Metodologia pesquisa

Metodologia pesquisa

(Parte 1 de 4)

CARVALHO, Alex et al. Aprendendo Metodologia Científica. São Paulo: O Nome da Rosa, 2000, p. 1-- 69

A aventura histórica da construção dos fundamentos do conhecimento científico

Ciência. O que significa esta palavra? Existe apenas um significado para ela? Se não, quais são os outros? Existem relações entre estes vários significados? No contexto desse livro -que pretende iniciar o aluno na recepção e na produção do conhecimento científico -faz-se necessário delimitar o que se entende por ciência. A palavra ciência surge do latim (scire) e significa conhecimento ou sabedoria. Em geral, fala-se que uma pessoa tem um certo conhecimento (ou está ciente) quando detém alguma informação ou saber com relação a algum aspecto da realidade.

Uma boa cozinheira, por exemplo, possui um conhecimento sobre culinária, assim como um engenheiro sobre os possíveis modos de construção de uma casa. No sentido mais geral da palavra ciência, os dois podem e devem ser considerados sábios. No entanto, não se pode dizer que o conhecimento que os dois apresentam seja do mesmo tipo. Tanto o modo como cada um deles veio a aprender o que sabe hoje como a natureza do conhecimento aprendido são diferentes.

Assim, por exemplo, a cozinheira, que aprendeu seu ofício com sua mãe, pode fazer bolos muito bem, mas dificilmente saberá explicar o motivo pelo qual o fermento faz o bolo crescer. Já o engenheiro, que freqüentou uma universidade, deverá saber apresentar as causas relacionadas, por exemplo, à queda de uma casa. Se nem todos os conhecimentos são iguais em sua natureza, o que os diferencia? E o que caracteriza especificamente o conhecimento científico?

Na verdade, pode-se falar, de uma maneira um tanto esquemática, na existência de vários tipos de conhecimento, isto é, de diferentes formas de se abordar a realidade, buscando-se compreendê-la ou explicá-la. Assim, o conhecimento pode ser do tipo senso o u , a t st c , fl s f o e l gc i n íc .f oc m m r í i o i o óic , t o ó i o ou c e t i

O conhecimento do tipo senso comum, por exemplo, como todo conhecimento, produz informações sobre a realidade. No entanto, tais informações normalmente se prendem aos seus objetivos mais imediatos. Nossa cozinheira assa bolos por causa dos elogios e/ou salários que recebe. Estes motivos, de natureza mais imediata, bastam para mantê-la assando bolos. Ao mesmo tempo, ela sobrevive muito bem sem o conhecimento do motivo pelo qual o fermento faz o bolo crescer. Assim, não precisa se preocupar em saber a propriedade que determina o crescimento do bolo. Ou seja, não busca descrever os elementos específicos que, no fermento, causam tal efeito. Também não precisa se eeaddpreocupar com a gnrliaedo conhecimento que obtém. Não necessita enquadrar uma descoberta sua -sobre um novo jeito de fazer um bolo, por exemplo -em um princípio geral que estabeleça que tal conhecimento é válido sempreque se apresentarem determinadas, condições (por exemplo, o tempo de cozimento do bolo). A cozinheira também não precisa contar para ninguém comochegou a descobrir uma nova forma de fazer bolo. Não precisa iugrseus resultados, ficando, se quiser, com o conhecimento só para sinem mesmo dvla mesma.

Já o conhecimento chamado de científico surge basicamente no século XVII, com a constituição histórica da modernidade no ocidente. A separação, tão comum hoje, entre filosofia e ciência não existia antes do advento da modernidade. Aliás, é bom ressaltar que a relação da ciência com a filosofia e com a arte nunca deixou de existir. São todos, na verdade, campos que se interpenetram e que mantêm pelo menos um vínculo em comum: questionar a realidade de forma a estar sempre discutindo as possibilidades da felicidade humana. No entanto, existem algumas características que, de uma maneira geral, delimitam o campo da ciência.

Um contraponto com as características do conhecimento do tipo senso comum, conforme apresentadas no texto anterior, pode ser útil para ilustrar a natureza deste campo. Em primeiro lugar, a ciência não é imediatista, não se contenta com informações superficiais sobre um aspecto da realidade, mesmo que esta informação seja útil de alguma maneira (por exemplo, saber que o fermento faz o bolo crescer é proveitoso para a cozinheira mas não é um rtiaconhecimento suficiente para a ciência). Na verdade, a ciência pretende ser cíc, isto é, busca estar sempre julgando a correção de suas próprias produções. Aliás, este é o sentido da palavracíiartc,de origem grega (kritikós).

O conhecimento científico se caracteriza também como uma procura das possíveis causas de um acontecimento. Assim, busca compreender ou explicar a realidade apresentando os fatores que determinam a existência de um evento. Desta forma, não basta saber que o fermento faz o bolo crescer. É necessário, sobretudo, caracterizar o que, na constituição do fermento, produz o efeito que é o crescimento do bolo. Uma vez obtido este eeaaeconhecimento, deve-se garantir suagnrlidd,isto é, sua validade em outras situações. A divulgação dos resultados também é uma marca fundamental da ciência moderna. Trata-se do que se chama deeeccnesbjtvaexríiodaitrueiidd,isto é, da garantia de que o conhecimento está sendo colocado em discussão e que qualquer outro cientista pode ter acesso a ele. Neste sentido, a ciência moderna não se pretende dogmática. Ao relatar seus resultados, o cientista deve também contar comochegou a eles, qual caminhoseguiu para alcançá-los. foTrata-se, pois, da apresentação do que se chama de métodocientíic.

O que caracteriza tal método? Na verdade, método, em ciência, não se reduz a uma apresentação dos passos de uma pesquisa. Não é, portanto, apenas a descrição dos procedimentos, dos caminhos traçados pelo pesquisador para a obtenção de determinados resultados. Quando se fala em método,busca-se explicitar quais são os motivos pelos quais o pesquisador escolheu determinados caminhos e não outros. São estes motivos que determinam a escolha de certa forma de fazer ciência. Neste sentido, a questão do método é teórica (do grego theoria),uma vez que se refere aos pressupostos que fundamentam o modo de pesquisar, pressupostos estes que, como o próprio termo sugere, são anteriores à coleta de informações na realidade.

No início da modernidade, por exemplo, houve uma valorização da experimentação e da observação como procedimentos ou passos necessários para se fazer ciência, mas estes procedimentos foram escolhidos porque se partia do pressuposto de que o homem seria capaz de, por si só, descobrir as causas dos fenômenos da natureza, descrevendo em leis gerais seu modo de funcionamento. Também estava suposta uma ordem na natureza: os eventos se relacionavam uns com os outros de forma regular, assim como todo o dia podese observar que, em determinado momento, o sol se põe. No entanto, antes da modernidade, a observação da natureza não era valorizada (ao contrário, muitas vezes era até proibida), pois se partia de um pressupostodiferente: o único conhecimento possível eeaã.seria dado por Deus ao homem, através de uma rvlço

Assim, pressupostos diferentes determinam procedimentos diferentes para alcançar o conhecimento.

Mas exatamente sobre o que se referem tais pressupostos? Ou ainda, são suposições prévias (antes da pesquisa acontecer) a respeito do quê? São basicamente sobre:

1. o que é o homem,suas possibilidades de vir a conhecer a realidade e, se existem, quais são elas e como poderão se dar; 2. as maneiras pelas quais a naturezae a sociedadesão concebidas e; 3. o processo de pouãohcmnordço de cneiet,isto é, considerando determinada concepção de homem e de natureza e/ou sociedade, resta supor como se originam as idéias ou o saber da ciência, como deverá ser possível produzi-lo.

Assim, uma ordem ou regularidade nos eventos da natureza era um pressuposto a partir do qual o cientista moderno passou, com os procedimentos que criava com essa finalidade, a observar relações entre eventos (por exemplo, entre uma determinada temperatura e a passagem da água do estado líquido para o gasoso). No entanto, se o pressuposto fosse radicalmente outro, por exemplo, o de que os fenômenos naturais se transformam o tempo todo, então os procedimentos construídos seriam outros, uma vez que o olhar do pesquisador estaria dirigido por outro tipo de pressuposto.

A definição de método acima apresentada faz com que, tanto nas chamadas ciências naturais ou exatas como nas ciências humanas (que só aparecem no século XIX), tenhamos de lidar com uma pluralidade de perspectivas que procuram fundamentar o processo de produção do conhecimento científico. Ou seja, apesar de a ciência possuir critérios que, de uma maneira geral, são aceitos por todos os cientistas como definidores de sua maneira de trabalhar (como a intersubjetividade, por exemplo), nem todos os cientistas partem, para a realização do seu trabalho, de uma mesma concepção do que seja o conhecimento científico. Isto ocorre porque os pressupostos a respeito do que seja o homem, a natureza e/ou a sociedade e o próprio modo de produzir conhecimento não precisam ser os mesmos para todos os cientistas.

Sendo assim, é mais aconselhável se falar em visões de ciência ou em tnêcaednis eooóia.Tais diferenças no modo de entender e produzir o conhecimento científicomtdlgcs já podem ser observadas no momento mesmo do seu surgimento, ou seja, no início da modernidade. No século XVII constituiu-se um ramo da filosofia -a eitmlgapseooi-que, a partir de então, vem discutindo e formulando diferentes fundamentos para a ciência.

ueioA epistemologia, sobretudo a partir dos trabalhos de I. Kant, utiliza os termos sjt bete ojopara fazer referência aos dois pólos envolvidos na produção do conhecimento: o homem (que se propõe a conhecer algo) e o aspecto da realidade a ser conhecido. A discussão do papel do sujeito é central para se compreender a ciência, uma vez que se refere à forma como o cientista (o sujeito) deve se comportarpara produzir conhecimento, e, assim, revela pressupostos subjacentes a toda pesquisa.

Na história da epistemologia surgiram três perspectivas a este respeito. A primeira - chamada de empirismo-supõe a primazia do objeto em relação ao sujeito, isto é, o conhecimento deve ser produzido a partir da forma como a realidade se apresenta ao cientista. Neste quadro, seu papel é passivo,dado que a fonte principal do conhecimento está no objeto.

A segunda perspectiva – chamada de racionalismo–aponta a primazia do sujeito ou de sua atividadeem relação ao objeto, uma vez que toma a razão, isto é, a capacidade humana de pensar, avaliar e estabelecer relações entre determinados elementos como fonte principal do conhecimento. Assim, por exemplo, a idéia de causaestaria situada na razão e seria a partir dela que se poderia produzir um conhecimento seguro da realidade.

De uma maneira bastante genérica (veremos que existem diferenças importantes entre autores situados nas duas perspectivas acima descritas), pode-se afirmar que o empirismo e o racionalismo possuem um elemento em comum: ambos pressupõem uma separação entre sujeito e objeto, isto é, partem do princípio de que existe uma realidade que independedo ponto de vista do pesquisador e que deve ser por este alcançada, seja tomando como sua viaprincipal de acesso a percepção ou a razão. Claro que o sujeito (ou pesquisador), nos dois casos, participa do processo de produção de conhecimento. No entanto, tal participação é feita supondo-se que o objeto ou a realidade que se quer estudar existe por si só, fora e separada do pesquisador. Por este motivo, as duas posições apresentadas são chamadas de realistas.Os termos rpeetcoimoe fnainsersnainsudcoimo também são utilizados para indicá-las, uma vez que ambas pretendem representar ou fazer referência à realidade tal como ela, de fato, é, independentemente do sujeito que a udmnoestuda. Este é, na verdade, um dos fnaetsdas duas posições apresentadas, daío termo fnainsudcoimoser usado para identificá-las como um tipo de epistemologia.

A terceira posição sobre o papel do pesquisador na produção do conhecimento -o interacionismo-afirma que o conhecimento é produzido no quadro da interação entre sujeito e objeto. Nesta perspectiva, os produtos da ciência seriam os resultados das inter-relações que mantemos com a realidade, a partir de nossas práticas sociais. Sendo a ciência uma prática social, seus produtos não estariam destituídos de pressupostos dados sobretudo pela cultura ou ideologia predominante num determinado período histórico. As verdades da ciência seriam, pois, fundamentalmente históricas e, portanto, nunca neutras. Cabe frisar aqui que, na posição interacionista, quando se fala na impossibilidade de um conhecimento independentedo sujeito, não se está pressupondo ou afirmando a inexistência de uma realidade a ser conhecida. O que se coloca em questão é o pressuposto de que seu acesso possa (e deva) ser feito independentementedas condições biológicas, culturais, sociais e até econômicas que constituem seu produtor, isto é, o cientista. Assim, a idéia de neutralidadecientíic,fa por exemplo, não se enquadra na perspectiva interacionista, uma vez que pressupõe um cientista purificado das condições que determinam a sua própria existência como homem e pesquisador.

UUUUM ROTEIRO DE VIAGEMM ROTEIRO DE VIAGEMM ROTEIRO DE VIAGEMM ROTEIRO DE VIAGEM

A breve história do surgimento da ciência moderna (...) vai centrar a discussão das diversas propostas ou tendências de fundamentação desse tipo de conhecimento em dois aspectos. O primeiro refere-se justamente à discussão do papel do sujeito na produção do conhecimento. O segundo diz respeito à forma como a natureza e/ou a sociedade é pressuposta pelas diversas tendências.

Basicamente a discussão, mais do que nunca atual, refere-se à possibilidade de os fenômenos serem tomados como coisas que se repetem sempre da mesma maneira, o que revelaria uma uniformidade ou uma unidade na natureza ou nos eventos sociais, ou se são considerados como processos, isto é, eventos que são históricos e, como tal, múltiplos, variados, sendo o vir-a-ser seu modo de existir.

Certamente a análise que faremos não é destituída de pressupostos. Acreditamos no caráter histórico da ciência. E foi por este motivo que decidimos percorrer as principais tendências metodológicas (no sentido de método, tal como foi explicitado anteriormente), apontando algumas possibilidades e impasses que fazem, ainda hoje, parte do conhecimento científico.

O percurso que será realizado com este objetivo começa no início da modernidade (séc. XVII), passa pelo Iluminismo (séc. XVIII) e pelo século do nascimento das ciências humanas (séc. XIX) para, então, chegar ao século X. É bom lembrar que, neste percurso, procuramos apenas iniciar o aluno ou interessado na discussão dos diferentes fundamentos da ciência. Para um aprofundamento elas questões aqui levantadas, (...) [sugerimos leituras posteriores].

De todo modo, acreditamos que entender e discutir as diferentes bases da ciência hoje, no momento em que ela parece tão valorizada e até mesmo mistificada pela opinião pública em geral, é condição para compreender suas reais possibilidades e limites. Como, de forma trágica, já nos mostrou Goya, o sono da razão produz monstros. Assim, fazer ciência sem saber ou pensar no que isto significa ou implica pode seguramente ser monstruoso. Bom divertimento.

No século XVII o ocidente freev.O mundo não tem mais centro,nem no plano celestial (Galileu proclama, pela boca de Brecht: aboliu-seocéu!) nem no religioso.

O modo de produção característico do feudalismo vai sucumbindo, e, de formas distintas em cada região da Europa, vai emergindo o modo de produção capitalista. As relações de servidão vão sendo substituídas pela valorização ontológica e jurídica do trabalhador livre. Momentos de crise se instauram, portanto, em todas as esferas: na religiosa (com o surgimento de infinitas seitas, do misticismo, da magia); na política e social (com a já mencionada destruição do feudalismo); na da consciência (com a destruição da síntese aristotélica-tomista e a conseqüente perda do centrotranscendente de referência para a existência) e na teórica (com o surgimento do ceticismo,isto é, com a declaração, feita, por exemplo, por Montaigne, da impossibilidade do conhecimento, dada a verificação do erro, da não-verdade).

Mas essa crisetambém gerou o seu contrário: das cinzas, diz o ditado, se renasce.

O Renascimento, antes do século XVII, já propunha a valorização da capacidade humana de conhecer e transformar a realidade. O homem se coloca como capaz de, por si só, descobrir o modo de funcionamento da natureza, assim como já vinha descobrindo outrospovos,outroscontinentes, outrasterras etagiasrners(dado o referencial europeu de análise). Submeter-se à natureza aparece como o primeiro passo do projeto moderno de produção de conhecimento.

O segundo passo, relacionado visceralmente ao primeiro, refere-se ao domínio e controle da natureza em benefício do próprio homem. O homem se coloca como donodo mundo.Acrise, nas suas diversas colorações, recoloca a busca da verdade no plano da procura de uma maneira mais segura de se obter conhecimento, e, como vimos, é de ordem existencial, uma vez que a procura da ordem correta das idéias, do como se produzir conhecimento, que marca o surgimento da ciência moderna, é feita para apaziguar o medo do novo, da desordem, do desconhecido. É bom lembrar que essa busca não se deu sem conflitos: como vimos, Montaigne, entre outros, não proclamava um otimismo epistemológico, isto é, não julgava ser possível um conhecimento puro, destituído das vicissitudes ou caprichos humanos. De todo modo, a busca do fnaeteuoudmno sgr, dado pela capacidade humana de conhecer-se a si mesma, de forma autônoma, vai ser hegemônica na modernidade.

A constituição da ciência moderna, que ocorre no âmbito da aventura das descobertas marítimas, reflete e atiça a curiosidade pelos fatos. Navegar é preciso. Lançar-se no desconhecido significa apostar na busca do novo. Mas também requer um exercício de autodomínio: construir caravelas, usar o telescópio, verificar a posição dos astros para não se perder demasiadamente;enfrentar o mar, controlando-o para não ser por ele devorado. Enfim, deve-se usar a razão. É preciso navegar, mas com método, com ordem e medida, sabendo quais passos dar para atingir um determinado fim. Não se deve se deixar levar por nenhuma influência de cunho pessoal, passional ou cultural.

Eis, de forma um tanto tosca, o problema central da ciência moderna: a questão do método. Sem ordem não há conhecimento possível. O problema dos modernos vai ser o de do ponto de vista filosófico, ou mais especificamente epistemológico, fornecer as bases seguras do conhecimento, desprovendo-o de erros, erros estes advindos da falta de método, da ordem e medida necessários ao correto proceder da razão.

A luta é, pois,contra o erro, além, é claro, de ser, pelo menos no início, também contra o dogmatismo (medieval). Verdades produzidas pelo homem se contrapõem às verdades reveladas às figuras de autoridade. Errar é humano, diz o ditado, mas a ciência moderna nasce dessa obsessão contra o erro, contra a parcialidade humana, contra a influência dos interesses particulares (pessoais, culturais, grupais etc.) na construção do conhecimento, contra os afetos e suas vicissitudes, contra a imaginação que destrói a diferença entre o real e o onírico, contra a linguagem que carrega de preconceitos o real, e, portanto, não é capaz de descrever a realidade tal como ela é.

Mais: de uma maneira geral, para os primeiros modernos (Descartes, por exemplo) chegar à verdade significa captar uma ordem eterna e imutável que subjaz aos fenômenos. Tal ordem implica a existência de relações necessárias entre determinados eventos da natureza. Assim, por exemplo, supõe-se a existência de um liame essencial entre a ação do fogo e a retirada imediata da mão que o toca. Pode-se, então, considerar que o fogo estánecessariamenterelacionado, como causa, ao ato de retirar a mão, que surge como efeito.

A busca dos fundamentos seguros do conhecimento está, pois, sobretudo com os primeiros modernos, comprometida com a suposição de que existe uma unidade ou permanência na natureza. Desta forma, ao apresentar as bases seguras da produção de conhecimento, os primeiros modernos estão também apresentando uma concepção de verdade: a comprometida com a valorização da repetição dos fenômenos. Tal consideração é importante, sobretudo se for lembrado que um dos principais objetivos da ciência moderna é justamente o da previsão da ocorrência futura dos fenômenos, previsão esta subjacente à elaboração das leis científicas. No entanto, como veremos, nem sempre a idéia de repetição dos fenômenos vai ser considerada da mesma forma pelos modernos. Hume, por exemplo, busca fundamentar a ciência sem se comprometer com ela. De todo modo, considerando a necessidade de uma purificação do sujeito produtor de conhecimento para que se possa alcançar a verdade, a questão que fica é: será possível um conhecimento tão destituído de humanidade, ainda que feito em nome do homem e de sua transformação? Esta será uma questão que vai percorrer nossa análise do processo de constituição do conhecimento científico.

O racionalismo de DescartesO racionalismo de DescartesO racionalismo de DescartesO racionalismo de Descartes

De uma maneira geral, no século XVII duas respostas à questão dos fundamentos do conhecimento científico são elaboradas: o racionalismo(de R. Descartes e de G.W . Leibniz, entre outros) e o eprimmiso(relacionado, por exemplo, aos nomes de F. Bacon, J. Locke e T. Hobbes). O racionalismo do "pai" da filosofia moderna, isto é, de Descartes, busca fundamentar, de forma dedutiva, a existência do cgooit,isto é, da razão humana. Descartes parte do princípio de que ter conhecimento é ter idéias e de que as idéias são diferentes das coisas tomadas em si mesmas. Em outras palavras, a palavra bola não é ersnauma bola, mas a rpeet.Assim, a questão que se coloca é: como posso ter certeza de que a bola, como representação, se refere, de fato, às propriedades reais da coisa-bola? igae(Lembrem-se de que a lnugm carrega preconceitos e, portanto, posso estar me iludindo quando imagino que as palavras representam fielmente as coisas.)

Vamos considerar mais de perto este singelo exemplo da bola: existem idéias,que

Descartes inclui na classe da sbtniesne ou do pensamento, pura eusâca pnat xesosimplesmente, no caso a idéia de bola; existem as coisas em si mesmas ou a etnã (matéria) como a coisa-bola ou nossos próprios corpos. A questão é: como conhecer as coisas semerro?Descartes faz o seguinte raciocínio: devo duvidar de tudo, posto que a linguagem, a imaginação, meus órgãos dos sentidos e assim por diante me iludem.Mas, ao recorrer à dúvida como método (duvido de tudo sistematicamente), chego, de forma dedutiva, a uma certeza:não posso duvidar do fato de que estou pensando. es,lgxsoAssim, pnoooeit, ou seja, minha certeza de existência decorre do fato de que euestou pensando. Esta é uma idéia clara e distinta, dirá Descartes, uma vez que dela não posso duvidar. Todas as idéias claras e distintas que descrevem as propriedades definidoras de um objeto (como a nossa bola) são tomadas como verdadeiras e correspondem às coisas em si mesmas. Fecha-se, assim, o circuito da dúvida metódica: existe uma correspondência entre a matéria e a idéia.

Mas o que ou quem garante a capacidade de pensar clara e distintamente (como na matemática, saber abstrato e modelo da proposta cartesiana e da ciência moderna)? Aqui, Descartes, também de forma dedutiva, elabora a noção de sbtninintusâcaifiaoudivina.A idéia de Deus é a medida da garantia do conhecimento. Senão vejamos, ainda que de forma muito rápida: a alma finita pensa (substância pensante) e tem a idéia de Deus ã(infinito) da qual nopode ser causa; sendo Deus uma idéia colocada em nós por Ele mesmo, é verdadeira, uma vez que o intelecto divino age sobre o nosso por meio de idéias verdadeiras; se Deus é perfeito nos torna capazes de idéias claras e distintas, o que significa que Ele se nos revela assim como nosso corpo e todas as coisas que constituem o mundo extenso. Pronto: Deus nos capacita a ter idéias corretas, que são, inclusive, inatas, desprovidas de erros, desde que metodicamente produzidas, isto é, elaboradas segundo critérios claros (como, por exemplo, ao classificarmos uma bola numa classe segundo certas propriedades definidoras) e distintos.

Assim, o conhecimento é obra da razão, é ela que garante a correção das descobertas e a relação real entre idéias e extensão. E é, sobretudo, de natureza matemática, saber, por definição, puramente dedutivo. Nessa perspectiva, o sujeito produtor de conhecimento se apresenta como um eu que valoriza a si mesmo, por dedução (todo o raciocínio feito para garantir a correspondência entre idéia e realidade mostra tal operação do intelecto humano). Nesse processo, esse euse requer purificado das influências históricas, pessoais, culturais, enfim, humanas, de forma a alcançar a verdade imutável das coisas. Pode-se afirmar, então, que a elaboração de tal sujeito purificado implica uma valorização da permanência ou de uma ordem inerente ao modo de funcionamento da natureza. Assim, o processo da dúvida metódica, em Descartes, resultou numa garantia para a produção de verdades no campo da ciência. Esta garantia é de natureza mtfsia(do grego metatapyik,que significa além da física), uma vezeaíchsa que a certeza do conhecimento verdadeiro passa pelo pressuposto da ação divina no intelecto humano.

Cabe lembrar aqui que a concepção cartesiana de produção do conhecimento pressupõe, desde o princípio, uma clara divisão entre corpo (substância extensa) e mente (substância pensante), divisão esta que vai marcar o modo de ser e pensar do homem ocidental.

O empirismoO empirismoO empirismoO empirismo

Já o empirismo, formulado inicialmente por Bacon, parte de outro pressuposto para garantir a produção correta do conhecimento. “Conhecer" é tomado também como "ter idéias", mas a via privilegiada da sua produção não é a razão: trata-se da eprêcaxeini sensorial,isto é, a que se tem com os órgãos dos sentidos. É pela idçonuã,isto é, pela observação dos muitos eventos se repetindo da mesma maneira, que se pode, finalmente, elaborar leis que descrevem o funcionamento da natureza. Assim, os resultados da experimentação, típico procedimento de investigação da ciência moderna, ganham um euãfundamento diferente da ddçoproposta por Descartes.

No entanto, como foi dito, o empirismo também considera que conhecer é ter idéias, estabelecendo, assim, uma diferença entre a realidade e a sua representação (idéia). De esçouma maneira geral, Locke, por exemplo, considera que existem idéiasdesnaã,quando percebemos as qualidades sensíveis de um objeto -por exemplo, na nossa bola, sua cor ou peso -e idéiasderfxoeleã, que se referem às operações da mente -por exemplo, relacionar duas bolas, duvidar da quantidade percebida etc. De todo modo, o fundamento primeiro do conhecimento é a experiência sensível e não a razão tomada em si mesma.

À afirmação deste fundamento, no entanto, subjaz uma conseqüência que diferencia, de uma maneira radical, empiristas e racionalistas. Na medida em que, para os primeiros, a base do conhecimento está na experiência sensível, e esta, por definição, sempre ocorre num determinado tempo e espaço, ou seja, é sempre cnigneotnet,como será possível afirmara universalidadedas leis que explicam os fenômenos? Em outras palavras, como se utrpode saber se, no fuo(a ciência moderna, como foi visto, trabalha com previsão), o fogo fará novamente com que o braço -que o tocou no passado -vai novamente se retrair?

De uma maneira geral, vimos que Descartes recorre à mediação divina para sustentar a correção do conhecimento produzido, chegando a postular a existência de idéias inatas. Os empiristas, porém, a partir mesmo de sua valorização da experiência sensível como fonte principal do conhecimento, vão colocando cada vez mais nas condições psicológicas do sujeito produtor de conhecimento a possibilidade de elaboração de leis gerais. Desse modo, um aspecto impuro -as facetas pessoais, culturais ou mesmo biológicas do indivíduo -subjaz ao processo de produção de conhecimento. Assim, como alcançar a verdade das coisas tais como elas são se o processo para conhecê-las depende de condições muito subjetivas, por exemplo? Por isso, vai sendo colocada em questão a possibilidade de o homem alcançar verdades últimas ou essências que constituiriam, para os racionalistas iniciais, o objetivo maior da ciência.

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