Produção de Tilápia Mercado, Espécie, Biologia e Recria

Produção de Tilápia Mercado, Espécie, Biologia e Recria

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Teresina, PI dezembro, 2007

45 ISSN 0104-7633

Autores

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Produção de tilápia: Mercado, espécie, biologia e recria

Foto 1: Calolyny Lima e Jaime Miguel Filho

Elenise Gonçalves de Oliveira Professora DEP/UFC

Francisco José de Seixas Santos Pesquisador Embrapa Meio-Norte, Doutorando UFCG

Alitiene Moura L. Pereira Pesquisadora Embrapa Meio-Norte

Carolyny Batista Lima Professora CCA/UFPB

Introdução

O Brasil, que por muitos anos apresentou deficit na balança comercial de pescado, obteve em 2003 um saldo positivo. Contribuiu para esse fato a expansão da aqüicultura marinha e continental. Em relação à aqüicultura continental, o grupo de peixes que mais tem-se destacado para a ampliação dos mercados interno e externo de produtos aquícolas é o da tilápia.

Nativas da África, Israel e Jordânia, as tilápias apresentam fácil reprodução, carne branca de excelente qualidade, ótimo valor de mercado, baixos custos de produção e se adaptam aos sistemas de cultivo mais extensivos até os mais intensivos, podendo ser cultivadas em águas com salinidades elevadas e temperaturas baixas.

O Brasil apresenta excelentes condições para a exploração da tilápia e poderá tornarse o maior produtor de tilápia cultivada do mundo. No Nordeste, a tilapicultura se expandiu graças, principalmente, a sua exploração em tanques-rede, havendo ainda perspectiva de crescimento da atividade, tanto para atender ao mercado interno, quanto externo.

Histórico

No Brasil, a tilápia foi introduzida pela primeira vez em 1953, quando a “Light”, em São Paulo, importou Tilapia rendalli do Congo. Posteriormente, em 1971, o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) introduziu exemplares da espécie tilápia nilótica (Oreochromis niloticus) visando ao peixamento dos reservatórios públicos da Região Nordeste. O baixo índice de crescimento da primeira espécie e a alta prolificidade e consagüinidade da segunda foram os principais entraves encontrados, o que levou à disseminação da tilápia nos reservatórios brasileiros e a baixos índices de produtividade.

Em 1981, foram introduzidas oficialmente no Brasil as tilápias vermelhas, cuja pigmentação avermelhada é resultante de uma mutação genética em populações da espécie Oreochromis mossambicus (tilápia de Moçambique). A consangüinidade e a falta de programas de melhoramento genético trouxeram mais problemas para esses peixes do que os observados com a tilápia nilótica.

2Cultivares de Soja para as Regiões Norte e Nordeste do Brasil

Em 1996, houve a importação de uma linhagem melhorada da tilápia nilótica, população Chitralada da Tailândia. Em 2002, foi introduzida uma nova linhagem de tilápia nilótica, a GenoMar Supreme Tilapia, e depois a FishGen (Genetically Male Tilapias – GMT). A introdução das linhagens melhoradas e o uso da técnica de incubação artificial, com controle do sexo, deram novo impulso à atividade e iniciou-se a fase industrial da tilapicultura brasileira.

Mercado da tilápia

A tilápia é o grupo de peixes que mais cresce do ponto de vista da produção em cativeiro, chegando na atualidade a ser a segunda espécie mais cultivada em todo o mundo, atrás apenas das carpas, e a primeira no Brasil.

As tilápias, conhecidas como “frango aquático”, estão espalhadas em mais de 100 países e presentes nos mais diferentes mercados.

A maior parte da produção vem da aqüicultura (Fig. 1), e a China domina o mercado internacional em termo de produção e exportação de tilápia. A produção de tilápia no Brasil vem crescendo ano a ano e em 2006 o País tornou-se o sexto maior produtor (Fig. 2).

No Brasil, há grande demanda de tilápia, tanto para o mercado interno, quanto externo, sendo o Ceará considerado o principal mercado interno consumidor e os Estados Unidos e a Espanha os principais destinos das exportações. A Região Sul do Brasil em 2004 detinha 52 % da produção nacional e a Região Nordeste, 24 %. Espera-se que em 2010 o Brasil atinja uma produção anual de 420 mil toneladas.

No mercado internacional, a tilápia é comercializada na forma congelada inteira ou na forma de filés congelados ou frescos. Para esses produtos, as estatísticas dão conta de que, janeiro a junho de 2005, os Estados Unidos importaram 58.906.349 kg de tilápia, e o Brasil foi o quarto país exportador de filé fresco, com um total de 467.891 kg, atrás do Equador (5.422.455 kg), Honduras (3.015.623 kg) e Costa Rica (2.327.144 kg). Nesse mesmo período, a China exportou para os Estados Unidos 1.351.482 kg de tilápia inteira congelada e 12.852.081 kg de filé congelado.

Os Estados Unidos são o principal importador de tilápia, chegando a ser o quinto pescado com maior consumo “per capita” (1,0 libra/pessoa ou 453,6 g) no País em 2006. Outros mercados que se evidenciam são: Arábia Saudita, Canadá, Reino Unido, Países Baixos, França, Kuwait e Japão. A Europa é um mercado em ascensão, havendo uma tendência de substituir peixes tradicionais pela tilápia.

No entanto, para a tilápia brasileira conseguir atingir uma fatia do mercado internacional, será preciso que tenha preço e qualidade capazes de competir com os países asiáticos.

Os preços praticados para a tilápia têm oscilado pouco ao longo dos anos (Fig. 3), havendo uma tendência de queda a partir de 2000. Os dois produtos de maior valor são o filé fresco e o peixe vivo; o de menor é o peixe inteiro congelado.

Fig. 3. Preços praticados para diferentes produtos da tilápia de 1992 a 2007. Fonte: Fitzsimmons (2007). Fig. 1. Origem da tilápia importada para consumo doméstico pelos

EUA Fonte: Fitzsimmons (2007).

Fig. 1. Produção mundial de tilápia em 2006 num total de 2.381,237 toneladas métricas. Fonte: Fitzsimmons (2007).

3Cultivares de Soja para as Regiões Norte e Nordeste do Brasil

Espécies de tilápia

Há 7 espécies de tilápias descritas e distribuídas basicamente nos três gêneros: Tilapia, Sarotherodon e Oreochromis. Entre as espécies descritas, quatro têmse destacado na aqüicultura mundial, graças as suas características (Tabela 1): tilápia nilótica ou do Nilo (Oreochromis niloticus) (Fig. 4), tilápia de Moçambique (Oreochromis mossambicus), tilápia azul ou tilápia áurea (Oreochromis aureus) e a tilápia de Zanzibar (Oreochromis urolepis hornorum).

Essas espécies foram cruzadas, resultando híbridos machos ou vermelhos. O fenótipo vermelho, embora possa ocorrer em tilápia nilótica, está comprovado apenas na espécie O. mossambicus, sendo proveniente de uma mutação espontânea que se expressa nos cromatóforos em gradientes que vão do branco, passando pelo rosa, amarelo e vermelho. Esses híbridos têm sido criados em países onde a tilápia acinzentada não tem grande aceitação. No Brasil, híbridos vermelhos foram mais explorados até a década de 1990, quando então foram substituídos, em grande parte, pela tilápia nilótica linhagem Chitralada.

Tabela 1. Características das tilápias mais exploradas comercialmente.

Observação: quanto maior o número de asteriscos, melhores são os indicadores. Fonte: Kubitza (2000).

Fig. 4. Exemplar de tilápia nilótica (O. niloticus), linhagem Chitralada tailandesa. Foto: Carolina Lima e Jaime Miguel Filho

Fig. 5. Híbridos de tilápia conhecidos como tilápia vermelha. Fonte: http://www.pisces-aqua.co.uk/aquatext/images/ fish%20etc/mossambic.htm

No Brasil, híbridos machos foram e ainda vêm sendo obtidos a partir do cruzamento de fêmeas puras de Oreochromis niloticus com machos puros de Oreochromis hornorum.

Atualmente no Brasil, a espécie mais cultivada é a tilápia nilótica, linhagem Chitralada da Tailândia, comumente conhecida por tilápia tailandesa ou Chitralada.

Biologia

As tilápias apresentam hábitos alimentares que vão do herbívoro (alimenta-se de plantas), fitoplanctófago (alimenta-se de algas), omnívoro (alimenta-se de diferentes tipos de alimento) ao detritívoro (alimenta-se de restos de organismos). A tilápia nilótica, que é a

4Cultivares de Soja para as Regiões Norte e Nordeste do Brasil mais cultivada, apresenta hábito alimentar fitoplanctófago, mas aceita muito bem rações comerciais e artesanais elaboradas à base de subprodutos da agropecuária.

A tilápia possui dentes rudimentares nos lábios, intestino bastante longo, respiração do tipo branquial e o corpo coberto de escamas. Sua reprodução é do tipo parcelada, podendo desovar de 8 a 12 vezes no ano. A sua maturidade sexual está muito relacionada com o clima da região, condições de espaço, manejo e alimentação. Geralmente, começa a reproduzir-se por volta dos 4 a 5 meses de idade, colocando em média 800 a 2.0 óvulos/desova ou 4 a 5 óvulos g-1 de peso vivo de fêmea.

A tilápia apresenta dimorfismo sexual, ou seja, é possível diferenciar machos de fêmeas. Entre as diferenças, é possível citar o número de orifícios na região ventral, cuja fêmea apresenta três orifícios (ânus, oviduto e uretra) e o macho apenas dois (ânus e orifício urogenital, sendo este último a abertura por onde passam urina e sêmen) (Fig. 6 a, b). Além disso, as fêmeas reprodutoras apresentam menor porte que os machos da mesma idade e escurecimento na região gular (papo). Já os machos, quando preparados para a reprodução, podem apresentar coloração rosada na cabeça e na extremidade da nadadeira caudal e coloração azul/cinza na região abdominal.

Na época da desova, o macho constrói o ninho no piso (chão) do ambiente aquático (Fig. 6c). A fêmea deposita os óvulos no ninho que logo em seguida são fecundados pelos machos. Conforme observações pessoais feitas em canais de irrigação, um ninho serve para desova de mais de uma fêmea e uma desova de fêmea pode ser fecundada por mais de um macho.

Macho tilápiaFêmea tilápia Ninhos feitos pelos machos ânus oviduto ureta

As fêmeas pertencentes ao gênero Oreochromis desenvolvem cuidado com a prole, de forma que após a fecundação recolhem os ovos com a boca (Fig. 7), onde os mantém por cerca de sete a oito dias, durante o período de incubação e desenvolvimento das larvas. Nesse período, a fêmea não se alimenta e, mesmo após os peixes adquirirem capacidade de natação e busca de alimento, ela continua dispensando cuidado com os filhotes por cerca de 20 dias, fazendo o recolhimento dos filhotes à boca sempre que pressentir condições de perigo para eles.

Em razão da precocidade reprodutiva, da desova parcelada e do hábito de cuidar da prole, a população de tilápia aumenta muito rapidamente, vindo a reprodução a ser considerada um grande problema nos cultivos comerciais. Esse aspecto por muito tempo foi um dos principais entraves ao desenvolvimento da tilapicultura. Apenas com a adoção da técnica da reversão sexual, foi possível superá-lo e obter melhores índices de desempenho zootécnico da produção.

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