A tradição do Reis de Boi

A tradição do Reis de Boi

SOCIEDADE DE ENSINO SUPERIOR ESTÁCIO DE SÁ

FACULDADE ESTÁCIO DE SÁ DO ESPÍRITO SANTO CURSO DE TURISMO

CLARISSE GUIMARÃES E SOUZA

JOÊMIO CAMILO

VISITA TÉCNICA A SÃO MATEUS: A TRADIÇÃO DO REIS DE BOI

VITÓRIA

2008

CLARISSE GUIMARÃES E SOUZA

JOEMIO CAMILO

VISITA TÉCNICA A SÃO MATEUS: A TRADIÇÃO DO REIS DE BOI

“Trabalho apresentado à disciplina de Teoria Geral do Turismo do 1º período do curso de Turismo, como requisito parcial de avaliação, orientado pela professora Ana Beatriz Macedo.”

VITÓRIA

2008

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...............................................................................................04

2 UM POUCO DA HISTÓRIA...........................................................................05

3 O FOLGUEDO DE REIS DE BOI..................................................................06

4 O MESTRE DE REIS DE BOI.......................................................................08

5 CONCLUSÃO................................................................................................09

6 REFERÊNCIAS.............................................................................................11

7 APÊNDICE A.................................................................................................12

8 APÊNDICE B.................................................................................................17

1 INTRODUÇÃO

O povo do município de São Mateus foi formado, no decorrer dos quase quinhentos anos de história, pela miscigenação entre elementos indígenas dos troncos lingüísticos tupi e macro-gê, por imigrantes europeus e por negros trazidos de várias nações e tribos africanas.

A contribuição de cada um desses elementos ajudou a formar um povo rico em tradições, alegre nas suas manifestações, amigável em suas relações e receptivo aos novos elementos que vão chegando para contribuir com a formação desse caldeirão cultural que é São Mateus.

O município de São Mateus é muito rico em manifestações culturais ligadas à religiosidade do povo, quer seja em relação à igreja cristã, principalmente a católica, quer seja em relação às religiões que eram praticadas pelos índios e pelos negros.

Dessas manifestações surgiu o Jongo, espécie de samba de roda do qual participam homens, mulheres e crianças que cantam ao ritmo de tambores e reco-recos confeccionados artesanalmente pelos próprios componentes do grupo, e o Reis de boi, manifestação popular do folclore religioso que é apresentada em São Mateus a mais de trezentos anos e que será nosso objeto de estudo.

2 UM POUCO DE HISTÓRIA

Inicialmente a região da foz do Rio Cricaré, localizada no norte do Espírito Santo, era habitada por índios tupinambás. Posteriormente esta região foi dominada pelos grupos indígenas Malali, Mashacali, Pataxó e Botocudo (também conhecido como Aimoré), sendo estes os que mais resistiram às investidas dos europeus.

Por volta de 1544 alguns portugueses que haviam fugido do ataque dos índios botocudos e goitacazes à Vila do Espírito Santo (atual Vila Velha) naufragaram a mais ou menos 32 km da foz do Rio Cricaré. Lá encontraram terras férteis e altas no lado direito do rio, fundando assim o núcleo de colonização juntamente com outros indivíduos que aos poucos chegavam vindos de regiões vizinhas.

Em 1558 ocorreu a Batalha do Rio Cricaré, que registrou a primeira derrota dos invasores portugueses na costa brasileira, onde ocorreu a morte de Fernão de Sá (filho do governador geral Mem de Sá) e uma das maiores matanças de índios no Brasil. Este episódio foi retratado no livro O Guarani de José de Alencar e na ópera homônima de Carlos Gomes.

Segundo a tradição oral, em 1566 o padre Anchieta que estava de passagem, celebrou no dia 21 de setembro, a primeira missa do povoado. Como neste dia a Igreja Católica celebrava a festa do evangelista Mateus, Anchieta teria atribuído à aldeia e ao rio o nome cristão de São Mateus em lugar do nome pagão Cricaré (nome indígena que significa rio lento, preguiçoso) utilizado na época.

No século XVIII o governo português após perceber o perigo de perder o controle sobre as minas de ouro de Minas Gerais resolveu tomar providências para evitar a subida de colonos para o sertão. Dessa forma, em 1764, Thomé Couceiro de Abreu, Ouvidor Geral da Capitania de Porto Seguro, seguindo orientação da Coroa Portuguesa ultrapassou os limites territoriais de sua capitania e tomou as medidas necessárias para a elevação da povoação à categoria de Vila Nova do Rio Sam Matheus, anexando-a ao domínio da Bahia.

Assim, a vila de São Mateus passou a dar obediência ao governo da Bahia e, a partir desse momento houve um grande crescimento das atividades comerciais, pois muitas famílias importantes daquele estado passaram a se mudar para a nova vila. A subida para Minas Gerais foi proibida e os colonos receberam incentivos para se estabelecerem nas terras localizadas entre a vila e o mar. A vila de São Mateus volta à jurisdição do Espírito Santo apenas em 1822, após os mateenses terem aderido à causa da independência do Brasil e em 1848 , através de Ato Provincial, passa a ser município.

O Porto de São Mateus teve grande importância no passado, pois nele desembarcaram grande parte dos negros que vieram para o Brasil e nele foi apreendido o último carregamento clandestino de negros na costa brasileira em 1856, quando foi aprisionada uma escuna norte-americana na barra de São Mateus com 350 africanos.

Atualmente São Mateus possui área territorial de 2343 km² e uma população de aproximadamente 100.655 habitantes (IBGE/2008). Sua economia está baseada no comércio e na produção de petróleo. O município é diverso em tradições culturais locais e globais. Não obstante à diversidade, a cultura tradicional tem certa unidade e continuidade com a cultura encontrada em outras comunidades do vale do Rio Cricaré. Esta região é riquíssima em tradições populares singulares, cultivadas em processos sociais dinâmicos.

3 O FOLGUEDO DE REIS DE BOI

A folia de Reis de boi é uma manifestação popular do folclore religioso brasileiro do ciclo natalino, originário do Teatro Medieval de Rua, da Península Ibérica. O Reis apresenta-se durante o ciclo de natal, prolongando-se até o dia de São Braz, 3 de Fevereiro, e sendo reapresentado no dia 20 de Fevereiro, dia de São Sebastião.

Foto 1 Folguedo de Reis de Bois

Fonte : www.overmundo.com.br

Este folguedo é uma versão capixaba do auto popular conhecido como "bumba meu boi". Com grande tradição no norte do estado do Espírito Santo, estende-se também por alguns municípios do sul da Bahia. A folia de Reis-de-boi é um grande teatro de rua feito por trabalhadores e camponeses e é um espetáculo folclórico que mexe com os nervos e a emoção da população mais humilde.

O número de integrantes dos grupos de Reis varia entre 12 e 20, formando alas, vestidos com calça azul-marinho ou branca com filete lateral vermelho ou azul. Na cabeça, um chapéu de palha revestido de morim, internamente enfeitado de flores e várias fitas coloridas que se estendem até a cintura.

A primeira apresentação do grupo ocorre no dia 6 de Janeiro - Dia de Reis - à porta da igreja ou da capelinha. Depois, percorrem as casas dos conhecidos onde são convidados ou aparecem de surpresa, sabendo antecipadamente que serão bem acolhidos. Com a apresentação da "brincadeira" é tocada a marcha para a chamada do vaqueiro que vem sapateando, batendo o ritmo com o bastão. Traja roupa velha, com paletó pelo avesso, bolsos de fora e máscaras. Após essa exibição, pára ofegante e faz um discurso contando de onde vem e relata acontecimentos de forma satírica que todos sabem.

Canta-se então, a chamada do boi que entra dançando e fazendo graça, dando voltas e chifradas. Em alguns grupos ocorre a morte e a ressurreição do boi. Mal o boi cai no chão, o sanfoneiro puxa a música para o canto da divisão do boi, com o coro cantando um refrão, a cada pedaço vendido. Cada grupo tem sua própria cantoria.

Através deste folguedo é possível fazer um retrospecto de acontecimentos nacionais e mundiais, como as eleições e a viagem do homem a lua espantando São Jorge e seu cavalo, dentre outros. Ninguém sabe informar sobre a criação do Reis-de-Boi; dizem apenas que "tudo começou com o nascimento de Cristo". No município de São Mateus existem hoje quatorze Ternos de Reis (como são chamados os grupos de Reis-de-boi) e estes grupos só se encontram durante as comemorações de Santos Reis em 6 de janeiro.

4 O MESTRE DE REIS DE BOI

No humilde bairro de Santa Thereza, encontramos o Sr. Nilso Modesto, mais conhecido como “Seu Zozó”; pessoa simpática e de sorriso fácil que nos recebeu em sua residência a fim de compartilhar conosco um pouco de sua experiência como mestre de Reis de boi.

“Seu Zozó” nos contou que brinca na folia de Reis de Boi desde menino e que há 54 anos é mestre de Reis. Com sua voz mansa nos conta que era melhor “brincar” antigamente, quando todos participavam da brincadeira e os mais novos iam aprendendo com os mais velhos a realizar a brincadeira. Ele também nos conta com pesar que os jovens de hoje em dia pouco se interessam pelo folguedo e ele teme que isso venha a acabar.

Foto 2 Sr. Nilso Modesto (Seu Zozó)

Fonte : Souza. 2008

A falta de incentivo também é um grave problema, uma vez que os grupos sobrevivem com recursos próprios, o que faz com que na maioria das vezes eles deixem de participar da maioria dos eventos a que são convidados para se apresentar, uma vez que os grupos de Reis são formados por pessoas muito humildes e geralmente com poucos recursos financeiros.

“Seu Zozó” acredita que com um pouco de apoio e incentivo do poder público o folguedo de Reis de Boi pode se tornar tão importante e popular quanto o congo, fazendo com que mais e mais pessoas se interessem em dar continuidade a esta brincadeira tão bonita.

5 CONCLUSÃO

O belo município de São Mateus é riquíssimo em sua cultura popular, mas infelizmente algumas correm os riscos de se perder ao longo do tempo, uma vez que é passada de geração a geração apenas por via oral. Por estas e outras razões vale a pena ver de perto o desenrolar agitado, sonoro e trepidante do nosso Reis-de-Boi, auto popular que recorda as velhas representações ao ar livre. Vale a pena, também dar a essa gente simples o apoio oficial através das prefeituras e câmaras municipais.

 

REFERÊNCIAS

GAZETA, A. Turismo. Disponível em http/www.gazetaonline.com, acesso em 29 out.2008.

IBGE, Cidades. Disponível em http/www.ibge.gov.br/cidadesat/default.php, acesso em 13 nov.2008.

MODESTO, N. Depoimento sobre o Folguedo de Reis de Bois. São Mateus-ES: em entrevista concedida a Camilo e Souza, em 25 out. 2008.

RANGEL, C. Reis de bois de Itaunas. Disponível em http/www.overmundo.com.br, acesso em 13 nov.2008.

APÊNDICE A

Transcrição da entrevista com “Seu Zozó”

Seu Zozó, o Sr. É mestre de Reis?

É... (responde bem encabulado)

O Sr. pode nos contar como começou o Reis de boi?

Isso eu não sei. Eu era garoto, com 12 anos e ficava lá atrás, tinha medo de brincar com eles, ia passando na covardia, depois quando já tava com 23 anos eu ia na brincadeira por minha conta e tomo conta até hoje. E já ta com 54 anos de brincadeira de reis.

Em que data acontece a folia de Reis?

Bem, a gente sai em dezembro até 2 de fevereiro e depois sai de novo dia 20 de fevereiro, dia de São Sebastião.

Como a pessoa se torna mestre de Reis de boi?

A gente tem que aprender, tem que ter paciência, vai brincando e aprendendo com os mais velhos. Eu tenho 80 anos e brinco de reis a uns 54.

Como o Sr. já tem uma certa idade, o Sr. transmite o seu conhecimento para os mais novos para que eles possam dar continuidade ao seu trabalho?

Passo sim, mas é uma mão-de-obra danada pois chama um, num vai, chama outro, num vai. Os menino não qué nada, a gente chama homi e chama mulé mas num querem, os meninos só querem saber di fica em bar bebendo.

Mas alguns jovens participam, não?

Participa sim mas são poucos, os minino mais novo vai mas os minino mais velho é difícil de ir. Menino mais novo tem uns quatro só...resto é o povo mais velho mesmo.

Mas o Sr. acha que os mais novos darão continuidade a esse Terno de Reis?

Ah...diz eles que vão...esse menino aí (apontando para o neto) diz que vai continuar...vai brincar todo ano.

E vocês brincam por aqui mesmo?

Por aqui, lá na rua, nas roça muitas vezes, aonde chama a gente vai. Eu fui a Vitória duas veis já, em Pinheiros eu fui três veis. Se chamá a gente vai mas o ruim é que tem que ir com o dinheiro nosso, aí fica difícil porque a gente tem poço e a despesa é muita.

Qual o nome do Terno de Reis do Sr.?

Ah... Não tem nome não, o pessoal chama nós pelo meu nome mesmo.

Então é o Terno de Reis do Seu Zozó?

É, diz que é.

O seu Terno de Reis é formado por quantos componentes?

São em quatorze, nove é daqui, o resto é da rua.

Onde vocês ensaiam?

Nós ensaia por aqui mesmo, embaixo dum jambeiro na casa de uma neta minha.

Onde fica a sede de vocês?

É aqui mesmo (referindo-se à sua casa), há muitos anos é aqui.

O Sr. sabe quantos Ternos de Reis existem no município?

Tem um no Vinte e Três ali em Nova Venécia, tem um no Córgo Grande, tem aqui no Bom Sucesso, tem outro também lá na Viação e lá pro Nativo tem mais que eu nem conheço.

Em que data os grupos de Terno de Reis se encontram?

Quando tem a festa lá em baixo (no Porto), quando vai se apresentar lá embaixo vai todo mundo, vai quatorze Terno de Reis.

As apresentações de Reis de Boi atraem muita gente...muitos turistas?

É, vem muita gente de fora de São Mateus. Atrai muito, nós brinca lá embaixo dia 6 de janeiro que a prefeitura manda. ) pessoal vem aí, nóis vamu tudo lá pra baixo, lá na beira d’água no dia de Santo Reis. Todo ano é obrigado todo mundo i lá. É muita gente de fora, é muita gente mesmo que vem vê.

E as pessoas que estão assistindo também participam da brincadeira?

Não, os de fora fica só assistinu. Brinca nós que é do Terno.

Como aqui na região existem quatorze Ternos de Reis, vocês mantêm contato entre si?

Ah, é difícil, só quando a gente vai pra brincadeira ou incontra na rua fazendo compra.

Quais os instrumentos utilizados no folguedo de Reis?

Sanfona, pandeiro e uma viola velha, tá tudo guardado aí neste quarto, dentro do plástico, pra num pega poeira.

É o Sr. quem faz as fantasias da bicharada?

Faço... faço máscara, cabeça de boi...

Como são feitas as fantasias?

Intão, junta todo mundo aí e a gente faz de poço, né?!

Quer dizer que todo mundo participa da confecção das fantasias?

Não, sô só eu que faço. Eu que faço as fantasia pro pessoal.

Os bichos que o Sr. faz são só para o grupo do Sr. ou são para os demais grupos também?

È só pra mim só, só pra nossa brincadeira mesmo...apresentô...cabô!!!

Quer dizer que as fantasias são trocadas todos os anos?

É, todo ano troca. Todo ano tem que fazê bicho diferente.

Nossa, o Sr. tem amor a brincadeira de Reis mesmo não é?

Ah, enquanto tiver vida útil... Quando morre aí a gente para né? To com 80 anos já.

É o Sr. quem faz a cabeça do boi também?

Não,não, quem faz as cabeça é um moço lá do Ideal, chamam ele de Paixãozinho.

Mestre Paixão?

É, é ele mesmo. Ele que faz cabeça de boi por aqui.

O Sr. sabe como são feitas as cabeças de boi?

Isso eles fazem uma forma de barro, depois passa uma cola assim e depois vai empurrando papel molhado até inchê.

O Terno de Reis do Sr. recebe algum apoio da prefeitura?

Ih, o que a prefeitura dá não dá pra nada. Vamo coloca, todo ano tem que fazê dezesseis figura, aí fomo no homi que faz figura mais fico muito caro. Esse boi meu aí mesmo fico em R$400,00. Paguei sozinho em prestação.

O Sr. acha que se a prefeitura desse um apoio maior a vocês a comunidade se interessaria mais em participar do Terno de Reis?

As veiz né... eu tenho essa idéia...

Por exemplo, se a prefeitura fornecesse o transporte para levar vocês para se apresentar nos encontros de cultura dentro do estado ajudaria a despertar o interesse dos jovens pelo Reis de Boi, evitando assim que a cultura viesse a se perder?

Ah, com certeza. Eu tenho essa idéia mas o mais difícil é o carro né, precisa de juntá monte de gente pra eles pode leva. Se junta um monte de gente eles leva mas aí tem o motorista que nós tem que pagar. É R$80,00 que nós tem que pagar do motorista e eles cobra mesmo de nós.

APÊNDICE B

SEU ZOZÓ” E A MEDALHA DE HONRA AO MÉRITO “ZOROASTRO VALERIANO” CONCEDIDA POR SERVIÇOS PRESTADOS A CULTURA E AO FOLCLÓRE DO MUNICÍPIO DE SÃO MATEUS

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