ESTUDO DE CAPACITAÇÃO DE PROFISSIONAIS DO TURISMO, ALIADO AO CONCEITO DE TURISMO RESPONSÁVEL: UM BREVE OLHAR SOBRE O MUNICÍPIO DE BONITO - MS

ESTUDO DE CAPACITAÇÃO DE PROFISSIONAIS DO TURISMO, ALIADO AO CONCEITO DE TURISMO...

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¹ UNESP - Universidade Estadual Paulista. Campus Experimental. Rosana -SP – deise.plopes@gmail.com Graduanda em Turismo. ² UNESP - Universidade Estadual Paulista. Campus Experimental. Rosana -SP – mayara.sbatista@hotmail.com Graduanda em Turismo.

Deise de Paula Lopes¹ Mayara dos Santos Batista²

1 - Introdução

Bonito é localizado na Serra da Bodoquena no Estado de Mato Grosso do Sul, região

Centro-Oeste do Brasil. As atividades econômicas presentes na cidade são, em sua maioria, a pecuária e agricultura. O turismo em Bonito iniciou-se na década de 1970, quando admiradores da natureza e beleza cênica presentes ali, se veem atraídos pela região. Nesta época não haviam passeios organizados, nem estrutura turística na cidade. (ZIP TRAVEL, 2003). Atualmente, não há dados precisos do número de visitantes que a cidade recebe, porém, segundo Zaidan (2013), estima-se que Bonito recebeu cerca de 190 mil turistas no ano de 2012.

Entre as décadas de 1980 e 1990, surgem pontos turísticos em Bonito, além da Gruta do Lago Azul, que já possuía uma trilha em seu interior que possibilitava a caminhada. Os novos passeios surgem dentro de fazendas particulares, que continuavam a desenvolver suas atividades de pecuária, aos poucos as atividades desenvolvidas aumentam e Bonito passa a oferecer também trilhas, banhos de cachoeiras, passeios de bote e mergulhos. A visitação turística começou a aumentar gradativamente, tanto os grupos que visitavam o pantanal quanto às visitas feitas por famílias. (ZIP TRAVEL, 2003)

Com o aumento da demanda de turistas, investidores iniciam a construção de pequenos hotéis, assim como as lanchonetes e restaurantes e algumas agências de turismo começam a se organizar.

Havendo grande fluxo de visitação com turistas que vêm de diversos locais, tanto nacionais quanto internacionais, esses empreendimentos necessitam de profissionais devidamente capacitados para atender aos visitantes, dado que, segundo Swarbrooke (2000):

“[...] a satisfação do cliente depende da qualidade do produto que está sendo oferecido, e é o resultado do trabalho dos funcionários da linha de frente, mais do que dos gerentes.” Desta forma, faz-se necessário a realização deste estudo de modo que possa servir como referência para pesquisas futuras, especialmente as realizadas por turismólogos. Além disso, pode-se considerar este trabalho como relevante para os trabalhadores do Município de

Bonito, como forma de auxílio na melhora dos serviços atualmente prestados, uma vez que, os empregados são a parte mais importante dos empreendimentos.

Com base nas informações obtidas na viagem técnica realizada pela XI turma do curso de Turismo da UNESP à cidade de Bonito, em outubro de 2013, através de entrevistas com alguns trabalhadores de empreendimentos turísticos do local, o presente artigo busca analisar o nível de qualificação dos mesmos e sua influência na qualidade do atendimento. O artigo também abordará como a preferência das empresas pelos trabalhadores da região contribui no desenvolvimento local, aumentando a oferta de trabalho e renda para a comunidade.

A metodologia utilizada baseia-se em conteúdos ministrados na disciplina de

Antropologia do curso de Turismo da UNESP e, sobretudo em pesquisas em fontes secundárias (propiciando o enfoque para o assunto e auxiliando na formulação de hipóteses acerca do tema) e também a pesquisa in loco no município de Bonito-MS.

2 – Impactos do Turismo e Comunidade local

“O desenvolvimento de qualquer forma de turismo em determinada área inevitavelmente afeta a vida das populações residentes, além de alterar claramente o ambiente físico.” (SANTANA, 2009)

No âmbito atual, percebe-se que as preocupações dos pesquisadores da área do turismo não estão mais apenas nos turistas, elas se estendem para as pessoas, as comunidades, os ambientes onde existe a ameaça de diversos e incontáveis impactos; impactos esses, socioculturais que advém da fragilidade dos locais visitados. (SILVA, 2001)

Sobre o exposto acima, Theobald (2002) discorre acerca dos impactos da atividade turística:

Ao longo de toda história registrada, de certa forma o Turismo teve um impacto sobre tudo e todos os que estiveram em contato com ele. Num plano ideal, esses impactos deveriam ter sido positivos, no tocante aos benefícios obtidos tanto pelas áreas de destino quanto por seus residentes. Esses impactos positivos significariam para o local, resultados tais como melhorias nas condições econômicas, uma promoção social e cultural e a proteção dos recursos ambientais. Teoricamente, os benefícios do Turismo deveriam produzir ganhos muito superiores aos seus custos. (THEOBALD, 2002, p. 81)

Sobre a afirmação dos autores, entende-se que a atividade turística veio por muito tempo se desenvolvendo apenas com o foco no turista. Entretanto, observa-se que por conta da grande quantidade de atores envolvidos, não é possível excluir as comunidades e o meio da realização da mesma. Deve-se conduzir o turismo de forma que beneficie a todos os que direta ou indiretamente estão ligados a ele, ou seja, os impactos positivos devem sobressair.

Com relação a esses impactos, Ruschmann (1993) afirma: “Os impactos do turismo referem-se a gama de modificações ou sequência de eventos, provocados pelo processo de desenvolvimento turístico nas localidades receptoras.” E Ventura (2010) os classifica em:

- Positivos: a geração de emprego e renda; A geração de divisas; Valorização do Patrimônio Cultural material e imaterial; Melhoria da qualidade de vida da comunidade receptora; Construção de equipamentos; Incrementa a produção de bens e serviços; Aumento do consumo dos produtos locais.

- Negativos: Grandes partes das divisas saem do país (lucro das multinacionais); Especulação imobiliária; Alienação da comunidade local; Etnocentrismo.

Ainda no cenário dos impactos negativos, o turismo pode gerar distorções em relação às populações mais pobres, direta ou indiretamente, podendo elevar os preços dos produtos ofertados para comercialização ou até estimular a prostituição e mendicância. (RODRIGUES, 2002)

Como forma de minimizar os impactos negativos, Ventura (2010) dá algumas sugestões, dentre elas, agrega-se: o planejamento turístico do local com o devido inventário turístico, a promoção da integração entre turistas e população residente e valorização das atividades características de cada povo e local.

Algumas estratégias que também seriam cabíveis para o desenvolvimento das comunidades, seriam o apoio técnico para a abertura de microempresas e cooperativas e também o apoio a projetos de criação de novas escolas de formação profissional, notadamente técnicas, de nível médio. (RODRIGUES, 2002)

Todas essas medidas se enquadram no conceito de Turismo Responsável, que será explorado mais abertamente no tópico abaixo.

3- Turismo Responsável

Educação, conscientização e capacitação compõem a base do Turismo Responsável.

Sobre o mesmo, Salvati (2002) explana que deve ser entendido como um conjunto de bens e serviços que promovam o desenvolvimento socialmente justo e economicamente equilibrado. É importante que o turismo permita que amplos setores da comunidade participem nas consultas sobre planejamento, decisões e administração, também é necessário considerar desejos e direitos dos povos locais. Sabe-se que o turismo responsável deve respeitar e valorizar o conhecimento e as experiências locais, buscando maximizar os benefícios para as comunidades e promover o recrutamento, treinamento e emprego de pessoas no lugar.

Sobre o surgimento da denominação, Pires (2002) relata que foi proposta pela OMT em 1989, a partir de um consenso entre participantes de um seminário organizado pela mesma, com o intuito de determinar todas as tipologias de turismo que se referem ao respeito aos anfitriões, à natureza, à cultura e aos interesses das partes envolvidas na realização da atividade, como as empresas turísticas, os organismos oficiais e outros.

Alguns autores relacionam o termo Turismo Responsável com Turismo Sustentável, como Luis Noronha (2013) que afirma que “Turismo Sustentável ou Turismo Responsável é aquele que pretende chegar às necessidades dos turistas sem esquecer ou obstruir as regiões receptoras, protegendo-as e ampliando as suas oportunidades futuras.”

Rafael Kosoniscs (2013) diz que estes termos podem ainda ser chamados de Turismo

Verde - que é realizado de forma que contribua para a valorização das populações locais e principalmente a preservação e propagação da cultura. É preciso que o turista vivencie uma experiência única, mas também é necessário planejamento e ação.

Relacionando o conceito com o setor turístico, percebe-se que o turismo tem grande potencial para eliminar o índice de desemprego e realizar o início de um processo de economia solidária, que valoriza o ser humano acima do capital, para tanto há que se adotar estratégias de combate ao desemprego, procurando inserir os profissionais num setor econômico de modo a maximizar as chances e oportunidades de inserção e sucesso, através de crédito, treinamento e assistência técnica.

4- Capacitação & profissionais de turismo

Para que não haja divergências e insatisfações, é necessário que exista uma padronização na prestação de serviços turísticos, principalmente em empreendimentos que estão localizados próximos um do outro.

Sobre o perfil do profissional de turismo, Canani (1999) lembra que, ao contrário do que se imagina, seu trabalho é meticuloso e demanda grande interesse e capacidade de adaptar-se às diferenças entre as pessoas, a autora destaca ainda a importância do conhecimento a respeito do roteiro da viagem e dos equipamentos a serem utilizados, bem como dos vários aspectos relacionados ao roteiro. Especificamente o guia deve saber a história, a cultura, as particularidades sobre o local, o evento etc. Deve também atentar-se sobre a melhor forma de se comunicar e de lidar com as pessoas, se apresentar (aparência, boas maneiras, dicção etc.). Além disso, deve possuir algumas atitudes como ser paciente, tolerante, organizado, pontual e responsável.

O conjunto de características pela autora citados é fundamental para que ocorram momentos de confraternização e cumplicidade entre o guia e o seu grupo e, como consequência, a qualidade no atendimento.

O uso do empirismo, a falta de profissionalização e as dificuldades na formação do profissional do setor turístico têm sido tratados por especialistas da área. (Trigo, 1998; Ansarah, 2002).

Acerca do assunto, Ansarah (2002) chama atenção para o fato de haver um descompasso na prestação dos serviços turísticos brasileiros. Isto se deve, por um lado, à baixa qualificação dos profissionais, e por outro, à inadequação dos programas e currículos da maioria dos cursos superiores em turismo e hotelaria.

A autora defende a necessidade de se articular a qualificação demandada pelo mercado e os programas dos cursos de turismo. Essa seria a condição para que eles cumprissem seu papel social, ou seja, mais do que atender ao aspecto quantitativo da demanda, atendê-la do ponto de vista qualitativo.

Partindo desta discussão sobre qualificação profissional, com base nos estudos prévios e dados coletados no trabalho de campo durante a viagem técnica à Bonito-MS, o próximo tópico abordará o perfil dos profissionais dessa região específica.

5 – Descrição do trabalho de campo

Durante a viagem técnica realizada à cidade de Bonito-MS, em outubro de 2013, foram realizadas entrevistas com profissionais de diversos setores ao longo dos atrativos visitados.

Com base no que Thompson (1992) discorre:

O primeiro ponto é a preparação de informações básicas, por meio da leitura ou de outras maneiras. A importância disso varia muito. A melhor maneira de dar início ao trabalho pode ser mediante entrevistas exploratórias, mapeando o campo e colhendo ideias e informações. Com a ajuda destas, pode-se definir o problema e localizar algumas das fontes para resolvê-lo. Do mesmo modo que a “entrevista piloto” de um grande levantamento, uma entrevista de coleta de informações genéricas no início de um projeto local pode ser muito útil. (THOMPSON, 1992, p. 254).

Para as entrevistas foram elaborados questionários simples e objetivos, contendo as questões relacionadas ao tempo que o trabalhador reside em Bonito e tempo em que trabalha no local, tipo de regime de contratação (se o emprego é sazonal ou efetivo), e meio de transporte utilizado para chegar ao trabalho. Além disso, foram questionados sobre os requisitos para se trabalhar nos locais.

Na Gruta do Lago Azul, foi entrevistado um guia de turismo que reside no município e trabalha no local há mais de 15 anos. Para os empregados da Gruta, utiliza-se um transporte coletivo fornecido pelos administradores do lugar. Para se trabalhar ali, o requisito mínimo é possui um curso superior, seguido de alguma especialização. O tempo de moradia em Bonito também é importante, já que é dada preferência a profissionais que já conheçam a localidade. Possuir outro idioma não é obrigatório, mas conta como um diferencial, pois quanto maior a especialização, mais requisitado o guia é. Também foi informado que o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a prefeitura oferecem cursos de capacitação e a UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) com o curso de graduação em Turismo.

Ainda na Gruta, foi realizada a entrevista com uma intérprete que também reside em

Bonito e trabalha a pouco mais de quatro meses no atrativo. A entrevistada contou que ministrava aulas em uma escola de inglês, e apenas por possuir outro idioma, foi procurada para o trabalho. O transporte que utiliza é fornecido pelas agências e as mesmas a contatam para informar sobre as oportunidades de trabalho.

Mudando de atrativo, indo para a Barra do Sucuri onde se realiza a flutuação no Rio

Sucuri, foi entrevistado um dos coordenadores da atividade. Foi relatado que os requisitos para se trabalhar neste local é possuir formação em curso superior ou técnico e seguido de alguma especialização.

O coordenador conta que sempre viveu em Bonito e que pôde ver o surgimento da atividade turística na localidade, inclusive, se considera um dos responsáveis pela introdução do mesmo.

Em uma palestra ministrada no anfiteatro da UFMS, campus de Bonito, com um representante da secretaria de Turismo o mesmo foi questionado acerca do investimento na mão-de-obra local e respondeu que os trabalhadores das empresas turísticas em diversos níveis são a maioria, de Bonito e região e que as empresas investem no treinamento e qualificação da comunidade local, inclusive, oferecendo estágios para alunos da universidade de turismo da cidade.

6 – Considerações Finais

Com a realização das pesquisas bibliográficas para que o estudo fosse realizado, uma inusitada observação a se fazer é que há falta de dados fidedignos do local, como os de visitação, por exemplo, e também a atualização de informações gerais disponíveis na internet, visto que o local é conhecido e prestigiado em âmbito internacional.

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