nous ne pouvons pas définir l’humour, de 1906, e posteriormente em sua obra The development of English humor, de 1950, definir o humor parece ser uma tarefa difícil de ser executada (Escarpit, 1967). Mais do que isso, poderíamos dizer que é vã a busca de uma definição e uma delimitação do humor, visto que o termo está intimamente ligado às noções de ironia, cômico, riso, etc., e cada pessoa o associa à sua maneira, sem haver um consenso ou uma fórmula que possam ser aplicados em todas as circuns tâncias (Aimard, 1988).

Diante desse fato, não é nossa pretensão encontrar uma “definição geral”, por assim dizer, para o humor, nem estabelecer fron- teiras que o separem dessas noções, mesmo porque, na maioria das vezes, os próprios autores que elegem tais temas como objeto não destacam expressamente suas diferenças. Do mesmo modo, em vista de alguns estudos realizados anteriormente já terem tratado, isoladamente ou em conjunto, do que convencionamos chamar de “variações” do humor, tampouco temos a pretensão de nos aprofundar nesses conceitos – porque, além de alguns deles já terem sido tratados por especialistas, não faz parte dos objetivos deste trabalho.

Trata-se, antes, de tecer alguns comentários sobre cada um dos termos mencionados (a ironia, o cômico, o riso, etc.) na tentativa de buscar explicações para compreender as inevitáveis confusões que se estabelecem entre eles, mostrando a dificuldade e mesmo a impossibilidade de separá-los, e de observar alguns índices como os risos, os sorrisos, as imitações, os jogos e a graça que começam a ganhar forma de condutas de linguagem e que vão compor o humor infantil.

Existem várias teorias que podem ajudar a delimitar e entender o caráter múltiplo do humor (nos seus mecanismos, nos seus meios de expressão, nas suas cores, nos seus limites territoriais), já que fornecem diversos caminhos – por isso elas serão citadas neste item –, mas, como dissemos e veremos, nenhuma delas parece conseguir apreendê-lo.

1.1 O humor e seu percurso histórico

A palavra latina humor, termo científico que possuía tradução em quase todas as línguas no século XVI, pertencia à língua corrente dos ingleses e seu emprego correspondia a um traço de psicologia divulgado na Inglaterra. Aliás, a cada geração, durante muitos séculos, o termo humor carregou novas nuances. No século XVIII, por exemplo, seu conteúdo ocasionou a ruptura semântica que se manifestou na indecisão da enciclopédia (1771), há pouco referida. Começa a ser construída, a partir daquele momento, uma estética do humor inglês, com teorias sedutoras que acabam por influenciar toda a Europa e fazendo surgir um novo conceito que progressivamente vai se desligando de sua origem, em termos de conteúdo, mas que mantém sua forma – inglesa – humour, adotada até os dias de hoje pela maioria das línguas latinas.

No momento em que esse termo é recuperado pelos vários países da Europa, ele toma rumos diferentes em cada um deles e adquire novas nuances, de onde surge o principal dos problemas: como diferenciar humour (humor) de bonne humeur (bom humor), se ambos têm algo a ver com o riso e ao mesmo tempo referem-se a coisas diferentes? No caso da língua portuguesa e da espanhola, por exemplo, estabelecer uma oposição é ainda mais difícil, já que o mesmo termo “humor” refere-se às duas ideias.2 No francês, a distinção é transparente porque a evolução fonética fez surgir um novo termo (humeur) e com ele uma tomada de consciência da “coisa” humor enquanto mecanismo racional.

A teoria dos humeurs – renovada pelos gregos, transmitida pelos árabes, recolhida por médicos e alquimistas –, no fim da Idade Média, mantinha próximos os Quatro Elementos, que tinham sido distinguidos por Hipócrates e que correspondiam aos humeurs existentes no corpo humano, a saber: (1) a bile amarela ao Fogo (quente); (2) a atrabilis3 ou bile negra à Terra (frio); (3) o sangue ao Ar (seco) e (4) a pituíta4 ou o fleuma à Água (úmido). A predominância de cada um desses humores seria responsável, respectivamente, pelo homem de temperamento colérico exteriorizando a careta; o melancólico, a lágrima; o sanguíneo, a apoplexia, e o fleumático, o sorriso amarelo.

2. Humor: 1. Fisiol. Qualquer líquido contido num corpo organizado. 2. Umidade. 3. Disposição de espírito. 4. Veia cômica; espírito, graça. 5. Capacidade de per ceber ou expressar o que é cômico ou divertido. In: Aurélio B. H. Ferreira, Dicio nário da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977). 3. Do lat. med.: bilis, bile, e atra, negra. In: A. Rey & J. Rey-Debove, Le Petit

Robert 1 – Dictionnaire de la langue française, 1990. 4. Med.: Humor branco e viscoso, segregado pelo nariz e brônquios. In: Aurélio B.

H. Ferreira, Dicionário da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977).

Um novo e decisivo passo para a doutrina do humeur foi dado no século XII por Galeno, que viu, na predominância normal de um dos humeurs no organismo, a causa de todas as doenças. Mas o galenismo, que parecia ter sido aceito pela medicina medieval, no início do século XVI foi julgado por Paracelso, que, em 1526, ao assumir sua cadeira de medicina em Basileia, destruiu todas as obras de Galeno, desfazendo o elo existente entre a medicina do corpo e a medicina da alma.

O francês Jean Fernel, contemporâneo do médico Rabelais, por sua vez, ganhou o nome de “Galeno moderno”. Isto porque, ao contrário de Paracelso, conservou a doutrina do humeur e chamou a atenção para o papel das lesões orgânicas e das desordens funcionais nos casos de desequilíbrios temperamentais.

É nesse sentido que podemos dizer que o termo humour tem uma origem médica e que compreendemos a moda do termo hu meur, no fim do século XVI, em toda a Europa. Aliás, entre 1590 e 1640 parece não ter havido grande preocupação com o uso do termo em seu sentido exato. É o caso de Shakespeare (1598 ou 1599) em Henrique V, quando o coloca na boca da personagem burlesca de Nym, ou, ainda, de Ben Johnson, quando se referiu a ele para fazer com que o público contemporâneo compreendesse sua concepção de comédia. Não que Ben Johnson tivesse exatamente criado uma teoria do cômico, mas, ao apresentar personagens que possuíam dupla natureza, ele selou a aliança semântica entre o cômico e o humor, destruindo assim os resquícios médicos que ainda existiam no termo. Vemos em seu livro Every man out of his humour a passagem de humeur para humour (Escarpit, 1967, p.15):5

5. Todas as citações, cujo original foi escrito em língua estrangeira, foram por nós traduzidas neste trabalho. Eventualmente, algumas citações aparecerão em versão original, em nota de rodapé, quando julgarmos que houve algum tipo de perda, seja pela ausência de um termo ou de uma expressão equivalente em português, seja pela irreproduzível sonoridade do texto – como no caso desta citação.

Assim, em todo corpo humano A bile, a atrabílis, a pituíta e o sangue, Correndo todos continuamente Em determinado sentido e não podendo ser contidos Recebem o nome de bom humor (humeurs). Assim sendo, Esse nome pode, metaforicamente, se aplicar À disposição geral da personalidade: Por exemplo, quando uma qualidade particular Possui um homem a tal ponto que ela conduz Seus sentimentos, seus conhecimentos, seus talentos, Todos os fluxos misturados, correndo todos no mesmo sentido, Nesse momento, sim, pode-se dizer que há aí humor (humour).6

Vale dizer que o termo já possuía uso idiomático, que exprimia de modo vago e confuso a intuição da realidade inglesa, na linguagem cotidiana, no momento em que Ben Johnson empregou o termo médico na literatura. É desse modo que o humor, no início do século XVIII, passa a ser uma espécie de traço nacional, uma tradição que veio das profundezas da alma inglesa.7

A partir do final do século XVII e durante o século XVIII, o humor passa a ser um estilo de vida, uma maneira de ser e, após a Revolução de 1688, a Inglaterra despertou para um novo nacionalismo e com esse novo sentimento o termo “humor” adquire a ideia de cômico. Ganha lugar o riso mascarado por um ar triste, inteli-

6. Ainsi dans tout corps humain/ La bile, l’atrabile, le phlegme et le sang,/ Coulant tous continuellement/ Dans un certain sens et ne pouvant être contenus,/ Reçoivent le nom d’humeurs. Cela étant,/ Ce nom pu par métaphore s’appliquer/ A la disposition générale du caractère:/ Par exemple lorsqu’une qualité particulière/ Possède un homme à tel point qu’elle force/ Ses sen timents, ses esprits, ses talents,/ Leurs flux mélangés, à s’écouler tous dans le même sens,/ Alors, oui, on peut dire qu’il y a là un humour. 7. Alberti (1999) acredita que a mudança na concepção original de humor para a ideia de comportamento fora do comum, extravagante, excêntrico, teria acontecido com o aparecimento de duas comédias de Ben Johnson: Every man in his humour (1598) e Every man out of his humour (1599).

gente e superior intuído por Shakespeare e desaparecem a extravagância e a excentricidade gratuita do humor original.

No século XIX, ele é encontrado na literatura inglesa através do nonsense e, depois de cinquenta anos, a lei fundamental do humor – o verdadeiro humor tem um ar sério e todos riem dele; o falso humor ri o tempo todo enquanto todos têm um ar sério – recebe a consagração em algum tipo oficial de estética empirista.

A partir de 1880, a palavra humour é incorporada à língua francesa, mas a Academia só a admitirá em 1932. Atualmente, ela se refere ao conjunto do gênero, mas foi preciso um certo tempo para se chegar a isso.

O século X descobre em seu auge o humor “comprometido” (engagé), o humor funcional da mecânica de rir, mas a alma dos povos se reflete nela também. A crítica positivista consagra a esse humor muitos estudos, entre eles o de Bergson (Le rire, 1900).

Devido a um excesso de conforto intelectual (século de otimismo), o humor inglês entra em decadência entre 1900 e 1940 e só desperta como gênero literário universal após a Segunda Guerra Mundial.

Desde então, as recentes concepções de humor ou dos fatos humorísticos combinam aquilo que é engraçado, o charme, a cumplicidade, e também o que não se pode dizer claramente. O humor só se exprime e encontra seu verdadeiro sentido na relação com o outro. Ele intervém nas situações sociais de modo a produzir sobre o outro efeitos (divertir ou fazer o outro rir) que podem refletir motivações pessoais (descarregar sua agressividade, ser popular, etc.) e interindividuais (favorecer a manutenção da interação). Assim, através do humor, o indivíduo revela sua capacidade de se adaptar a um ambiente social, seja produzindo o humor, seja reconhecendo-o como tal (Garitte & Legrand, 2001, p.231-2). Ele torna os indivíduos capazes de produzir os efeitos desejados sobre outros indivíduos.

O humor é tão ambíguo quanto qualquer outra criação cultural

(Saliba, 2002); é “o incógnito do religioso” (l’incognito du religieux – Chabrier, 1997), ao mesmo tempo, protegido do acesso fácil e di- reto e protetor do que é da ordem do invisível, tanto para o orador quanto para o auditor. Ele manifesta indiretamente a luta interior e o sofrimento, mas diretamente nada pode ser decodificado.

Do mesmo modo, o humorista admite com o outro uma comunicação sobre o vivido que escapa do mal-entendido,8 justamente porque ela não pode depender de um esclarecimento explícito; sua explicação est en arrière, absolutamente indireta (op.cit.). Assim, se levarmos em conta que a linguagem pode ser fonte de mal-entendidos ou de não coincidências – para usar o termo de Authier- -Revuz9 (1995) –, o humor pode auxiliar na elucidação dos mesmos, uma vez que um traço de humor distingue, no seio de um enunciado, uma significação patente, explícita, e uma significação latente, implícita (Guillot, 1997).

1.2 O riso em Rabelais e Bergson

Embora talvez se encontre em Platão10 a mais antiga formulação teórica, é de Aristóteles a influência mais marcante na história do pensamento sobre o riso, na medida em que trata do cômico enquanto uma deformidade que não implica dor nem destruição11 e define o riso como sendo uma especificidade humana: “O homem é o único animal que ri”12 – embora o diga sob um ponto de vista fisiológico de explicação do riso. Para ele, um dos traços caracte rísticos do efeito cômico é o uso desmedido e desnecessário de me táforas e ou-

8. O mal-entendido aqui é sinônimo de incompreensão e, em geral, é responsável pelo desinteresse da criança em um assunto. 9. A autora chama de não coincidência tudo o que marca de não um (non un) a comunicação, i.e, a incompreensão, o mal-entendido, a ambiguidade. 10. Platão, Philèbe, Œuvres complètes, v.9, 2 parte. Trad. Auguste Diès (Paris:

Belles Lettres, 1959). 1. Aristóteles, La poétique. Trad. Roselyne Dupont-Roc e Jean Lallot (Paris:

Seuil, 1980). A parte I desse livro em que Aristóteles trata da comédia se perdeu não sendo possível, assim, saber de que forma ele tratou o cômico. 12. Aristóteles, Les parties des animaux. Trad. Pierre Louis (Paris: Les Belles Lettres, 1956).

tros nomes não habituais. Em De la génération des ani maux,13 a referência ao riso se encontra mais para mostrar a distinção entre o riso da criança pequena e do adulto. Segundo ele, o adulto ri acordado, mas a criança pequena, por ainda ser imperfeita – ela permanece cega por um certo tempo e não pode andar –, só ri (e chora) quando está dormindo.

No que se refere ao pensamento ocidental, Quintiliano e Cícero são os primeiros a sistematizar o riso e o risível, dedicando um capítulo de suas obras ao ridiculum. É, assim, através da retórica romana que se tem acesso a um conhecimento maior sobre o riso. O ridiculum ocupa em De oratore, de Cícero, a parte do inventio (ideias, argumentos ou provas que fundamentam o discurso). A brincadeira e os ditos espirituosos são apresentados como recursos cujos efeitos são agradáveis e úteis nas defesas. Ele também distingue o riso das palavras e das coisas (Quintiliano fala em discursos e atos enquanto objetos do riso): no primeiro se enquadrariam categorias tais como a alegoria, a metáfora, a antífrase, a antítese, as palavras com duplo sentido, pequenas alterações em palavras ou versos, as palavras tomadas ao pé da letra. Ri-se menos das palavras que das coisas, mas elas podem se tornar mais engraçadas caso se surpreenda a expectativa do outro, ele esperando que você diga uma coisa e você diz outra.

Ao segundo pertenceria tudo aquilo que não constitui figura de estilo, mas o que diz respeito à prova, à demonstração e à ação. É a narrativa cômica, a imitação cômica (gesto, voz) e tudo aquilo que não envolve palavras.

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