Tese Juan Carlos2009

Tese Juan Carlos2009

(Parte 1 de 4)

Fatores de risco à senilidade na transição à aposentadoria

Tese apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Ciências

Área de concentração: Patologia Orientador: Prof. Dr. Wilson Jacob Filho

São Paulo 2009

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Preparada pela Biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

©reprodução autoriza

Canizares, Juan Carlos Lara

Fatores de risco à senilidade na transição à aposentadoria / Juan Carlos Lara

Canizares. -- São Paulo, 2009.

Tese(doutorado)--Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Departamento de Patologia.

Área de concentração: Patologia. Orientador: Wilson Jacob Filho.

Descritores: 1.Aposentadoria 2.Fatores de risco 3.Senilidade prematura 4.Trabalho

USP/FM/SBD-388/09 i DEDICATÓRIA

A proximidade de terminar um empreendimento, de relevância na minha trajetória acadêmica, fez me lembrar com especial carinho das pessoas que guardo um particular aprecio pelo significado que elas têm na minha vida.

Aos meus pais, Maria Antonieta e Gil Ignácio (in memoriam),

À minha esposa Daniele e ao meu filho Miguel.

Superar as dificuldades da realização desta tese, principalmente daquelas da fase de coleta de dados, não teria sido possível sem a incondicional colaboração de colegas pesquisadores, de profissionais que ocupam cargos de liderança no Hospital das Clínicas e no Instituto Central, que facilitaram a participação da população do estudo, e dos funcionários do Instituto Central que contribuíram voluntariamente da pesquisa.

• Ao programa de pós-graduação da Faculdade de Medicina da

Universidade de São Paulo e ao Departamento de Patologia da Instituição pela oportunidade de realizar este estudo.

• Ao meu orientador, Prof. Dr. Wilson Jacob Filho, pelos momentos ímpares de aprendizado partilhado ao longo da tese.

• Ao amigo Ruberval da Silva pelos seus valiosos conselhos e incentivo ao meu crescimento profissional.

• Aos Diretores e Chefes das Divisões, Departamentos e Seções do

Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade São Paulo, especialmente às Diretorias da Divisão de Enfermagem, de Laboratório Central, de Nutrição e Dietética e Serviço Social, pela adesão à pesquisa consentindo a participação dos seus funcionários.

• Aos participantes da pesquisa que, além de fazerem parte do estudo, foram os principais coadjuvantes desta obra e fontes de aprendizado sobre as diversas nuances da aposentadoria.

Esta tese está de acordo com:

Referências: adaptado de International Committe of Medical Journals Editors (Vancouver)

Universidade de São Paulo. Faculdade de Medicina. Serviço de

Biblioteca e Documentação. Guia de apresentação de dissertações, teses e monografias. Elaborado por Anneliese Carneiro da Cunha, Maria Julia de A. L. Freddi, Maria F. Crestana, Marinalva de Souza Aragão, Suely Campos Cardoso, Valéria Vilhena. 2a ed. São Paulo: Serviço de Biblioteca e Documentação; 2005.

Abreviaturas dos títulos dos periódicos de acordo com List of Journals Indexd in index Medicus.

vii

INTRODUÇÃO1
Aspectos psicossociais da aposentadoria2
Aposentadoria como mecanismo de fisiopatologia da senilidade9
Evidências de estudos sobre o impacto da aposentadoria na saúde13
Implicações da aposentadoria18
OBJETIVOS23
Geral:23
Específicos:23
HIPÓTESE23
CASUÍSTICA E MÉTODOS24
Trabalho de campo25
Desenho dos procedimentos metodológicos25
Descrição do tipo de pesquisa27
Estratégias para a coleta de dados28
Instrumentos utilizados28
Local da pesquisa36

Lista de figuras Lista de gráficos Lista de tabelas Resumo Summary Público-alvo do estudo.............................................................................. 36

Amostra do estudo38
Registro e critérios de análise de dados39
RESULTADOS41
Descrição dos resultados4
Fatores de risco psicológicos da aposentadoria45
Correlações das variáveis do estudo49
Fatores de risco sociais da aposentadoria50
Correlação das variáveis5
Estilo de vida57
Correlação das variáveis61
DISCUSSÃO62
Dificuldades do estudo62
Fatores de risco à senilidade detectados no estudo67
Fatores psicológicos68
Fatores sociais73
Fatores associados ao estilo de vida79
CONCLUSÕES83
CONSIDERAÇÕES FINAIS8
ANEXO A92
ANEXO B93
ANEXO C94
ANEXO D95
ANEXO E96

viii REFERÊNCIAS ........................................................................................... 98

aposentadoria03
Figura 2. Desenho do procedimento metodológico da pesquisa26

Figura 1. Perspectivas psicossociais de análise da

Figura 3. Fatores de risco à senilidade na transição à aposentadoria........................................................................69

abordados em 51 pesquisas sobre aposentadoria15

Gráfico 1. Distribuição em porcentagens dos tópicos de interesse

pesquisas sobre aposentadoria16

Gráfico 2. Distribuição em porcentagens do tipo de estudo em 51

de 51 pesquisas sobre aposentadoria17

Gráfico 3. Distribuição em porcentagens do período de publicação

sobre aposentadoria18

Gráfico 4. Distribuição em porcentagens do local de 51 pesquisas

e a idade. ICHC FMUSP, 200841

Gráfico 5: Distribuição do universo de estudo segundo o gênero

autoridade no cargo. ICHC FMUSP, 200842

Gráfico 6: Distribuição da população masculina segundo o nível de

autoridade no cargo. ICHC FMUSP, 200843

Gráfico 7: Distribuição da população feminina segundo o nível de

cargo. ICHC FMUSP, 20084

Gráfico 8: Distribuição da amostra segundo o nível de autoridade no

ICHC, 200846

Gráfico 9. Atitudes da população do estudo perante a aposentadoria.

da aposentadoria. ICHC, 200847

Gráfico 10. Sentimentos da população de estudo sobre a proximidade

Gráfico 1. Opiniões da população de estudo sobre causas de estresse atribuídas à aposentadoria. ICHC, 2008. ................. 48

da aposentadoria. ICHC, 200852

Gráfico 12. Opiniões da população do estudo sobre o significado

com a aposentadoria. ICHC, 200853

Gráfico 13. Opiniões da população de estudo quanto à preocupação

e exclusão social. ICHC, 200854

Gráfico 14. Opiniões da população do estudo sobre aposentadoria

com o desligamento do trabalho. ICHC, 20085

Gráfico 15. Opiniões da população de estudo quanto às preocupações

aposentadoria. ICHC, 200858

Gráfico 16. Principais preocupações da população de estudo quanto às mudanças de hábitos de vida após a

fatores de risco à saúde. ICHC, 200859

Gráfico 17. Opiniões da população do estudo sobre aposentadoria e

Gráfico 18. Opiniões sobre o que a população do estudo pretende fazer após aposentar-se. ICHC, 2008. .................................. 60 xii

Tabela 1. Características da população do estudo. ICHC, 200838
Tabela 2. Descrição da população do estudo. ICHC, 200839
ICHC, 200849

LISTA DE TABELAS Tabela 3. Fatores de riscos psicológicos associados à estrutura emocional do indivíduo na transição à aposentadoria.

ICHC, 200850

Tabela 4: Fatores de riscos psicológicos associados à ansiedade e ao estresse presentes na transição à aposentadoria.

trabalho na transição à aposentadoria56

Tabela 5. Fatores de riscos sociais associados ao afastamento do

da aposentadoria57

Tabela 6. Fatores de riscos sociais associados às formas de isolamento e exclusão social em conseqüência

de vida e às mudanças do ritmo de vida61

Tabela 7. Fatores de riscos da aposentadoria associados ao estilo Tabela 8. Evidências de pesquisa sobre tamanho da população. ......... 65 xiii

Canizares JCL. Fatores de risco à senilidade na transição à aposentadoria [tese]. São Paulo. Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2009.

A aposentadoria, raramente estudada como um fator de risco à senilidade, passa muitas vezes despercebida na sua importância patogênica, gerando um processo de perdas que se relaciona com o envelhecimento patológico. Este estudo objetivou apontar a relação entre a aposentadoria e os fatores de risco para a senilidade em profissionais de um hospital de grande porte da cidade de São Paulo (que se encontravam na transição à aposentadoria), correlacionar os fatores de riscos detectados com as variáveis: gênero, idade, escolaridade, nível de autoridade no cargo e apontar a possibilidade de intervenções que possam minimizá-los. Trata-se de um estudo descrito como uma pesquisa transversal, aplicada, de abordagem qualitativa e quantitativa, que visa à descrição e à análise da correlação das variáveis apontadas com fatores psicológicos e sociais da aposentadoria. Os resultados do estudo mostraram que há correlação entre perspectivas da aposentadoria e fatores de risco identificados (diminuição da renda e benefícios associados ao trabalho, sentimento de vazio, estresse e ansiedade), sendo a possibilidade de diminuição da renda a principal causa de preocupação. A aposentadoria é um evento da vida que pode produzir instabilidade emocional com consequências nocivas ao futuro; quanto menor for a idade do indivíduo que se aposenta, maior o impacto; sujeitos com maior escolaridade têm melhor adaptação à mudança de condição social de vida; o maior nível de autoridade no exercício profissional é favorável para se lidar com as dificuldades na transição à aposentadoria e as pessoas mais próximas da aposentadoria apresentam maior resistência em falar sobre as implicações desse evento.

Descritores: Aposentadoria. Fatores de risco. Senilidade prematura. Trabalho.

xiv

Canizares JCL. Seniliy risk factors upon retirement transition [thesis]. São Paulo. Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2009.

Retirement, which is seldom studied as a senility risk factor, is sometimes overlooked as regards its pathogenic significance, thus generating a pathological aging-related losing process. This study had as purpose to show the relationship between retirement and the senility risk factors in professionals of a large-sized hospital in the city of São Paulo (in transition to retirement), correlate the identified risk factors with the gender, age, education and position authority level variables, in addition to showing any possible interventions to minimize them. This is a study that was described as a cross-applied research having a qualitative and quantitative approach, with a view to describe and review the correlation of the above variables with the retirement social and psychological factors. The study results showed that there is a correlation between the retirement perspectives and the identified risk factors (income reduction and work-related benefits, empty feeling, stress and anxiety), with a possible income reduction being the main cause of uneasiness. Retirement is a life event that may cause emotional instability, with bad consequences for the future; the younger the retiring individual, the greater the impact. People with higher education level show a better adjustment to changes in their social life status. A greater authority level at work is a favorable condition to handle the retirement transition-related difficulties, and those who are close to being retired have greater resistance to address the implications of such event.

Descriptors: Retirement. Risck factors. Aging premature. Work.

1 INTRODUÇÃO

Estudos sobre avanços do sistema previdenciário e conquistas da classe trabalhista, especificamente sobre seguridade e proteção social do trabalhador que se aposenta, ocupam uma posição de destaque em pesquisas abordando aspectos positivos e negativos da concessão desse benefício previdenciário. No entanto, com o aumento da expectativa de vida da população1-2 e com o incremento de pesquisas na área da Gerontologia, o estudo da aposentadoria vem tomando interesse para pesquisadores em compreender a relação entre o processo gradativo de perdas do afastamento do trabalho e o comprometimento funcional de quem envelhece.

Estudos sobre representações sociais da aposentadoria3-4 têm demonstrado a diversidade de significados que esse evento tem na vida do sujeito, evidenciando que, no processo de afastamento do trabalho ou de transição à aposentadoria, para uns pressupõe-se inatividade enquanto que para outros trata-se de uma passagem a uma condição de vida socialmente ativa.

Este estudo pretende contribuir ao entendimento da relação entre aposentadoria e comprometimento funcional, analisando a gama de variações de ordem física, psíquica e social da aposentadoria que impactam efetivamente na fisiopatologia das doenças e na condição funcional do indivíduo. Para essa finalidade, neste capítulo descrevem-se os objetivos e hipótese do estudo, previamente abordando tópicos relacionados com aspectos psicossociais da aposentadoria, com mecanismos fisiopatológicos da senilidade associados a esse evento, com as evidências de pesquisa da relação aposentadoria e comprometimento funcional e com a importância deste estudo na preparação para a aposentadoria.

Aspectos psicossociais da aposentadoria

O estudo sobre a aposentadoria frequentemente é associado a temas relacionados à legislação trabalhista, no entanto, essa tendência tem deixado de ter uma única dimensão de análise para incorporar outras abordagens que auxiliam o melhor entendimento de um evento considerado como um elo na mudança da condição social de vida5. Essas abordagens correspondem aos aspectos psicológicos e sociais da aposentadoria, as mesmas que agrupam as perspectivas de análise comportamental, constitucional e organizacional, utilizadas em estudos sobre transição à aposentadoria (ver figura 1).

No aspecto psicológico da aposentadoria, ela representa um período de instabilidade provocado pela ruptura com o trabalho e pela mudança do ritmo de vida. Para uma parte da sociedade a aposentadoria significa liberdade e ganho de tempo livre para se ocupar em atividades que geram prazer4-6, enquanto que para outra é associada a um processo de perdas que comprometem o bem-estar das pessoas3-7-8. Contudo, trata-se de uma passagem de uma fase em que o trabalho é o regulador para uma em que a administração do tempo livre passa a ser a referência na organização da vida do indivíduo.

Figura 1. Perspectivas psicossociais de análise da aposentadoria

As mudanças nas diversas etapas da vida ou eventos naturais que acontecem ao longo da vida do sujeito representam o fim de um ciclo e constituem-se no marco de referência para o começo de outro. Caracterizados como rituais de passagem, esses eventos requerem um período de adaptação que varia de um indivíduo para outro dependendo da aptidão para os desafios de uma nova etapa. A aposentadoria é um desses eventos naturais, ela representa o fim de um período profissionalmente produtivo e o começo de uma condição social em que o indivíduo passa a ter outras atividades fora do mundo do trabalho9.

Com a proximidade da aposentadoria surgem sentimentos de incerteza e expectativa quanto à mudança. Cada sujeito adota mecanismos de adaptação ou de enfrentamento às adversidades de diferentes formas; aqueles com visão pessimista têm pouco interesse no investimento de si próprio e na preparação para as adversidades da nova condição de vida, entretanto, para aqueles com visão otimista, a aposentadoria é considerada como uma oportunidade de aquisição de novas habilidades e conhecimentos, de cuidados da saúde e realização pessoal4-6-9.

O afastamento da atividade produtiva profissional, além de ser um fator de estresse e de desequilíbrio provocado pela perda de identidade com o trabalho, é uma situação que exige do sujeito ações de adaptação específica para enfrentá-la e ações de intervenção psicológicas e sociais, entre as principais encontram-se as de desenvolvimento da auto-estima (expectativas, avaliação da vida), suporte social (família, previdência social, comunidade, assistencialismo), fortalecimento das relações interpessoais e das estruturas sociais em torno do indivíduo (amizades, participação social).

Os casos em que a aposentadoria vem acompanhada de um declínio do padrão de vida são comuns, fazendo com que as pessoas tenham que enfrentar esta nova etapa sem estar, muitas vezes, preparadas emocionalmente 10-1. Assim, o surgimento da depressão e o estresse são frequentes em pessoas não habilitadas para o encerramento de um ciclo da vida e começo de outro.

A aposentadoria suscita reações muito ambivalentes sobre o ganho de tempo livre da condição de aposentado11. Por um lado, ela é um motivo de felicidade por se ter atingido um objetivo da vida e a oportunidade de retomar projetos, por outro, é um processo gradativo de perdas que pode resultar em uma verdadeira desorientação temporal que compromete a condição funcional do indivíduo10-12-13.

No aspecto social, a aposentadoria pode ser analisada sob a perspectiva constitucional (sociedade) e organizacional. No primeiro caso, a aposentadoria é uma instituição da sociedade industrial moderna, resultado de um longo período de lutas da classe trabalhadora14-15 e um dos benefícios da Previdência Social, concedido após um período de exercício da atividade ocupacional e de contribuição ao sistema de previdenciário, que se calcula desde o primeiro registro empregatício do trabalhador até a data do pedido da aposentadoria.

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