50 - Anos - Luz - Camera - Edgar - Moura

50 - Anos - Luz - Camera - Edgar - Moura

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) _ Moura, Edgar Peixoto de 50 anos luz, câmera e ação / Edgar Moura. 2ª ed. — São Paulo : Editora SENAC São Paulo, 2001.

Bibliografia.

1. Cinema — Iluminação 2. Fotografia — Iluminação 3. Luz I. Título.

9-4237 CDD-778.7 _ Índices para catálogo sistemático:

1. Fotografia e luz 778.7 2. Luz e fotografia 778.7

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ESTA OBRA FOI COMPOSTA PELA EDITORA SENAC SÃO PAULO EM GARAMOND E IMPRESSA PELA CROMOSETE GRÁFICA E EDITORA LTDA. EM OFF-SET SOBRE PAPEL BAHIA SUL 90 G/M² DA BAHIA SUL CELULOSE E PAPEL EM JUNHO DE 2001. _

Editora SENAC São Paulo Rua Rui Barbosa, 377 – P andar – Bela Vista – CEP 01326-010 Caixa Postal 3595 – CEP 01060-970 – São Paulo – SP Tel. (1) 284- 4322 – Fax (1) 289-9634 E-mail: eds@sp.senac.br Home page: http://www.sp.senac.br

Nota do Editor7
Um prefácio para o do Millôr9
E a luz foi feita 1

Sumário Millôr Fernandes

Livro I — A luz15

Livro I — Quem faz o quê 203

Livro I — Como fazer 375 Índice geral 441

Nota do Editor

Em alguma parte deste livro seu autor comenta que os fotógrafos de cinema têm sempre a aspiração secreta ou não de ser diretores de filme, de participar dele numa escala de criação principal. E não há dúvida de que uma afirmação dessa feita por Edgar Moura vale por expressão da verdade porque ele próprio, na maneira como observa o mundo, explica processos de trabalho e narra com admirável sentido de informação e interesse, é de uma criatividade surpreendente.

Sempre bem-humorado, com uma verve que revela neste texto em dezenas de "causos" a servir de deflagradores dos temas que expõe, Edgar Moura conduz o leitor por caminhos que seriam áridos se o guia fosse outro. Aqui, as sutilezas da luz, por exemplo, assim como os movimentos da câmera, e todo o complexo universo da realização cinematográfica, encontram um expositor que gosta do que faz e adora falar disso.

Entre os personagens que com nome próprio ou não desfilam pelas páginas deste 50 anos luz, câmera e ação, o autor refere-se ao fotógrafo que, não sabendo pôr em palavras o específico de seu ofício, dá uma impressão de ter poucos recursos — e no entanto é um verdadeiro artista.

Pois o que há de notável neste livro é que seu autor, um mestre da fotografia, prova-se também um hábil expositor de assuntos que ficam na fronteira do rigor técnico e da arte figurativa, sem nunca perder o fio da meada de uma narrativa saborosa.

Um prefácio para o do Millôr

A gente sempre escreve para alguém ler. Pessoalmente. Não para o tal do "público", que os artistas de TV dizem amar tanto, abstratamente, mas que depois tratam aos pontapés quando eles vêm, com suas filhinhas, pedir um autógrafo na churrascaria. Não. Escreve-se para uma pessoa particular. O João Ubaldo escrevia para o Glauber Rocha ler. Morreu um, deprimiu-se o outro. Na realidade, escreve-se para um outro escritor. É uma espécie de vingança — "de tanto ler, acaba-se escrevendo". Dependendo da pretensão ou da sorte, pode-se atingir o leitor-alvo. Algumas vezes a pretensão é grande demais. Woody Allen, quando acusado de ter Deus como modelo, disse que a gente sempre precisa copiar alguém. O próprio Deus deve ter escrito a Bíblia para alguém mais importante do que a gente ler. Quanto à sorte, ela depende da morte. Se você não viver na mesma época do seu modelo, terá algumas dificuldades. Por exemplo, alguém que escreve para o Shakespeare ler nunca será lido pelo seu ideal. Falta de sorte. Eu escrevo para o Millôr ler. Sorte a minha, azar o dele.

Pode parecer estranho um fotógrafo escrever para um escritor ler e não para os outros fotógrafos lerem. Mas nem é tão estranho assim; fotógrafos fotografam para os outros fotógrafos verem. Escrevem para os escritores lerem. Ao mesmo tempo, fotografar não exclui escrever, assim como voar também não. Saint-Exupéry, que, com certeza, não era melhor piloto do que Mermoz, escrevia muito bem sobre uma coisa que nem fazia tão bem assim. Vai daí que eu não preciso ser o melhor fotógrafo do Brasil para escrever sobre fotografia. Basta entender bastante de uma coisa e gostar da outra. Como diz o meu melhor amigo, parafraseando o Nélson Rodrigues: "Como assim, melhor fotógrafo do Brasil? Você não é nem o melhor fotógrafo da tua própria casa, tua mulher é melhor que você". (E eu ainda digo que o cara é o "meu melhor amigo"! Enfim...) Antes de ler o que escrevi, leia o que o Millôr escreveu sobre o que escrevi. E, se for possível, tenha a mesma paciência que ele teve.

E a luz foi feita

— não suspeitava o escritor no Edgar, ora!, ora! — e que agora está aqui. Se chama

Edgar Moura foi um desenhista do Pasquim, jornal publicado aqui no Rio, no fim dos anos 60. Bom de traço e de significado, o Edgar. Quase menino, não chegou a amadurecer desenhos e legendas, se mandou para artes e ofícios mais importantes. Cinema, iluminação, direção de fotografia, estudos dessas habilidades urbe et orbi. De longe eu o acompanhava. Em nossas profissões, apaixonantes, jornalismo, ciclismo, tiro ao alvo, cinema, roleta-russa, todos, mais ou menos, nos acompanhamos. Vi Edgar crescer — inclusive em tamanho, acho que chegou aí a um e noventa — pelas ruas de Paris, Bruxelas, Michigan e até Moçambique (até por quê, Millôr?), pelo casamento (que inveja!). De repente me telefona por um prefácio para o livro do qual eu nem suspeitava 50 anos luz, câmera e ação. Um calhamaço. Um calhamaço de 4 páginas. Soberbo calhamaço.

Se você gosta alguma coisa de fotografia (não still, mas a foto-grafia em movimento, de cinema), vai pedir mais. O homem entende do riscado, vai da prática à teoria e volta desta a modos de fazer (não pense em livrinhos how-to-do, é filosofia de trabalho) com uma elegância e uma precisão de escritor nato. E experimentado. Por tudo perpassa (?) o mais fino humor, em sua forma melhor, a ironia, em sua forma maior — auto-ironia. Sem explicitar, Edgar deixa claro que não pretende salvar o mundo com a sua profissão. Nem com seu livro. Acho bom.

Dê uma olhada em qualquer capítulo. Comece pelas janelas de Vermeer. Como você não vai parar, logo ficará encantado em saber o que é a natureza da luz e onde está sua origem – o homem leu tudo sobre o assunto e aqui entra, acho, até Goethe –, o que é uma luz dura, um corpo negro, um contraluz difuso, o tripé (iluminado) da criação. E por aí vão muitos capítulos de visão criativa sobre a admirável realidade que nos cerca, mas que, Edgar me convence, pode ser muito melhor iluminada. Afinal de contas o fiat lux foi só um improviso.

Millôr Fernandes

Não fiz os melhores filmes. Fiz os filmes que fiz melhores.

Alexandre Fonseca

Barão e Gomide

Barão e Gomide brigavam sempre Barão sempre bateu em Gomide Gomide sempre apanhou do Barão Gomide depois viajou muito fez muito esporte nos USA Nadou pulou correu e voltou muito forte Quando chegou, passou a mão no telefone e desafiou o Barão Barão aceitou o desafio veio e sentou a mão em Gomide de novo Eu, quando voltei a Paris liguei para Flore e nunca mais a vi Já no telefone senti que não tinha a menor chance.

O metrô era: primeiro Gare du Nord, depoisAlexandre não se lembrava mais.

Continuando naquela direção, a próxima parada seria a casa dela. Ela gostava muito da cor mauve que ele imaginava que fosse violeta. Ele se orgulhava de estar em Paris com uma namorada vestida de mauve, na direção Porte de Orleans/Porte de Cligancourt.

Pois bem. Na manhã seguinte ao começo desse namoro, depois de uma chegada apaixonada a Paris, estavam ali dormindo. Dormitavam de manhã, sim e não, sem se levantarem da cama. Ainda meio sonado, ele ouviu a maçaneta da porta girar com cuidado. Olhou, sem se virar, e viu Flore, a irmã. Uma paixão fulminante. Não era mais aquela mulher que estava ao seu lado na cama quem ele sempre desejara. Era aquela outra, vista de cabeça para baixo pela fresta da porta. Que engano! Quanto tempo perdido! A porta se fechou de novo.

Flore lhe diria, anos mais tarde, que só tinha ido ver quem estava com a irmã caçula. Muito depois ele descobriria que as duas eram inimigas fraternas, que sempre amaram os mesmos homens, que uma teria roubado sabe-se lá quem de sabe-se lá quem da outra.

Você, caro leitor, há de dizer: "Mas o que tem tudo isso a ver com fotografia?"

Calma. Espere um pouco. Já vou explicar.

Alexandre gostava muito de viajar. E você: "Eu aqui querendo ler sobre fotografia e cinema e tendo que agüentar essa história de Nélson Rodrigues com cunhado sem-vergonha". Não, ouça só.

cabeçalho da carta que ela estava escrevendo: "Truc, mon amour []". Mon amour! Meu

Alexandre gostava muito de viajar. Anos depois, ele estava viajando com Flore pelo interior do Brasil. Ia lendo Os sertões e refazendo o caminho da tropa de Uauá até Geremoabo. Tentava convencer Flore de que aquilo ali era o centro do mundo. Não tinha a menor idéia do que ela achava daquela aridez toda, mas a viagem era horrível. Apaixonado e chato, acabou brigando com a moça. Uma besteira qualquer por ter rasgado a calça pulando uma cerca de arame farpado. Quando voltou, humilde, para o hotel, ela estava estranha. Como estranha? Assim. Quando entrou, ela estava escrevendo alguma coisa. Deu-lhe um abraço por trás para fazer as pazes, mas seus olhos caíram no Deus! Mon amour. Ele ali com as calças rasgadas e ela escrevendo para outro "mon amour".

Pronto. Acabou-se a paixão fulminante. Agora vamos à fotografia. Não, ainda não. Ainda falta o mais importante.

Ele, Alexandre, continuou viajando. Uns três anos depois, lá estava ele em

Portugal correndo atrás dos militares, dos cravos e da Revolução. A França era logo ali, Flore atendeu o chamado e veio. Como ela o tratava mal! E como ele era apaixonado! Ao voltar para Paris, ela lhe disse: "Aqui nos separamos". Não era uma pessoa do mal. Chorou quando se separaram na estação. Não se veriam mais. Ela tinha a vida dela (marido e filha) e não queria que ele viesse, de dois em dois anos, tumultuar, sabe-se lá o quê, sabe-se lá onde. Mas, e já estamos chegando lá, se veriam ainda dessa vez, em Paris. Almoçaram num restaurante

hotel que ele, se quisesse, não conseguiria achar de novoQuando se separaram, viu-a

onde ela cortou a mão lhe ensinando a tirar escargot da casca, e passaram a tarde num começando a se misturar com as pessoas na rua. Teve a nítida impressão de que nunca mais a veria na vida.

Quase. Quase acabou esta história. Só falta o fecho. Anos depois, Alexandre passou por Paris mais uma vez, ligou para Flore e: "[...] nunca mais a vi, já no telefone senti que não tinha a menor chance".

Entendeu? Olhe o fim da poesia com que começa esse texto. Pois é. É o mesmo.

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