Atuação fonoaudiológica na paralisia facial

Atuação fonoaudiológica na paralisia facial

(Parte 1 de 4)

Monografia de conclusão do curso de

Especialização em Motricidade Oral Hospitalar Orientadora: Mirian Goldenberg

LONDRINA 2001

RESUMO A Paralisia Facial é uma doença que interfere substancialmente na vida do indivíduo, devido às alterações que pode acarretar na expressão facial.

O objetivo desta pesquisa teórica é verificar a eficácia da fonoterapia nestes casos, bem como descrever as alterações miofuncionais apresentadas, os diferentes tratamentos que podem ser aplicados e os procedimentos fonoaudiológicos que estão sendo abordados atualmente.

Num primeiro momento são abordadas a anatomia e fisiopatologia do nervo facial, a diferença entre a paralisia facial central e periférica, os tipos de lesões que podem ocorrer, assim como os tratamentos médicos realizados, a avaliação e a terapia fonoaudiológica.

Nesta abordagem, pode-se verificar a contribuição do fonoaudiólogo, através do trabalho de conscientização do paciente quanto à musculatura e à movimentação pretendidas. O trabalho fonoaudiológico visa dar funcionalidade à musculatura afetada, diferenciando-o dos outros tratamentos que visam apenas a estética facial. Além disso, a atuação fonoaudiológica contribuiu para diminuir o tempo de recuperação da Paralisia Facial, ponto importante para o paciente que quer restabelecer sua expressão facial anterior, o mais breve possível.

Este estudo pretende contribuir para a fonoaudiologia como uma área de atuação pouco conhecida, como uma alternativa de tratamento para a classe médica e para o paciente que, compreendendo o funcionamento da movimentação facial pode conhecer melhor a si mesmo, melhorando sua autoestima e qualidade de vida.

RESUME The facial paralysis is an affection, which interferes with importance in men’s life, due to alterations that may occur in the facial expression.

The purpose of this theoric research is to find out the efficiency of the speech therapy in these cases, and also to describe the myofunctional alterations presented, the different treatments that may be applicable and the speech and language pathology procedures which have been approached nowadays.

In a first moment, the anatomy and physiopathology of the facial nerve are approached, and the difference between facial central paralysis and peripheral paralysis, types of lesions that may occur, and also medical treatments realized, speech therapy and evaluation.

In this approach, it is able to find out the speech and language pathologist contribution, through from the patient conscious of this work with the musculature and the movement intended. The speech and language pathologist works should give function to the affect able musculature, changing of others treatment that only searchs for facial esthetics. Besides, speech therapy actions also contributes to reduce time of Facial Paralysis recovery, which is an important point for the patient that want to reestablish their previous facial expression in a faster way.

This application intends to contribute to the speech therapy as an area of performance which is not well known, as an alternative treatment for the medical class and for patient that, understanding the facial musculature functions, so he can know better himself, improving your self-esteem and the life quality.

À MÍRIAM GOLDENBERG, pela orientação neste trabalho, fazendo -me acreditar na capacidade de escrever e pela sua forma simples de ser e colocar seus pensamentos.

À MARIA VALÉRIA SCHMIDT GOFFI GOMEZ, pelo carinho, atenção e disponibilidade em estar revisando este trabalho.

À CHRISTINA, amiga e terapeuta, que me fez crescer como pessoa e como profissional, fazendo-me crer na capacidade de realização.

Aos MEUS PAIS, pelo carinho e incentivo para o meu crescimento. Ao EIDER, pelo auxílio na revisão e companheirismo nestes anos em que estamos juntos, crescendo e tentando ser modelo para os nossos pequenos.

À LARA, YUDI E LUISA, por me ensinarem a “ser feliz” todos os dias.

Introdução1
Discussão Teórica3
Anatomia3
Fisiopatologia9
Definição de Paralisia Facial13
Diagnóstico15
Etiologia18
Tratamento Médico24
Avaliação Fonoaudiológica27
Tratamento Fonoaudiológico28
Considerações Finais32

• Referências Bibliográficas 3

A expressão facial é a manifestação que pode demonstrar mais fielmente os sentimentos do indivíduo, às vezes transmitindo muito mais informações que a própria comunicação oral. Considerando isto, pode-se afirmar que, qualquer alteração na face, poderá influir positiva ou negativamente no seu relacionamento pessoal e, até profissional. Além disso, pode-se dizer que a estética, desde há muito tempo, tem um valor muito significativo para o homem e poderá também influir nesse relacionamento. Desta forma, a dificuldade em movimentos e expressões da face pode interferir substancialmente no relacionamento do ser humano, visto que essas limitações quase sempre levam a alterações emocionais importantes para o indivíduo.

A Paralisia Facial é um dos acometimentos que mais afeta a imagem das pessoas, já que o nervo facial é responsável por várias funções da mímica e expressões da face, e, na hipótese de lesão desse nervo, podem ocorrer alterações como ausência ou lacrimejamento abundante, ausência de fechamento da pálpebra, dificuldade na movimentação voluntária dos músculos da face e outras, alterando sua própria identidade. O indivíduo portador de paralisia facial quase sempre sente-se inseguro e envergonhado em função das alterações, procurando o isolamento até mesmo dentro da família, já que apresenta dificuldades para se comunicar e em alguns casos de se alimentar normalmente.

Considerando que a fonoaudiologia dedica-se entre outras à adequação dos movimentos e funções da musculatura da face, o profissional desta área está plenamente habilitado para intervir nas ocorrências desta afecção, possibilitando uma melhora da comunicação do indivíduo, através do restabelecimento da mímica e expressão facial anteriores à lesão, bem como recuperando as funções alteradas, desde as primeiras manifestações, ainda no período de recuperação espontânea.

Neste trabalho de pesquisa será abordada a Paralisia Facial

Periférica, objetivando verificar a eficácia das intervenções fonoaudiológicas em pacientes acometidos pela paralisia facial. Tem-se como proposta descrever as alterações miofuncionais apresentadas pelos portadores desta afecção e quais os procedimentos fonoaudiológicos mais eficientes, de forma a contribuir na redução do tempo de recuperação do paciente. Pretende-se ainda, abordar os diferentes tipos de tratamentos medicamentosos e de outros profissionais aplicados a estes casos.

O trabalho fonoaudiológico nos casos de paralisia facial periférica visa dar funcionalidade aos movimentos e à musculatura, bem como a adequação das funções neurovegetativas, fala e expressão do indivíduo. Este é o diferencial da intervenção fonoaudiológica para os outros tratamentos, que na maioria das vezes tentam restabelecer a estética sem a devida importância às funções. Este trabalho fonoaudiológico é fundamental porque possibilita a redução significativa das alterações, quando não o restabelecimento total das funções e, conseqüentemente melhora da qualidade de vida do paciente, na medida que recupera sua imagem pessoal e o estado emocional que se encontra alterado.

Isso possibilita a manutenção de sua integração ao meio, fato este, que normalmente não é percebido pelos familiares e pessoas próximas.

Neste item serão abordadas a anatomia e fisiologia do nervo facial, a diferença entre a paralisia facial central e periférica, as causas mais comuns e tipos de paralisias mais freqüentemente encontradas, bem como os mais recentes tratamentos preconizados, principalmente na área fonoaudiológica. Estas explanações são necessárias para melhor entendimento do assunto proposto.

Anatomia

O conhecimento anatômico do nervo facial é extremamente importante para a localização da lesão, para o prognóstico do caso e a melhor abordagem a ser aplicada, tanto do ponto de vista terapêutico como cirúrgico.

O nervo facial e seus ramos estão diretamente relacionados a funções fisiológicas importantíssimas para o ser humano, como por exemplo: o lacrimejamento, a proteção da orelha interna contra sons de alta intensidade, a sensibilidade gustativa dos dois terços anteriores da língua, a inervação motora das glândulas submandibulares e salivares e expressões faciais.

O nervo facial é o VII par craniano e é composto por duas raízes: uma motora, o nervo facial propriamente dito e outra sensitiva representada pelo nervo intermédio.

Desde o córtex cerebral até as ramificações da face, podemos dividir o nervo facial em três segmentos: supranuclear, nuclear e infranuclear (Fig1). 1. Segmento Supranuclear Segundo Colli et al (1994), este segmento é formado pelos tratos corticonucleares que são constituídos pelos axônios dos neurônios motores que têm origem na região do giro pré-central do córtex, caminhando pela coroa radiada, joelho da cápsula interna e pedúnculo cerebral médio, até chegar ao núcleo motor do facial.

supranucleares do facial, sendo esta a caracterização da Paralisia Facial Central

A maioria das fibras corticonucleares dirigem-se para um grupo de células ventrais (responsável pela motricidade da metade inferior da face) cruzando a linha média, atingindo os núcleos contralaterais. Uma parte das fibras que se dirige para grupos de células dorsais (responsável pela motricidade da metade superior da face) cruza a linha média e outra parte não cruza, resultando em inervação ipsi e contralateral. Isto explica a preservação de movimentação da metade superior da face bilateral e paralisia da metade inferior nas lesões

Além das fibras corticonucleares, este segmento apresenta fibras extrapiramidais, o que caracteriza a movimentação involuntária dos músculos da mímica nas manifestações emocionais. Desta forma, as Paralisias Faciais

Centrais caracterizam-se por paralisia unilateral da metade inferior da face, apresentando movimentação involuntária nas manifestações emocionais. 2. Segmento Nuclear De acordo com Colli et al (1994), o núcleo motor do nervo facial situa-se na parte caudal da ponte. De seu núcleo motor, o nervo facial dá uma volta ao redor do núcleo do nervo abducente e emerge do tronco cerebral na altura do sulco bulbo-pontino, mas separadamente de sua raiz sensitiva, o nervo intermédio. 3. Segmento Infranuclear Este segmento inicia-se na emergência das duas raízes do nervo facial no sulco bulbo-pontino, como já foi dito acima e pode ser subdividido em: segmento pontino, meatal, labiríntico, timpânico, mastóideo e extratemporal. 3.1. Segmento Pontino Após a emergência do sulco, as duas raízes do nervo facial se juntam ao nervo vestíbulo-coclear, através do ângulo pontocerebelar e penetram no meato acústico interno.

May & Shambaugh (1994) colocam que as lesões deste segmento podem produzir déficits vestibulares e cocleares juntamente com a Paralisia Facial Periférica, em função da proximidade dos nervos citada no parágrafo anterior. Este segmento mede aproximadamente 10 m. 3.2. Segmento Meatal Depois de penetrarem no meato acústico interno, o nervo facial e o intermédio formam um tronco nervoso único, sendo que este segmento mede aproximadamente 8 m.

De acordo com May & Shambaugh (1994), o nervo facial neste segmento é muito resistente a processos de estiramento e apresentando compressão lenta. Por isso, as lesões nessa região podem apresentar primeiramente, alterações na secreção lacrimal, salivar e na gustação e, só tardiamente ocorre o comprometimento motor do nervo facial. 3.3. Segmento Labiríntico Este segmento recebe esse nome porque o nervo passa entre o labirinto coclear e vestibular, tendo aproximadamente 6 m de comprimento.

Inicia-se no final do meato acústico interno, penetrando no canal de

Falópio, onde o nervo facial sofre uma compressão fisiológica porque o canal é mais estreito, deixando-o mais vulnerável a processos inflamatórios. Segue então até uma pequena dilatação, onde se encontra o gânglio geniculado. Após o gânglio, o nervo facial curva-se para trás, constituindo o primeiro joelho do facial, que marca o término do segmento.

Do gânglio geniculado parte o 1° ramo do nervo facial, o nervo petroso superficial maior que é responsável pela inervação da glândula lacrimal (Colli et al, 1994). 3.4. Segmento Timpânico Este segmento inicia-se a partir do joelho do nervo facial, tendo aproximadamente 13 m de comprimento. Pode ser dividido em duas porções: uma proximal, relacionada ao processo cocleariforme e outra distal ou estapediana, relacionada ao estribo.

O 2° ramo do nervo facial parte deste segmento e é o nervo estapédio, responsável pelos movimentos de excursão do estribo (Colli et al, 1994). 3.5. Segmento Mastóideo Inicia-se com a formação do segundo joelho do nervo facial, onde começa o seu trajeto vertical, medindo aproximadamente 15 m, estendendo-se até o forame estilomastóideo.

Deste segmento parte o 3° ramo do nervo facial, o nervo corda do tímpano, responsável pela inervação gustatória da mucosa dos dois terços anteriores da língua e palato, além de levar impulsos vasodilatadores às glândulas salivares sublinguais e submandibulares (Bento & Barbosa, 1994). 3.6. Segmento Extratemporal A partir da emergência do forame estilomastóideo, o nervo facial emite o 4° e 5° ramos. O 4° ramo é o nervo auricular posterior e o 5° é aquele que inerva o ventre posterior digástrico.

Em seguida, o nervo facial penetra na glândula parótida dividindose em dois troncos, o temporo-facial e o cervico-facial, que dão origem aos ramos temporal, zigomático, bucal, marginal da mandíbula e cervical.

O ramo temporal ou frontal inerva os músculos frontal e corrugador do supercílio, parte superior do músculo orbicular dos olhos, os músculos auriculares superior e anterior e músculos intrínsecos da superfície lateral da orelha. O ramo zigomático inerva o músculo orbicular dos olhos, o músculo nasal e o elevador do lábio superior. O ramo bucal inerva os músculos levantador do ângulo da boca, zigomático maior e menor, o levantador do lábio superior e da asa do nariz, prócero, risório, além do bucinador e orbicular dos lábios. O ramo marginal da mandíbula inerva os músculos depressor do ângulo da boca, depressor do lábio inferior e mental. O ramo cervical inerva o platisma.

O nervo facial apresenta um longo trajeto dentro de um canal ósseo estreito (Canal de Falópio) e inúmeras ramificações, portanto mais suscetível a lesões. Visto as várias funções pelas quais é responsável, a ocorrência de comprometimento, pode interferir na vida do indivíduo de maneira muito significativa (Fig. 2).

Fisiopatologia

Através da fisiopatologia pode-se conhecer melhor o funcionamento do nervo facial, as alterações na ocorrência de uma lesão, bem como o processo de regeneração do nervo, durante o período de recuperação espontânea.

O nervo facial é constituído por uma reunião de axônios. Cada axônio é envolvido por uma bainha de mielina que é circundada por outra, chamada bainha de Schwann ou neurilema. Esse neurilema é formado por células de Schwann, que são indispensáveis à vida e funcionamento dos axônios. A bainha de mielina é interrompida, a intervalos regulares, pelos nódulos de Ranvier, onde o axônio fica desprotegido dessa bainha (Hungria, 1991).

Além da bainha de mielina, temos três camadas que envolvem o axônio internamente à bainha: epineuro, perineuro e endoneuro (Fig. 3).

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