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Maâmar El-Robrini

Valter Marques J. CPRM/ SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL

Marcelo Augusto Moreno Alves da Silva

Maria Helena S. El-Robrini CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO PARÁ, DIREÇÃO DE ENSINO

Antonio Cordeiro Feitosa

José Edgar Freitas Tarouco LABOHIDRO, UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO – UFMA

Jorge Hamilton Souza dos Santos

Janilson Rosa Viana

Resumo

A ZCEM possui 5 setores: (i) Golfão maranhense; (i) Litoral oriental; (ii) Litoral ocidental; (iv) Baixada maranhense e (v) Parque Estadual Marinho do Parcel Manuel Luís. O litoral do estado do Maranhão enquadra-se na costa do tipo amero edge trailing e configura-se como um litoral de “falsas rias”, com vales afogados, bastante ativos. A plataforma continental interna adjacente é ocupada por inúmeros bancos assimétricos e altos (8 a 20 m), com direção ENE-WSW. Toda a ZCEM é influenciada pelas marés semidiurnas com amplitude de macromaré (7.2 m) nos setores 1 e 3 e mesomaré (entre 3,83 e 1,57 m) nos setores 2 e 4 e 5. As correntes de marés são fortes: 2.5 m s-1 e a altura das ondas fica em torno de 0.6 a 1.4 m. As praias oceânicas da Ilha de São Luís apresentam uma largura média de 250 m e são dissipativas e intermediárias. Os esparsos dados disponíveis mostram que a dinâmica da ZCEM se traduz sob forma de recuo e progradação.

Abstract

The Maranhão Coastal Zone (MCZ) presents 5 sectors:(i) the Western Coast that shows deep false “rias”;(i) the Maranhão Gulf, that represents an estuarine complex;(ii) the Eastern Coast with an straight shoreline, occupied by sandy structures;(iv) the Maranhenses Lowlands and (v) the Marine State Park of the Parcel Manuel Luís, that consists of coralline algae, hermatypic coral and hydrocoral (Coura, 1994). The internal part of the adjacent continental shelf is occupied by several high assymetrical sandy banks (8 to 20m high), with ENE-WSW direction.

All the MCZ is influencied by semidiurnal macrotides (7,2 m tidal range) in the sectors 1 and 3, and semidiurnal mesotides (1,57 and 3,83 m tidal range) in the sectors 2, 4 and 5.

The tidal currents are strong and reachs 2,5 m s-1 and the dissipative waves height is 0,6 to 1,4 m. The oceanic beaches of the São Luis presents a 250 m average width, and are dissipative and intermediary. The poor available data shown that the dynamic of the MCZ is characterized by retreat and progradation.

As investigações na Zona Costeira e Estuarina do Maranhão (ZCEM) e na área contígua submersa iniciaram-se a partir do início da década de 1970 com o advento do LABOHIDRO/ UFMA. Além disso, o GEMC/ UFPA participou e deswenvolveu vários projetos e programas de pesquisa nos diversos setores da ZCEM em:

I. âmbito nacional: (1) na costa atlântica: Gerenciamento Costeiro do Maranhão (GERCO/MA, 1992/ 1993); Programa REVIZEE (desde 1995); “Minerais Pesados da Plataforma Continental do Pará-Maranhão: Quantificação, Distribuição Espacial e Proveniência” (CNPq, 2001–2002); “Atlas Oceanográfico na área de influência do Bloco Exploratório BM-BAR-1. PETROBRÁS” (2002); “Atlas da Plataforma Continental Norte Brasileira: Fisiografia, Cobertua Sedimentar, Argilo-Minerais & Recursos Minerais Marinhos” (2004 –2007).

I. âmbito internacional: GLOBESAR 2 - Aplicação do RADARSAT no Golfão maranhense (Cooperação Canadá/Brasil, 1998/2000).

No entanto, os estudos sobre a dinâmica costeira são escassos no litoral maranhense e se concentram, sobretudo ao norte da Ilha de São Luís (El-Robrini, 1992; Feitosa, 1989, 1996, 1997; Santos, 1996; Tarouco e Santos, 1997; Sobrinho, 1998; Viana, 2000, entre outros) e no Delta do Parnaíba (Bittencourt et al., 1990; Bittencourt et al., 2003, Dominguez, 1999, entre outros).

A ZCEM apresenta 5 setores com características fisiográficas bem diferenciadas:

Golfão maranhense: população de 981.972 hab. (174.74 hab/km2), caracterizado como um complexo estuarino, onde deságuam os afluentes dos rios Mearim, Itapecuru e Munim, entre outros menos expressivos;

‘ Litoral oriental: população de 155.215 hab. (13.12 hab/km2), é marcado por uma linha de costa retilínea, recortando restingas, cordões de dunas fixas e móveis, manguezais, praias, baías, ilhas, enseadas e sistemas deltáicos, estuarinos;

‘ Litoral ocidental: população de 280.417 hab. (8.07 hab/km2), conhecido como a região das “reentrâncias maranhenses”, exibindo importantes manguezais e profundos estuários;

‘ Baixada maranhense: população de 190.493 hab. (2.42 hab/km2) é representada por terras baixas, planas e inundáveis, caracterizadas por campos, matas de galeria, manguezais e bacias lacustres e ‘ o Parque Estadual Marinho do Parcel Manuel Luís: não habitada, é uma região recifal coralina, quase totalmente submersa, com pequenos afloramentos de algas durante a baixamar (MMA, 1996), que ocorre a 49 milhas da costa.

O litoral do Maranhão perfaz uma extensão de 640 km (entre a foz dos rios Gurupi

1.CARACTERIZAÇÃO GEOMORFOLÓGICA E GEOLÓGICA

rios, foz de rios (Wright, 1995). A plataforma continental interna representa:(i)

A zona costeira será estendida até a plataforma continental interna, em função desta possuir uma estreita conexão com as praias arenosas, zonas de surf e estuáa fonte imediata dos sedimentos costeiros, como foi demonstrado na baía de São Marcos (El-Robrini, 1992) e (i) a zona de ocorrência de processos oceanográficos, responsáveis pelo transporte sedimentar e movimentos das águas costeiras. A linha de costa recorta desde as formações geológicas do Mesozóico (Sequência Itapecuru Superior) até os sedimentos de Pós-Barreiras e recentes. A topografia não alcança 30 m, em particular na região de Alcântara (setor 03, figura 01) e ao norte da Ilha de São Luís (setor 01, figura 01).

e Parnaíba) e apresenta um forte controle estrutural, seguindo as orientações das falhas normais NW-SE e falhas transcorrentes NE-SW, vinculadas à atuação de binário dextral E-W, no Terciário-Quaternário (Costa et al., 1991). É nesse contexto costeiro, influenciado por macro (6,65 m/ FEMAR, 1997) e meso-maré (2,02 m/ FEMAR, 1997) que os processos de erosão e de acresção modelam uma fisiografia dinâmica.

Figura 01. Mapa de Setorização da Zona Costeira do Estado do Maranhão (ZCEM): 01. Golfão maranhense, 02. Litoral oriental, 03. Litoral ocidental 04. Baixada maranhense 05. Parcel Mauel Luís (MMA, 1996).

Geomorfologia

Preferiu-se, a exemplo de Costa et al. (1991), descrever o relevo de litoral de “falsas rias”, utilizando-se o termo de planície flúvio-marinha, entretanto, foi mantida a terminologia de Planalto Rebaixado da Amazônia para caracterizar a unidade de relevo de maior amplitude (Planalto Costeiro).

O relevo do litoral do Maranhão apresenta 3 padrões morfológicos:

ao NW (setor 03, figura 01), o litoral é recortado por profundas indentações

(“Reentrâncias maranhenses”), cujas planícies costeiras são colonizadas por florestas de manguzais;

‘ a Leste (setor 02, figura 01), o litoral é subretilínea, com formações dunárias, praias arenosas e baías; e

‘ o Golfão maranhense (setor 01, figura 01), que é sustentado por três unidades geomorfológicas distintas (Costa et al., 1977):

(a) o maciço residual que representa as maiores elevações (200 m), caracterizando inselbergs, desenvolvidos sobre metassedimentos do Grupo Gurupi;

(b) a zona dos platôs, que constituem uma série de platôs de bordas escarpadas e ravinadas, esculpidas em sedimentos do Grupo Barreiras; e

(c) o planalto rebaixado da Amazônia da zona bragantina (Barbosa & Pinto, 1973) e a unidade geomorfológica do baixo planalto costeiro, que representa um planalto sustentado por conglomerados da Formação do Grupo Barreiras, caracterizado por um relevo colinoso de baixa amplitude. Os sedimentos quaternários representam a unidade de planície aluvionar (Costa et al., 1977), correlacionável à unidade morfoestrutural do litoral de “rias” (Barbosa & Pinto, 1973), à unidade geomorfológica planície costeira baixa, caracterizada por manguezais e à unidade geomorfológica planície arenosa, constituindo por planícies arenosas, praias, dunas e cordões dunários.

Segundo Silveira (1968), a costa do Maranhão é citada por Raja Gabáglia como costa mista; por Delgado de Carvalho como costa quaternária do norte; e como litoral amazônico ou equatorial pelo autor que justifica: “O litoral maranhense é todo rendilhado e a linha da costa indecisa; o rio carrega material em abundância e, assim, se forma cordões litorâneos, onde as vagas arrebentam com violência”.

Segundo Zembruski et al. (1971), três tipos principais de costas foram indentificados:

‘ costa construcional eólica, correspondendo ao trecho: baía de São José – litoral norte da ilha de São Luís – é constituído por campos de dunas e salt-marshs;

‘ costa construcional marinha no trecho Tutóia – delta do Parnaíba, representada por barrier beach, beach island, barrier spits e cordões litorâneos;

‘ costa mista, compreende o trecho baía de São José e foz do rio Gurupi. São planícies costeiras e costas de erosão marinha, formando pequenos terraços, platôs e tabuleiros terciários e/ou rochas cristalinas do embasamento.

Barbosa e Pinto (1973) dividem o litoral do Maranhão em duas subunidades: o litoral de “rias” e os Lenções Maranhenses. Por correlação, pode-se associar o litoral ocidental à costa amazônica ou guianense (Paiva et al., 1937; Silveira, 1968). Segundo Santos (1996), 92.47% da franja costeira encontra-se na faixa altimétrica de 0 a 35 m, onde, 31.37% representa o intervalo de 0 a 5 m (situado predominantemente na zona do estirâncio e nas dunas atuais) e 3.4% situa-se entre 5 e 15 m.

Geologia

Litoestratigrafia

A ZCEM compreende várias unidades litoestratigráficas pertencentes desde o Pré- Cambriano até o Cenozóico. Nos terrenos Pré–Cambrianos (Abreu, 1996 apud Ferreira Jr., 1996) ocorrem no âmbito do Crâton de São Luís, de rochas de idade variando do Arqueano ao Proterozóico médio e no âmbito da faixa móvel, de rochas indiferenciadas retrabalhadas durante o evento brasiliano. O Fanerozóico é materializado por várias pequenas bacias com sedimentos paleozóicos (Abreu et al., 1980, Igreja, 1985 e 1992, Aranha et al., 1990, apud Ferreira Jr., 1996). O mesozóico, marcado pela abertura do oceano Atlântico equatorial, provocando a abertura de bacias extensionais na faixa litorânea brasileira, entre estas, a bacia de São Luís e de Barreirinhas. Segundo Costa et al. (1977), Aranha et al. (1990), apud Ferreira Jr., (1996), os produtos litológicos são representados pelos diques de diabásio e as formações de Codó, Grajaú e Itapecuru. No terciário, formaram-se pequenas bacias, as quais acolheram os sedimentos da formações do Pirabas e do Grupo Barreiras.

O preenchimento sedimentar da bacia de São Luís é constituída por um empilhamento de unidades litoestratigráficas:

(1) sistema Codó/ Grajaú Estes sedimentos constituem a unidade basal da bacia de São Luís, sendo constituídos, por folhelhos betuminosos intercalados com níveis de calcário e recobertos por arenitos (Aguiar, 1971, apud Ferreira, 1996). Mesner e Woldridge (1964) subdividiram a formação Codó em: (i) unidade basal com folhelhos negros e betuminosos intercalados com níveis de carbonatos e anidrita, indicando um ambiente lacustre; (i) intermediária com arenitos brancos a esverdeados, mal selecionados e micáceos e (i) superior com folhelhos cinza-esverdeados, indicando um ambiente marinho transgressivo;

(2) formação Itapecurú Nas porções NW-SE, assenta-se discordantemente sobre rochas pré-cambrianas do Crâton de São Luís e do cinturão de cisalhamento de Gurupi (Ferreira Jr.,

1996), sendo separado dos sedimentos da Formação do Grupo Barreiras por uma discordância. Esta formação é representada por duas unidades (i) basal – dominam conglomerados e arenitos vermelho-acastanhados intercalados com siltitos e argilitos e (i) superior – inclui arenitos médios a finos, por vezes siltosos, intercalados com siltitos, argilitos e níveis carbonáticos em direção ao topo (Cunha e Del’arco, 1988; Colares e Araújo, 1990 e Aranha et al., 1990, apud Ferreira, Jr., 1996)(prancha 5, estampas 4 e 5; prancha 6, estampas 1 a 5).

Campbell (1949) foi quem primeiro descreveu esta unidade, denominando-a de Formação Serra Negra, posteriormente, o mesmo autor propôs o termo Formação Itapecuru para designar as Camadas Itapecuru de Lisboa (op.cit.), incluindo nesta unidade a Formação Serra Negra proposta anteriormente por ele. Lima & Leite (1978) referiu-se como Formação Itapecuru ao conjunto de arenitos com cores variegadas com estratificação cruzada e plano-paralela, textura fina a grossa e intercalações de siltitos e lamitos.

Ocorre na porção oeste-sudoeste da área, em uma pequena faixa nas proximidades de Magalhães de Almeida. Rodrigues et al. (1994) definiram litologicamente a Formação Itapecuru, na bacia de São Luís (a oeste da área), como sendo constituída por uma litofácies dominante, à qual se associam quatro litofácies subordinadas. A litofácies dominante foi designada de pelitos com laminação plano-paralela e as subordinadas de: pelitos com geometria sigmoidal, pelitos arenosos com estratificação cruzada de baixo ângulo, argilitos tabulares com intercalações de calcário e arenitos finos com grânulos de quartzo.

Mesner & Wooldridge (1964) e Miura & Barbosa (1972) posicionaram a Formação Itapecuru no Cretáceo, entre o Albiano e o Turoniano;

(3) Formação Pirabas Caracteriza-se por calcários marinhos altamente fossilíferos, com teor variável de argila. Foram depositados em camadas horizontalizadas de 4 a 6 m de espessura, repousando ora diretamente sobre o embasamento cristalino, ora sobre os sedimentos paleozóicos (Costa et al, op.cit.).

Constituem pequenas lentes calcárias e ocorrem no Litoral NW do Maranhão, nas margens da lagoa do Saco, no Maranhão, e no vale do Longá, próximo à localidade de Salgado, no Piauí. Além dessas foram mapeadas ocorrências nas margens do rio São Miguel, na margem oriental do rio Parnaíba (Lama Preta, Monte Alegre e Cajueiro) e entre os rios Longá e Parnaíba (Olho D’Água).

Na localidade de Monte Alegre, Costa et al (op.cit.) descrevem o seguinte perfil, sob uma capa laterítica: 0,70 m de solo cinza escuro, margoso, com matéria orgânica; 2,0 m de calcário margoso, creme amarelado, intemperizado; e 3,0 m de calcário margoso, amarelo escuro, consistente, criptocristalino, maciço, com horizontes coquinóides e restos de plantas. Segundo os autores citados, uma das características da Formação Pirabas é a existência de camadas altamente fossilíferas, constituindo-se em alguns locais de camadas coquinóides, como na região do baixo Parnaíba;

(4) Formação Barreiras

É representada por camadas areno-argilosas, de cores variegadas (Branner, 1902), não ou pouco litificados, de coloração avermelhada, creme ou amarelada, muitas vezes com aspecto mosqueado, mal selecionados, de granulação variando de fina a média, mostrando horizontes conglomeráticos e níveis lateríticos, sem cota definida, em geral associados à percolação de água subterrânea. A matriz é argilosa caulinítica, com cimento argilo-ferruginoso, às vezes silicoso. A estratificação é geralmente indistinta notando-se, apenas, um discreto paralelismo entre os níveis de constituição faciológica diferentes. Nos níveis conglomeráticos, por vezes observa-se uma incipiente organização em estruturas cruzadas e paralelas, bem como aumento da granulometria em direção à base (granodecrescência), mostrando alguns seixos imbricados. Estes clásticos normalmente são de quartzo e, mais raramente, de feldspato, bocós de laterito e outros tipos de rocha, com diâmetros variados. Bigarella (1975) atribui-se uma idade miocênica superior a pleistocênica para essa unidade.

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