OS LUGARES TURÍSTICOS: TERRITÓRIOS DO FENÔMENO TURÍSTICO

OS LUGARES TURÍSTICOS: TERRITÓRIOS DO FENÔMENO TURÍSTICO

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Fenômeno típico da sociedade capitalista pós-revolução industrial, o turismo apresenta imbricações espaciais e territoriais diversificadas e passíveis de análises várias, conforme a escala de observação proposta. Fruto de atividades e práticas sociais diretamente relacionadas ao movimento e ao deslocamento espacial (NICOLÀS, 1996; MOESCH, 1998) de pessoas e de informações, na sua essência esse fenômeno produz e consome espaços (RODRIGUES, 1997, 1996; NICOLÀS, 1996; LUCHIARI, 1998) e, por conseqüência, territorialidades e territórios.

O turismo manifesta-se através de diversas formas, modalidades e escalas dentro de um mesmo território. Está subordinado tanto às ações da iniciativa privada quanto do Estado e até mesmo das pequenas comunidades organizadas; todo esse movimento ocorrendo de forma sincrônica num mesmo estado, região ou país. Sua velocidade de reprodução está acima da maioria das atividades humanas, não respeitando fronteiras ou limites territoriais, alimentando-se, quase sem escrúpulos, dos mais variados setores do conhecimento humano, especialmente daqueles ligados aos avanços tecnológicos e informacionais.

Rodrigues (1997, 1996), propõe uma sistematização das dimensões espacial e territorial do turismo a partir de três elementos organizadores: os pólos compostos pelas áreas emissoras de turistas, os pólos definidos pelas áreas receptoras e as linhas de ligação desses pólos, por onde circulam os turistas e as informações É nas áreas receptoras que podemos identificar o território do turismo ou olugar turísticopor excelência.

* Professor do Curso de Turismo do Centro Universitário Plínio Leite, Niterói (RJ), aluno do Mestrado em Geografia da UFF.

É no lugar turísticoque o fenômeno se materializa e sobrepõe suas formas fixas: atrativos turísticos, equipamentos e serviços turísticos (meios de hospedagem, serviços de alimentação, agentes receptivos, guias de turismo, locais e instalações para entretenimentos, etc.) e infra-estrutura de apoio (serviços de comunicações, transportes, segurança, etc.). É o locus da produção e do consumo do produto turístico1, que, pelas peculiaridades dessa atividade, em alguns momentos ocorrem simultaneamente.

O lugar turístico reúne o espaço e o território. Enquanto prática socio-espacial, o turismo vai se apropriando de determinados espaços, transformando-os e, a partir disso, produzindo territórios e territorialidades flexíveis e descontínuas (SOUZA, 1995), e “turistificando” os lugares (NICOLÀS,1996; KNAFOU,1996). No dizer de Nicolàs:

(...) el turismo crea, transforma (sic), e inclusive (sic) valoriza diferencialmente espacios que podian (sic) no tener ‘valor’ en el contexto de la lógica de producción: de repente la tierra de pastizal se puede transformar en parque de acampar, o la casa semi-derruida del abuelo fallecido en casa de hospedes (NICOLAS,1996:49).

Knafou (1996), em suas análises sobre as relações entre turismo e território, também nos lembra que os turistas estão na origem do fenômeno, e que são eles que definem, escolhem os lugares turísticos. Sua proposta é que não devemos perder de vista que o sujeito do fenômeno, responsável pela sua existência, é o homem, na forma do turista. Pessoalmente, entendemos ser necessário ampliarmos esse conceito, incluindo, também como sujeito do fenômeno, a população das áreas receptoras.

Aquele autor nos sugere a possibilidade de três tipos de relações entre turismo e território: a) pode existir território sem turismo; b) pode existir um turismo sem território; c) podem, enfim, existir territórios turísticos, esses últimos entendidos como “territórios inventados e produzidos pelos turistas, mais ou menos retomados pelos operadores turísticos e pelos planejadores” (KNAFOU,1996: 72-3). Nesses últimos é que presenciamos conflitos de territorialidades entre os turistas – nômades – e os anfitriões – sedentários:

(...) há diferentes tipos de territorialidades que se confrontam nos lugares turísticos: a territorialidade sedentária dos que aí vivem freqüentemente, e a territorialidade nômade dos que só passam, mas que não têm menos necessidade de se apropriar, mesmo fugidiamente, dos territórios que freqüentam (p.64).

Para Falcão, “o turismo, qualificado como uma nova modalidade de consumo de massa, desenvolve-se no âmbito da emergente economia das trocas invisíveis em

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1Aqui produto turístico é entendido como a soma dos atrativos turísticos, dos equipamentos e serviços turísticos e da infra-estrutura de apoio e de todas as suas interações e interrelações, conforme proposto por Boullón (1990) e Beni (1998).

escala nacional e internacional. Esta modalidade se expande com a produção de bens (infra-estrutura, construções, alimentos e produtos diversos) e serviços (transportes, hospedagem, alimentação, etc.), que se integram para o consumo final. Esse conjunto de bens e serviços oferece ao mercado de consumo as ‘condições de acessibilidade’ a determinado lugar. O espaço, na dimensão do lugar, assume caráter de objeto de consumo e, como tal, é (re)produzido e comercializado” (FALCÃO, 1996:65). No nosso ponto de vista, é o território acrescido de um certo valor (simbólico) e de infra-estruturas territorializadas (meios de hospedagem, parques temáticos, aeroportos, etc.), que se transforma em produto e como tal, é vendido e consumido.

Por outro lado, entendemos o turismo como um fenômeno complexo, composto por um elenco relativamente grande de componentes que se relacionam e interrelacionam constante e simultaneamente, dentro de uma lógica que inclui muitas incertezas e casualidades.

Enquanto fenômeno sociocultural característico das sociedades pós-revolução industrial, o turismo tem fortes imbricações espaciais, que se manifestam de diversas maneiras e em diversos pontos do espaço, formando uma rede mundial composta de pontos de emissão, pontos de recepção e raios de fluxos materiais e invisíveis. Nessa rede, os pontos de recepção são classificados pelos mais diferentes nomes: centros turísticos, locais turísticos, regiões turísticas, áreas receptoras, etc.

Propomos sintetizá-los todos na categoria de lugar turístico, por entendermos que é na escala local que o fenômeno turístico se manifesta territorialmente, estabelecendo-se com toda a materialidade das suas relações e interações. Entender a sua organização e o seu ordenamento territorial passa obrigatoriamente pela compreensão do lugar turístico.

Mas o que entendemos por lugar e por lugar turístico? A categoria do Lugar na geografia

A categoria do lugar, assim comooutras categorias utilizadas freqüentemente pela geografia, apresenta diversas interpretações (SANTOS,1996), o que gera dificuldades no seu uso. Muitas vezes vemos o lugar ganhando o sentido de local, noutras de localidade. Dentre os diversos estudos da geografia humana, Yi-Fu Tuan é um dos autores que busca a compreensão da territorialidade humana e sua ligação com o lugar de maneira mais ampla. Para ele o geógrafo humano deve cuidar da tarefa de explicar como um “mero espaço se torna um lugar intensamente humano” (TUAN, 1985:149). Para tal empreitada, deve lançar mão de fatores como a “natureza da experiência, a qualidade da ligação emocional aos objetos físicos, as funções dos conceitos e símbolos na criação da identidade do lugar” (p.150).

Tuan entende que cada pausa ou parada nos movimentos humanos termina definindo uma localização, um lugar. Para ele, esses lugares podem ter grandes variações de tamanho, indo desde o pequeno lugar que pode ser conhecido pela experiência direta,

Os lugares turísticos: territórios do fenômeno turístico até o estado-nação, que “pode ser transformada em lugar – uma localização de lealdade apaixonada – através do meio simbólico da arte, da educação e da política” (p.149).

Anthony Giddens no seu trabalho As Conseqüências da Modernidade, nos fala do deslocamento do espaço do lugar provocado pela modernidade. Reportando-se a textos seus anteriores, o autor reafirma seu conceito de lugar enquanto “cenário físico da atividade social” (GIDDENS, 1991:26-7), mas vai além disso, acrescentando a separação do espaço do tempo, fator que irá estimular o surgimento de relações “entre outros ausentes, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face” (p.27), tornando o lugar cada vez mais fantasmagórico. As relações sociais são retiradas dos contextos locais e reordenadas a partir de grandes distâncias tempo-espaciais, através do que Giddens chama de “mecanismos de desencaixe” (p.29 e 59).

Soja (1993), analisando as propostas de Giddens em The Constituition of Society (1984), observa que aquele autor utiliza, algumas vezes, o termo localpara falar do lugar. Para ele, o local é visto como “uma região limitada que concentra a ação e reúne, na vida social, tanto o singular e particular quanto o geral e nomotético” (SOJA, 1993:181). É no local que ocorrem as interações sociais entre os atores; interações essas que vão especificar as suas contextualidades .

Para Soja, entretanto, Giddens não reconhece que o fato do local concentrar as interações sociais, gera um contexto mais abrangente, o qual ele descreve como “a nodalidade da vida social, o acúmulo ou aglomeração de atividades em torno de centros ou nós geográficos identificáveis” (p.182), e que permite pressupor a ocorrência de relações sociais e de poder entre centros e periferias.

Avançando nos seus comentários, Soja apresenta uma definição para localidades, como sendo “tipos particulares de locais permanentes, social e espacialmente estabilizados através do estabelecimento aglomerado de sítios de atividades primária (sic) e do estabelecimento de comunidades territoriais afins. Como todos os locais, elas são estruturações espaço-temporais provenientes da combinação da ação humana e do impacto condicionador das condições espaço-temporais preexistentes” (SOJA, 1993:185).

No seu trabalho mais recente – A Sociedade em Rede– Manuel Castells argumenta que mesmo diante de uma tendência para uma hegemonia dos espaços de fluxos, o lugarcontinua sendo uma categoria importante para a compreensão espacial das sociedades atuais, já que “a grande maioria das pessoas [...] vive em lugares e, portanto, percebe seu espaço com base no lugar” (CASTELLS, 1999:447). O autor concebe o lugar como sendo “um local cuja forma, função e significado são independentes dentro das fronteiras da contiguidade física” (p.447), cujas características marcam a vida dos seus habitantes e, podem ou não, contribuir para a formação de uma comunidade.

Merece ressaltar a posição de Castells quanto ao lugar não ser obrigatoriamente uma comunidade. Os habitantes do lugar podem, de acordo com o autor, não se amarem ou se relacionarem, mas têm suas vidas marcadas pelas características do lugar. Para ele o lugar não necessariamente exprime e revela interações sociais e riqueza

GEOgraphia– Ano. I – N4 – 2000Fratucci espacial. “É exatamente porque suas qualidades físicas/simbólicas os tornam diferentes que eles são lugares” (p.449).

Ainda na sua análise dialética entre os espaços de fluxos e os espaços de lugares,

Castells prevê uma tendência para a hegemonia dos “espaços de fluxos aistóricos em rede” que objetivam impor aos lugares a sua lógica, tornando-os segmentados e espalhados e “menos capazes de compartilhar códigos culturais” (p.452). Para o autor, o poder na sociedade atual está situado nos espaços de fluxos, o que altera fundamentalmente a dinâmica dos lugares, tornando a experiência vivida pela pessoas destacada do poder e o significado separado do conhecimento, gerando “uma esquizofrenia estrutural entre duas lógicas espaciais” (p.451) – dos fluxos e dos lugares – que pode vir a romper os canais de comunicação dessa mesma sociedade.

Carlos, visualiza um processo de redefinição do lugar enquanto dimensão práticosensível dentro do momento histórico atual de globalização. Para a autora, a globalização “materializa-se concretamente no lugar[...] no lugar se vive, se realiza o cotidiano, e é aí que ganha expressão o mundial” (CARLOS, 1996a:15). O global e o local coexistem e o primeiro redefine o segundo sem anular suas particularidades. O lugar teria em si a possibilidade de permitir o entendimento do processo atual de produção, consumo e apropriação do espaço, através “da perspectiva de se pensar seu processo de mundialização” (p.15).

Concordando com Milton Santos, quando este autor coloca que o lugar pode ser definido a partir das densidades técnica, informacional, comunicativa e normativa, a autora propõe acrescentar-se “a dimensão do tempo em cada lugar que poderia ser visto através do evento no presente e no passado” (p.20).

Por sua vez, Milton Santos conclui seu trabalho A Natureza do Espaçoafirmando o lugar como o espaço irredutível, banal, por reunir logicamente o homem, as empresas, as instituições, as formas sociais e jurídicas e as formas geográficas, que unidos formam o cotidiano imediato. Para o autor, enquanto o global “desterritorializa”, o local “reterritorializa” , por ser composto por um conjunto de objetos contíguos e interagentes. (SANTOS,1996)

Para aquele autor, nosso momento histórico atual traz a categoria do lugar para o centro das discussões. Entretanto, ela precisa ser revista e atualizada para, a partir de novos significados, dar conta da complexidade do mundo globalizado atual. Segundo ele, uma das possibilidades é entender o lugar a partir do cotidiano, visto este como uma categoria da existência passível de um tratamento geográfico, que permita apreender o lugar enquanto expressão do local e do global.

O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas, mas é também o teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade (SANTOS, 1996:258).

No lugar, temos superpostos os tempos das escalas superiores e os tempos internos, da coexistência, onde tudo se funde. Nele, os objetos, as ações, a técnica e o tempo se concretizam. É no lugar que as técnicas ganham realidade histórica, e onde cada obje-

Os lugares turísticos: territórios do fenômeno turístico to e ação têm o seu valor real estabelecido pela sua posição dentro do funcionamento do conjunto.

No interior das redes globais, o lugar se mostra como um dos níveis de análise que permitem apreender os seus movimentos contraditórios. É nele que “fragmentos da rede ganham uma dimensão única e socialmente concreta, graças à ocorrência, na contiguidade, de fenômenos sociais agregados, baseados num acontecer solidário, que é fruto da diversidade e num acontecer repetitivo, que não exclui a surpresa” (p.215).

Os lugares podem, segundo Santos, ser definidos a partir de suas densidades técnica, informacional e comunicacional, as quais, num jogo de circularidade construtiva os caracterizam e os tornam especializados dentro de um contexto global. Numa luta constante cada lugar busca sua competitividade na diversidade e nas suas individualidades, realçando “suas virtudes por meio de seus símbolos herdados ou recentemente elaborados, de modo a utilizar a imagem do lugar como imã” (p.214).

O autor aponta ainda o lugar como locus de uma possível resistência à atual globalização e ao processo de verticalização dos lugares. Isso será possível, segundo ele, através do fortalecimento das horizontalidades entre os lugares e da reconstrução de “uma base de vida que amplie a coesão da sociedade civil, a serviço do interesse coletivo” (p.228). O autor propõe o desenvolvimento de uma solidariedade ativa, geradora de ações políticas locais que se anteponham às tendências meramente verticalizantes (p. 228-9).

Diante dessa possibilidade de entendermos melhor o processo atual de mundialização a partir do lugar, e reconhecendo no turismo um dos principais vetores desse processo, como podemos analisar o lugar turístico?

O Lugar Turístico e o ordenamento territorial do fenômeno turístico

Como dito anteriormente, podemos ver o turismo a partir de três formas distintas de incidência territorial: as áreas emissoras, as áreas receptoras e os corredores de deslocamentos. Segundo Rodrigues, é nessas três formas “que se produz o espaço turístico” (RODRIGUES, 1997:43).

Entendendo que esses três elementos estão descontínuos mas interligados no espaço, podemos aí estabelecer um território-rede (SOUZA, 1995) do turismo, onde as áreas emissoras e as áreas receptoras se apresentam como nós e os corredores de deslocamentos são os raiosque os interligam permanente (rodovias, ferrovias) ou temporariamente (rotas aéreas, redes de comunicação). Os deslocamentos dos turistas estabelecem um sistema de interações entre lugares, firmas, instituições e indivíduos, o qual pode ser representado pelo que Raffestin (1980) classifica como um “sistema de malhas, nós e redes”, ou pelo que Souza (1995) propõe como território descontínuo ou território-rede.

Sob a ótica do seu processo e da sua organização, o turismo estabelece uma rede de lugares (nós), localizados em pontos diferentes do espaço, mas que, por suas caracte-

GEOgraphia– Ano. I – N4 – 2000Fratucci rísticas funcionais, mantêm entre si uma certa ligação de comando. Ou seja, existe uma supra-estrutura (organização) que mantém um nível de gerenciamento (por extensão, de poder) sobre esses lugares, interligando-os através de objetivos comuns. O lugar (nó) emissor precisa do lugar (nó) receptor para satisfazer as demandas dos turistas e, para informá-los e transportá-los, estabelece linhas que unem esses lugares (nós), formando uma rede complexa.

Queremos aqui nos deter nos nóscompostos pelas áreas receptoras, onde o fenômeno turístico se manifesta na íntegra e ganha, no dizer de Santos (1996), sua “realidade histórica”.

A nomenclatura dada a essas áreas varia de autor para autor, indo de centro turístico a núcleo, área ou local turístico. O arquiteto argentino Roberto Boullón, um dos fundadores do CICATUR – Centro de Capacitação Turística da OEA2, desenvolveu uma teoria para o estudo do espaço turístico, onde esse espaço é hierarquizado (sob o ponto de vista de escala) na seguinte ordem: zona (unidade maior), área, complexo, centro, unidade, núcleo, conjunto (unidade menor) e corredor turístico (BOULLÓN,1985).

No nosso entender, aquele autor propõe um método empírico para se observar e analisar o espaço produzido pelo turismo e, a partir de procedimentos sistemáticos, estabelecer o seu ordenamento físico. Para ele, centro turístico é todo aglomerado urbano que “conta em seu próprio território ou dentro de seu raio de influência com atrativos turísticos de tipo e hierarquia suficientes para motivar uma viagem turística” (BOULLÓN, 1985:69-70).

São poucos os trabalhos científicos desenvolvidos no sentido de buscar-se o conhecimento da lógica do ordenamento territorial das áreas receptoras de fluxos turísticos. Em sua grande maioria, são abordagens teórico-críticas que buscam destacar os aspectos negativos dos impactos da atividade turística, colocando o fenômeno como elemento destruidor das identidades dos lugares.

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