O turismo cultural no brasil

O turismo cultural no brasil

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PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Luiz Inácio Lula da Silva

MINISTRO DO TURISMO Walfrido dos Mares Guia

SECRETÁRIO EXECUTIVO Márcio Favilla Lucca de Paula

SECRETÁRIA NACIONAL DE PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO Maria Luisa Campos Machado Leal

SECRETÁRIO NACIONAL DE POLÍTICAS DE TURISMO Airton Nogueira Pereira Junior

DEPARTAMENTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS Pedro Gabriel Wendler

COORDENAÇÃO-GERAL DE RELAÇÕES MULTILATERAIS Fernanda Maciel Mamar Aragão Carneiro

COORDENAÇÃO-GERAL DE RELAÇÕES SUL-AMERICANAS Patric Krahl

GESTÃO TÉCNICA Adriane Correia de Souza Camila de Moraes Tiussu Clarice Mosele

CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS Lucia Carvalho Pinto de Melo Presidenta Lélio Fellows Filho Chefe da Assessoria Técnica

COORDENADORES RESPONSÁVEIS Luciano Coutinho Fernando Sarti Universidade de Campinas - NEIT/UNICAMP

Nos últimos quatro anos, o turismo brasileiro vem respondendo aos desafios representados pelas metas do Plano Nacional do Turismo. Governo Federal, empresários, terceiro setor, estados e municípios trabalharam juntos para colocar em prática uma nova política para o turismo. Pela primeira vez na história, o turismo tornou-se prioridade de Governo, com resultados positivos para a economia e o desenvolvimento social do País.

O Ministério do Turismo contabiliza muitas vitórias conquistadas: a ampliação da oferta de roteiros turísticos de qualidade; aumento dos desembarques nacionais; incremento no número de estrangeiros visitando o País; aumento dos investimentos diretos; elevação na entrada de divisas e geração de renda e empregos para os brasileiros.

No entanto, algumas reflexões se impõem sobre o futuro do turismo brasileiro. Um mundo cada vez mais dinâmico e competitivo e as transformações da economia mundial trazem novas e desafiadoras exigências para todos, sem exceção. Dentre elas, a de que é necessário assegurar os interesses nacionais e um desenvolvimento sustentado e sustentável. Como fazer isso em longo prazo? E mais: qual o padrão de concorrência vigente no mercado internacional; qual estratégia o turismo brasileiro deve assumir para competir; qual o melhor modelo de desenvolvimento para o turismo no País; quais as oportunidades estão colocadas para as empresas brasileiras e, ao mesmo tempo, que ameaças existem para elas nesse mercado? Finalmente, o desafio maior: como promover uma inserção ativa e competitiva do turismo brasileiro na economia mundial?

Buscando analisar esse cenário e encontrar respostas aos desafios que ele coloca, o Ministério do Turismo realizou um trabalho junto com o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), que resultou neste rico material. Os Estudos de Competitividade e Estratégia Comercial reúnem o trabalho de grandes especialistas de vários centros de pesquisa do Brasil.

Os Estudos foram idealizados com o objetivo de incentivar o debate sobre os rumos do turismo brasileiro, considerando seus principais aspectos e segmentos. O Brasil é aqui comparado com casos internacionais de sucesso para fazer face aos desafios que se põem: as novas tecnologias, as alianças estratégicas, fusões, aquisições e o processo de concentração, o fortalecimento e a internacionalização de nossas empresas, a sustentabilidade ambiental e a preservação das culturas locais.

O Ministério do Turismo convida todos os agentes do setor a uma ampla discussão para a construção coletiva e democrática de um futuro Programa de Competitividade Para o Turismo Brasileiro. As bases para este futuro sustentado estão aqui, nestes Estudos de Competitividade e Estratégia Comercial para o Turismo.

Walfrido dos Mares Guia Ministro do Turismo

O presente documento é propriedade do Governo Federal e é disponibilizado gratuitamente para avaliação dos profissionais do turismo brasileiro. Seu objetivo é ampliar o debate nacional sobre o futuro do setor, assim como de fomentar a pesquisa nesse campo do conhecimento, consistindo numa versão preliminar, que deverá sofrer alterações ao longo do primeiro semestre de 2007, incorporando sugestões e críticas a partir de debates com agentes selecionados do turismo brasileiro. Seu conteúdo não representa a posição oficial do Ministério do Turismo, sendo de inteira responsabilidade de seus autores.

Sumário

Essa nota técnica procura avançar na reflexão sobre o segmento de turismo cultural no Brasil.

receptoras2

1. Definição do termo “turismo cultural”: busca de experiências significativas através do contato com patrimônio histórico e cultural e manifestações artísticas vivas das comunidades

cultural em mundo globalizado8
patrimônio histórico12

3. Impactos positivos e negativos dos fluxos de turismo sobre a dimensão cultural: preservação ou deterioração da diversidade cultural, fonte de financiamento ou desvio de recursos em detrimento das comunidades locais, preservação/restauração ou destruição do

desempenho: Carrying Capacity e Limits of Acceptable Change (LAC)15
Turismo Cultural no Brasil21
turismo cultural24
7. Síntese dos principais resultados e Conclusões43
8. Bibliografia52

4. O conceito de turismo cultural sustentável e indicadores de 5. Caracterização geral das principais fontes de demanda do 6. Estudo de caso - Pirenópolis/Goiás: um caso bem-sucedido de

Anexo: Principais pontos de demanda cultural do Brasil (por Região e estado da Federação)

Seção 1. Definição do termo “turismo cultural”: busca de experiências significativas através do contato com patrimônio histórico e cultural e manifestações artísticas vivas das comunidades receptoras.

Os correlatos conceitos de “turismo cultural” e de “turista cultural” têm sido utilizados para designar um novo tipo de turismo/turista, que não busca apenas locais de destino distintos dos seus locais de vida rotineira, mas viver experiências significativas, entrando em contanto com culturas diferentes das suas. Alguns autores contrastam esse novo tipo de turismo com os pacotes de “turismo de massa dos anos sessenta e setenta, de “praia, coqueiros e sol” (Apostolakis, 2003).

É evidente que a definição desse “turismo cultural” está longe de ser simples, uma vez que qualquer experiência de viagem tem, em algum sentido, um aspecto cultural: ao sair de seu ambiente, o turista entra em contato com novos sabores da culinária local, com as músicas mais pedidas nas estações de rádio do local, com a forma dos habitantes locais de lidarem com visitantes. Assim, um primeiro desafio a ser enfrentado é uma delimitação mais precisa do termo.

Uma referência importante nessa delimitação é Mac Donald (2004), que se dedica a tal tarefa, partindo de definições utilizadas tanto no âmbito acadêmico quanto nas instituições ligadas ao turismo (tais como a World tourism Organization – WTO ou a European Association for Tourism and Leisure Education’s – ATLAS).

Comecemos com a definição de turismo. A definição fornecida pela WTO, e amplamente utilizada, é bastante simples:

“Turismo é a atividade de pessoas que saem e permanecem fora de seu ambiente natural por não mais de que um ano consecutivo por motivos de lazer ou outros propósitos” (WTO, apud Mac Donald:19).

A dificuldade encontrada na definição do termo turismo cultural reside, evidentemente, na delimitação precisa do termo cultura. Williams (1998) identifica três sentidos nos quais esse termo tem sido utilizado: i. Como um processo geral de desenvolvimento intelectual, espiritual e estético; i. Como sinônimo de um determinado “modo de vida” – como “a cultura indígena”, por exemplo; e i. Como o resultado e as práticas da atividade artística e intelectual. Mac Donald (2004) aponta que o significado do termo, nos meios acadêmicos que estudam a cultura, paulatinamente migrou do primeiro significado para os dois últimos. Assim, a partir destes, uma nova dicotomia foi criada: cultura como processo e cultura como produto.

A cultura como processo diz respeito à definição incluída no item i acima. Trata-se de uma abordagem antropológica e sociológica que define cultura como o conjunto dos códigos de conduta e do sistema simbólico que caracteriza determinada comunidade. A cultura como produto, por outro lado, diz respeito ao produto da atividade de indivíduos ou grupos que se consubstancia em manifestações artísticas de várias sortes1.

Fazendo eco às duas definições acima delineadas, encontram-se duas definições de turismo cultural – a primeira ligada à cultura como produto, e a segunda à cultura como processo. Um exemplo da primeira definição é aquela encontrada fornecida pela WTO:

erudita ou de outros tiposEm áreas menos desenvolvidas, elas podem

“Turismo cultural refere-se ao segmento da indústria do turismo que enfatiza as atrações culturais. Estas atrações são variadas, incluindo performances, museus, espetáculos, e assim por diante. Em áreas desenvolvidas, essas atrações culturais incluem museus, peças, música incluir práticas religiosas tradicionais e outras performances culturais.”(WTO, citado em Gee & Fyos-Sola, 1997:120)

Essa abordagem é importante principalmente por facilitar a tarefa de quantificação do fluxo de turistas “culturais”, mas é criticada por ser muito restritiva e por privilegiar as atividades ligadas à “alta cultura” (Richard, 1996). A segunda categoria de turismo cultural é aquela ligada à cultura como

1 Como aponta Meethan (2001), uma distinção usualmente feita dentro dessa concepção de cultura – e que envolve um juízo de valor acerca do que seja “boa cultura” ou de “bom gosto” – é aquela feita entre a chamada “high culture” e a cultura de massa.

um processo, e relaciona o turismo cultural a uma busca por novas experiências, em um sentido mais amplo. A definição da ATLAS – órgão que tem, aliás, promovido férteis pesquisas no campo do turismo cultural – é um bom exemplo:

“O turismo cultural é o movimento de pessoas em busca de atrações culturais, com a intenção de obter novas informações e experiências que satisfaçam suas necessidades culturais” (citado em Richards, 1996:24)

Aqui, aparece um componente fundamental na delimitação do que seja turismo cultural: a intenção do turista. Se, como se disse acima, toda viagem encerra um aspecto cultural, na medida que o turista entra necessariamente em contato com um ambiente distinto daquele que caracteriza seu “habitat”, o que distingue fundamentalmente o turismo cultural de outros tipos de turismo (como aquele já citado, de “praia, sol e coqueiros”) é a intenção do turista de ter experiências significativas a partir do contato com culturas distintas da sua. Aqui, nos alinhamos a MacDonald, que define turismo cultural da seguinte forma:

“ Turismo cultural é um segmento da indústria que trata das viagens motivadas em parte ou inteiramente pela intenção de explorar ou experienciar diferentes modos de vida e/ou idéias de outras pessoas – os costumes sociais, as tradições religiosas e a herança cultural que não são os seus.”(Mac Donald, 2004:23)

Adotaremos aqui uma definição que vai além daquela que se depreende da concepção de “cultura como produto” e engloba também a dimensão de cultura como processo, no sentido de entrar em contato com um modo de vida distinto daquele que caracteriza seu local de moradia. Mas o que distingue o turismo cultural do de outro tipo é o fato de que a principal motivação do viajante é justamente entrar em contato com essa dimensão cultural do local de destino. Assim, definiremos “turismo cultural” como aquele no qual o turista tem como principal motivação entrar em contato com as manifestações culturais da população alvo, com o objetivo de satisfazer suas próprias necessidades culturais.

Resta ainda, encontrar alguma forma de fazer distinções entre diversas fontes de demanda para o turismo cultural – para facilitar a análise deste ramo no Brasil.

Uma pesquisa recente da WTO2 acerca do turismo cultural para cidades européias faz a seguinte classificação, em termos do produto cultural oferecido por tipo de aglomeração urbana:

A primeira categoria de produto diz respeito à herança cultural consubstanciada no patrimônio histórico. A segunda, das “artes”, refere-se às manifestações artísticas vivas e a terceira, as “indústrias criativas” designa ao design gráfico, arquitetura contemporânea, fashion, etc.

No Brasil, foi criado em fins de 2003, por iniciativa do Ministério do turismo, um grupo técnico temático sobre turismo cultural, composto de representantes de várias organizações e instituições da área de turismo, o que foi de fundamental importância para que se chegasse a uma definição precisa do termo, de modo a nortear o debate e o desenho de políticas direcionadas ao segmento no país.

A partir dos trabalhos desta Comissão, chegou-se a uma segmentação precisa do setor do turismo, expressa no documento “marcos conceituais dos

2 World Tourism Organization. City Tourism and Culture: the European experience (2005) 5 segmentos de turismo”, que veio a público no Salão de Turismo de São Paulo, em Junho de 2006. A definição adotada de turismo cultural é a seguinte:

“Turismo cultural compreende as atividades relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura.” (Cartilha da Segmentação, p.13)

O enfoque expresso no documento vai ao encontro daquele encontrado na literatura internacional sobre o tema: o que distingue o segmento do turismo cultural é a motivação do turista de vivenciar outras culturas.

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