A Mata Atlântica em Alagoas

A Mata Atlântica em Alagoas

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Conversando sobre Ciências em Alagoas

A Mata Atlântica em Alagoas

Flávia de Barros Prado Moura Organizadora

Reitora

Ana Dayse Rezende Dórea

Vice-reitor Eurico de Barros Lôbo Filho

Coordenadora Profa. Dra. Tania Maria Piatti

Diretora Profa. Dra. Flávia de Barros Prado Moura

Edufal Diretora Sheila Diab Maluf

Conselho Editorial

Sheila Diab Maluf (Presidente)

Cícero Péricles de Oliveira Carvalho

Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante

Roberto Sarmento Lima

Iracilda Maria de Moura Lima Lindemberg Medeiros de Araújo Flávio Antônio Miranda de Souza

Eurico Pinto de Lemos

Antonio de Pádua Cavalcante Cristiane Cyrino Estevão Oliveira

Supervisão gráfica: Márcio Roberto Vieira de Melo

Capa / Diagramação: Edmilson Vasconcelos

Catalogação na fonte

Universidade Federal de Alagoas Biblioteca Central ጀ Divisão de Tratamento Técnico

Direitos desta edição reservados à

Edufal - Editora da Universidade Federal de Alagoas

Campus A. C. Simões, BR 104, Km, 97,6 - Fone/Fax: (82) 3214.1

Maceió - Alagoas

E-mail:edufal@edufal.ufal.br Site: w.edufal.ufal.br

M425 A Mata Atlântica em Alagoas / Flavia de Barros Prado Moura, organizadora. -

Maceió : EDUFAL, 2006. 88p. : il. - (Conversando sobre ciências em Alagoas)

Bibliografia: p. 85-8

1. Mata Atlântica. I. Moura, Flávia de Barros Prado, org. I. Série. (Conversando sobre ciências em Alagoas)

CDU: 502.62 (813.5)

1.Introdução: conceito, abrangência e principais ameaças à

Flávia de Barros Prado Moura07

Mata Atlântica brasileira

2.Conservação da Mata Atlântica: o que diz a lei ?

Flávia de Barros Prado Moura19

Fábio Henrique Ferreira de Menezes

Petrucio Alexandre Fonseca Rios29

3.Cobertura original, cobertura atual e unidades de conservação da Mata Atlântica alagoana Edilane Ribeiro Barbosa

Flávia de Barros Prado Moura35

4.A biodiversidade da Mata Atlântica Alagoana: espécies endêmicas e ameaçadas de extinção Adriana dos Santos Costa

5.A biodiversidade da Mata Atlântica alagoana: flora

Ana Cláudia Martins da Silva39

Adriana dos Santos Costa

Albérico José de Moura Saldanha Filho49

6.A biodiversidade da Mata Atlântica alagoana: mamíferos

7.A biodiversidade da Mata Atlântica alagoana: aves

Mário Tânio F. Toledo53

Edelmo de Melo Gonçalves

8.A biodiversidade da Mata Atlântica alagoana: anfíbios e répteis Selma Torquato da Silva Ubiratan Gonçalves da Silva George Araújo Barbosa de Sena Filipe A. Cavalcanti do Nascimento......................65

9.A biodiversidade da Mata Atlântica alagoana: moluscos

Liriane Monte Freitas7 7

Mª. Ilza M. Lins Castelo Branco

Filipe A. Cavalcanti do Nascimento80
Atividades sugeridas8 3
Bibliografia consultada8 5

10. Glossário Bibliografia e sites sugeridos...........................8

Apresentação

–Ecossistemas Marinhos: recifes, praias e manguezais Profª. Drª. Monica Dorigo Correia e Profª. Drª. Hilda Helena Sovierzoski

–A Mata Atlântica em Alagoas Profª. Drª. Flávia de B. Prado Moura e MSc. Selma Torquato da Silva

–Escorpiões, Aranhas e Serpentes: aspectos gerais e espécies de interesse médico no Estado de Alagoas MSc. Selma Torquato da Silva, Ingrid Carolline Soares Tiburcio, Gabriela Quintela Cavalcante Correia e Rafael Costa Tavares de Aquino

–A Química dos Alimentos: carboidratos, lipídeos, proteínas, vitaminas e minerais Profª. Drª. Denise M. Pinheiro, MSc. Karla R. A. Porto e Maria Emília S. Menezes

–Plásticos: características, usos, produção e impactos ambientais Profª. Drª. Tania Maria Piatti e Prof. Dr. Reinaldo A.F. Rodrigues

–A Energia: dos tempos antigos aos dias atuais Prof. MSc. Antônio José Ornellas

Os autores

A série Conversando sobre Ciências em Alagoas é composta de cadernos que abordam seis temas científicos relevantes e atuais, tratados de maneira a destacar aspectos relacionados à realidade alagoana. Os cadernos temáticos foram criados com o intuito de contribuir com os professores e alunos de Ciências Naturais do ensino fundamental e médio, para a realização de um ensino contextualizado, interdisciplinar e motivador. A iniciativa surgiu da constatação de quão raras são as bibliografias disponíveis que tratam destes temas, direcionadas para o ensino básico e que abordem características e questões regionais. Esperamos que estes cadernos sejam fonte de atualização e aumentem o interesse de professores, alunos e do público em geral, em conhecer melhor o mundo em que vivem. Os temas abordados são os seguintes:

Este projeto foi uma iniciativa da Usina Ciência e do Museu de História Natural da

UFAL, sendo financiado pela Secretaria de Ensino Superior do MEC. Teve como ponto de partida a realização de um Ciclo de Palestras abordando todos os seis temas, durante o qual foi possível dialogar com professores do ensino básico a fim de descobrir seus anseios e expectativas. Gostaríamos de agradecer a todos que colaboraram para sua realização e esperamos que ele seja apenas o início de uma parceria mais efetiva entre Universidade e ensino básico em Alagoas.

conceito, importância e principais ameaças à Mata Atlântica Brasileira

O que é a Mata Atlântica? A resposta a essa pergunta, até pouco tempo, não era consensual, havendo divergências entre os pesquisadores das diversas instituições brasileiras. Como conseqüência, a área de ocorrência da Mata Atlântica também não era bem definida. Em 1988, com a promulgação da Constituição Federal, a Mata Atlântica recebeu status de “patrimônio nacional”; dessa forma, a definição do que realmente seria a Mata Atlântica deixou de ser apenas uma questão de interesse científico, tornando-se uma questão de interesse público. A sociedade brasileira necessitava de informações precisas para a regulamentação do uso e para a conservação desse complexo florestal.

No início da década de 1990 diversas iniciativas surgiram no Brasil, numa tentativa de encontrar uma definição consensual para o termo Mata Atlântica. Instaurou-se um processo de ampla discussão envolvendo o governo, a sociedade civil organizada e pesquisadores. A partir de critérios botânicos e fisionômicos, cruzados com dados geológicos, geográficos e, considerando ainda as questões relativas à conservação ambiental, chegou-se a uma definição ampla de Mata Atlântica que englobava diferentes tipos florestais. Essa definição foi posteriormente aprimorada e submetida ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), que a aprovou, em 1992, estabelecendo o conceito de Domínio Mata Atlântica. Dessa forma passou a ser considerada legalmente Mata Atlântica a área originalmente ocupada pelas seguintes formações florestais, publicadas no Mapa da Vegetação Brasileira do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1993: Floresta Ombrófila Densa; Floresta Ombrófila Mista, Floresta Ombrófila Aberta; Floresta Estacional Semidecidual; Floresta Estacional Decidual; Manguezais; Restingas; Campos de Altitudes; Brejos de Altitude e Encraves Florestais do Nordeste. Esse conceito foi incorporado à legislação brasileira através do Decreto Federal n° 750, de fevereiro de 1993.

À exceção dos brejos de altitude, ilhas de floresta que recobrem áreas serranas no semi-árido nordestino, o complexo vegetacional hoje reconhecido como Mata Atlântica era contínuo na época da chegada dos portugueses.

De acordo com a definição atualmente aceita, a Mata Atlântica ocorre hoje sobre áreas de 17 estados brasileiros, nas regiões Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul.

A área total do Domínio Mata Atlântica engloba uma extensa faixa latitudinal sobre áreas de solos com fertilidade e estrutura variáveis; além disso, pode-se encontrar variações climáticas bastante pronunciadas ao longo de sua área. Enquanto no Nordeste as temperaturas variam em torno de 24º C, nas regiões Sul e Sudeste podem chegar a 6º C. Em virtude dessas diferenças, a Mata Atlântica apresenta-se como um conjunto bastante diversificado de ecossistemas florestais, os quais têm como fator comum mais relevante a umidade, condicionada principalmente pela influência de massas de ar provenientes do Oceano Atlântico.

Veja, de uma forma simplificada, que áreas naturais são consideradas como da Mata Atlântica, segundo o IBGE.

Veja, de uma forma simplificada, que áreas naturais são consideradas como da Mata Atlântica, segundo o IBGE.

Floresta OmbrófilaDensa Floresta OmbrófilaDensa

Vegetação alta e densa, com a vegetação dos estratos inferiores em um ambiente sombrio e úmido e dependente da vegetação do estrato superior. Apresenta um grande número de lianas (cipós), epífitas e palmeiras.

Vegetação alta e densa, com a vegetação dos estratos inferiores em um ambiente sombrio e úmido e dependente da vegetação do estrato superior. Apresenta um grande número de lianas (cipós), epífitas e palmeiras.

Floresta OmbrófilaMista Floresta OmbrófilaMista

Clima ameno e solo rico e profundo. O estrato superior é constituído por pinheiro (Araucaria angustifolia), sob o qual surge um outro estrato arbóreo.

Clima ameno e solo rico e profundo. O estrato superior é constituído por pinheiro (), sob o qual surge um outro estrato arbóreo. Araucaria angustifolia

Floresta Ombrófila Aberta Floresta Ombrófila Aberta

Floresta de transição entre a ombrófila densa e a estacional.

Áreas com maior variação de temperatura e mais dias secos durante o ano.

Floresta de transição entre a ombrófila densa e a estacional. Áreas com maior variação de temperatura e mais dias secos durante o ano.

Floresta EstacionalSemidecidual Floresta EstacionalSemidecidual

Vegetações condicionadas por duas estações climáticas no ano:

uma bastante chuvosa; outra seca (ou com frio intenso, causando seca fisiológica).

Vegetações condicionadas por duas estações climáticas no ano: uma bastante chuvosa; outra seca (ou com frio intenso, causando seca fisiológica).

Formações Pioneiras (vegetação condicionada primariamente por características do solo)

Formações Pioneiras (vegetação condicionada primariamente por características do solo)

Manguezais Restingas

Áreas alagadasÁreas alagadas

Localizados ao longo dos estuários, apresentam uma comunidade vegetal bem adaptada, sujeita à influência das águas salobras.

Localizados ao longo dos estuários, apresentam uma comunidade vegetal bem adaptada, sujeita à influência das águas salobras.

Vegetação que ocorre sobre solo arenoso, em formação geológica de mesmo nome, ou sobre outras áreas arenosas contíguas, ao longo das áreas costeiras.

Vegetação que ocorre sobre solo arenoso, em formação geológica de mesmo nome, ou sobre outras áreas arenosas contíguas, ao longo das áreas costeiras.

Várzeas, brejos, planícies fluviais, lagoas, lagunas. Terrenos instáveis ocupados predominantemente por vegetação hidrófila.

Várzeas, brejos, planícies fluviais, lagoas, lagunas. Terrenos instáveis ocupados predominantemente por vegetação hidrófila.

RefúgiosBrejos de altitude Brejos de altitude

Manchas de vegetação florestal circundadas pela caatinga, situadas no Agreste e no Sertão nordestino, em altitudes superiores a 500m.

Manchas de vegetação florestal circundadas pela caatinga, situadas no Agreste e no Sertão nordestino, em altitudes superiores a 500m.

Encraves e zonas de tensão ecológica Encraves e zonas de tensão ecológica Encraves de cerrados, campos e campos de altitude compreendidos no interior de áreas de floresta. Encraves de cerrados, campos e campos de altitude compreendidos no interior de áreas de floresta.

1.1Cobertura florestal original e cobertura atual

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, a Mata Atlântica era parcialmente contínua, abrangendo aproximadamente 15% do território nacional. Seu manto florestal se estendia ao longo da costa e penetrava pelo interior, abarcando totalmente os atuais estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, e parcialmente os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

2Hoje restam cerca de 100 mil km, o que corresponde somente a 7,6% da área original. A cobertura remanescente não está distribuída uniformemente, uma vez que grande parte se concentra nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, recobrindo áreas de difícil acesso como a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira. Menos de 10% do que resta da Mata Atlântica está distribuída nos estados nordestinos. Considerando a grande abrangência de tipos diferentes de ecossistemas, os poucos fragmentos nesta região são testemunhos de um tipo diferenciado de floresta, sujeito a diferentes condições climáticas e edáficas. Há muitas espécies da Mata Atlântica que são endêmicas de fragmentos nordestinos e estão particularmente ameaçadas.

Veja como está distribuída a Mata Atlântica nos diferentes estados brasileiros:

Área

Unidade daoriginal

Federação (U.F.)Km²Km²% sobre a área% sobre área original da M.A. total da M.A.

FONTE: CAPOBIANCO, 2001 (dossiê Mata Atlântica).

1.2Importância da Mata Atlântica

A biodiversidade: um bem de grande valor

A Mata Atlântica, como toda floresta tropical, abriga um elevado número de espécies. Embora as florestas tropicais ocupem apenas 7% da superfície do planeta, elas abrigam aproximadamente a metade das espécies existentes. Essa diversidade deve-se principalmente à presença de uma classe de animais muito diversificada: os insetos. Muitos insetos vivem nas copas das árvores das florestas tropicais, raramente chegando ao solo. Devido às dificuldades para serem encontradas, muitas espécies de insetos permanecem desconhecidas para a ciência. Em quase todos os grupos de organismos a diversidade aumenta em direção aos trópicos.

Esse aumento é particularmente grande no caso das árvores. Para se ter uma idéia dessa diversidade, um grupo de pesquisadores conseguiu catalogar em um hectare de Mata Atlântica no estado da Bahia, 454 espécies de árvores, superando um recorde registrado na Amazônia peruana, com 300 espécies. Estes dados sugerem que a Mata Atlântica pode possuir a maior diversidade de árvores do mundo. Fazendo-se uma comparação, a estimativa de espécies em áreas florestais de clima temperado é inferior a 30 espécies por hectare.

Estimativas apontam que o Brasil possui cerca de 23% de todas as angiospermas do planeta e, talvez, em torno de 1/3 das angiospermas brasileiras esteja representada na Mata Atlântica.

Além da grande diversidade, a Mata Atlântica possui um alto grau de endemismo. O alto grau de endemismo associado ao risco de desaparecimento fazem com que a Mata Atlântica seja incluída na lista dos 25 Hot Spots de biodiversidade do planeta.

A fauna da Mata Atlântica exibe um gradiente de variação, abrigando diferentes centros de endemismo. Esta diferença faunística decorre do fato de os trópicos da América do Sul terem sofrido uma história de longa segregação geográfica durante o Terciário, e súbita reintegração no fim deste período. Durante a história geológica, o soerguimento de cadeias montanhosas e mudanças climáticas conduziram à retração das florestas e isolamento de suas faunas por longos períodos, seguidos por expansões das florestas e contato entre estes conjuntos faunísticos. Fato que justifica os padrões de divergência nas

Os Hot Spots são zonas de perigo, ou seja, áreas de elevada biodiversidade, sujeitas a um altíssimo risco de desaparecer. Para ser considerado um Hot Spot uma área deve possuir pelo menos 1.500 espécies de plantas endêmicas e já ter perdido mais de três quartos da sua vegetação original. No Brasil, dois biomas são incluídos entre os 25 Hot Spots do planeta: a Mata Atlântica e o Cerrado.

Os Hot Spots são zonas de perigo, ou seja, áreas de elevada biodiversidade, sujeitas a um altíssimo risco de desaparecer. Para ser considerado um Hot Spot uma área deve possuir pelo menos 1.500 espécies de plantas endêmicas e já ter perdido mais de três quartos da sua vegetação original. No Brasil, dois biomas são incluídos entre os 25 Hot Spots do planeta: a Mata Atlântica e o Cerrado.

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