Animais como indicadores

Animais como indicadores

(Parte 1 de 9)

1.Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.

SCLN 210,Bl.C,s.211.70862-530 Brasília,DF - Brazil. 2.Núcleo de Altos Estudos Amazônicos.

Univ.Federal do Para.66070-100 Belém,PA - Brazil. 3.Center for International Forestry Research. PO Box 6596 JKPWB,10065 Jakarta,Indonesia

Claudia Azevedo-Ramos1,2 Oswaldo de Carvalho Jr1 Robert Nasi3

Uma ferramenta para acessar a integridade biológica após a exploração madeireira em florestas tropicais?

Diretora Executiva do IPAM Dra.Oriana Almeida

Coordenadora do Programa de Biodiversidade Dra. Claudia Aze vedo-Ramos

Tradução Erika Pinto

Capa e Projeto Gráfico Raruti Comunicação e Design Diretora de Arte:Cristiane Dias Assistente: Rubens Maciel

Ilustrações da capa e miolo Glaucia de Barros (debar ros@imagelink.com.br)

IPAM Av. Nazaré, 669 Nazaré, Belém-Pará 6.035-170 Telefax:5 91 3283.4343

Filiais: SCLN 210 Bloco C - Sala 211 Brasília-DF 70.862-530 Telefax:5 61 3340.9992

Av.Rui Barbosa,136 - Prainha Santarém-P A 6.005-080 Telefax:5 93 522.538

Este estudo foi parcialmente escrito quando os dois primeiros autores estavam como pesquisadores-visitantes no Center for International Forestry Research (CIFOR),Bogor, na Indonésia,numa viagem apoiada pelo Instituto Internacional de Estudos Brasileiros (IEB) e CIFOR.Nós agradecemos Marieke Sassen pela revisão da versão em inglês do documento e quatro revisores anônimos por seus comentários.

União Européia

Preâmbulo Pr efácio Resumo 1. Intr odução 2. Metodologia

3. Resultados

Resposta dos animais à extração madeir eira In ver tebrados

Ver tebrados

Herpetofauna Aves Mamíferos

4. Discussão

Potenciais bioindicadores no manejo flor estal

Gargalos

Considerações práticas ao selecionar ou usar indicadores em manejo flor estal

5. Conclusões Referências(ver pág.60 na versão em inglês)

Aexploração madeireira é provavelmente a forma mais lucrativa de uso da floresta. Acessar como a exploração madeireira afeta a biodiversidade é, portanto, de extrema importância para a conservação e bom manejo. Um “bom” bioindicador deveria oferecer uma medida barata e integrada do status da saúde de um ecossistema. Poderia também ser usado como um indicador-substituto para avaliar mudanças em outros grupos animais. Neste estudo, nós revisamos a literatura recente sobre os efeitos da exploração madeireira sobre a fauna em florestas tropicais e avaliamos os custos e benefícios do uso de bioindicadores. Em sistemas de manejo, mudanças são, geralmente, desejáveis. O desafio, neste caso, seria determinar qual indicador facilitaria o acesso ao grau aceitável de modificação de um habitat. Neste contexto, parece que nós temos ainda um longo caminho a percorrer.

Os autores

Um canário dentro de uma mina de carvão, caindo do seu poleiro, historicamente indicava aos mineiros que suas vidas estavam ameaçadas por metano, monóxido de carbono e outros gases tóxicos, mas sem cheiro. A degradação de florestas tropicais através de fracas práticas de exploração madeireira tem estimulado a busca por bioindicadores de saúde do ecossistema florestal, como os canários das minas. Infelizmente, como os autores desse livro claramente explicam, não é provável que uma espécie animal que sirva como um indicador facilmente monitorado de ameaças à integridade da floresta será algum dia identificada. Florestas tropicais são tão diversas, as escalas espaciais e temporais em questão são tão amplas, e as intervenções de manejo as quais as florestas estão sujeitas são variadas demais para esperar que uma espécie animal ou mesmo uma guilda de espécies fará o trabalho do canário da mina. Além disso, como esclarecido nas páginas que virão, bons bioindicadores devem ser mais fáceis de medir do que as estruturas dos ecossistemas ou os processos em questão, enquanto fornecem informações úteis sobre outros taxa e processos ecológicos que são mais difíceis de monitorar – em outras palavras, eles deveriam levantar preocupações ambientais antes que impactos nocivos das intervenções florestais tornassem-se completamente aparentes. Enquanto os desafios de identificar bioindicadores apropriados forem substanciais, baseado nesta revisão crítica e pormenorizada de uma grande e crescente literatura sobre animais indicadores de impactos da exploração madeireira, os autores recomendam modos de evitar algumas das armadilhas nos estudos publicados. Enquanto mantêm seu otimismo, eles nos mostram que o canário ainda não está morto.

Francis (Jack) E. Putz Universidade da Florida

Uma pesquisa bibliográfica foi conduzida para avaliar as respostas da fauna à exploração madeireira e a efetividade de bioindicadores como ferramentas para estimar a conservação da biodiversidade em florestas tropicais exploradas. A pesquisa indicou que estudos sobre o impacto da exploração madeireira sobre artrópodes e herpetofauna estão sub-representados. Mamíferos são o foco principal dos estudos direcionados aos efeitos da exploração madeireira sobre a fauna. De forma geral, a extração madeireira realmente afeta alguns animais, mas a resposta varia entre e dentro de grupos faunísticos. Ainda, a maioria dos estudos conduzidos até agora varia muito em relação às estruturas das florestas, taxa estudado, metodologias, intensidade e histórico da exploração, resultando numa ausência de comparabilidade entre eles. Poucos estudos têm investigado relações entre mudanças na composição de grupos animais e a significância funcional destas mudanças, nem mesmo tem correlacionado efeitos com mudanças ambientais pós-extração de madeira, dificultando a determinação da relação entre causa e efeito. Outras dificuldades encontradas foram: complexidade taxonômica, número pequeno de pessoas treinadas, custos do monitoramento das tendências demográficas, falta de informação sobre as relações entre mudanças em diferentes grupos e falta de congruência entre escalas tradicionais de pesquisa (“plots”) e escalas apropriadas para manejo da paisagem. O conjunto destas dificuldades sugere que, até o momento, indicadores faunísticos para monitorar a conservação da biodiversidade no processo de exploração madeireira poderiam ser ineficientes de serem implementados em manejos florestais. Neste contexto, o desenvolvimento de indicadores continua a ser uma questão crítica e necessária em ecologia de florestas. Entretanto, é bom ter em mente que em sistemas de manejo, onde mudanças são comumente inevitáveis e desejáveis na maior parte do tempo, os indicadores propostos estariam, na verdade, desempenhando seu papel de sinalizadores enquanto facilitando o acesso ao grau aceitável de modificação de um habitat. Enquanto isso, inventários mais amplos são, ainda, necessários para estimar o status da biodiversidade em operações florestais.

INTR ODUÇÃO01 INTR ODUÇÃO01

Aexploração madeireira é, provavelmente, a mais lucrativa e popular forma de uso florestal.

Entretanto, ela pode ter grande impacto ambiental já que afeta muitos atributos florestais, como estrutura, composição e função (Putz et al., 200). Uma vez que a extração madeireira continuará e áreas protegidas serão sempre insuficientes para assegurar a proteção de uma vasta porção da biodiversidade da floresta tropical, esforços são necessários para garantir, na maior proporção possível, a conservação da diversidade nativa em florestas de produção. Avaliar como a extração madeireira afeta a biodiversidade é, dessa forma, de fundamental importância para a conservação e um bom manejo. Neste sentido, nosso objetivo aqui é determinar o status de conhecimento e a efetividade de indicadores faunísticos como ferramentas para monitorar a conservação da biodiversidade em florestas tropicais exploradas.

Bioindicadores são espécies ou grupos taxonômicos superiores com características (como presença/ausência; densidade populacional, dispersão, sucesso reprodutivo) que podem ser teoricamente usadas como um índice para outros atributos ecossistêmicos mais difíceis ou caros de mensurar (Landres et al.1988; Hilty e Merenlender, 2000). Um “bom indicador”, pelo menos teoricamente, ofereceria uma medida barata e integrada do status de um dado ecossistema após a perturbação. Poderia também ser usado como um substituto para avaliar mudanças em outros grupos de animais (Block et al., 1987; Lawton et al., 1998).

Os animais têm uma longa história na avaliação das respostas de ecossistemas às perturbações ambientais (Rosenberg e Resh, 1993; Williams, 1993; Spellerberg, 1993; McKenzie et al., 1995), mas preocupações em relação à sua efetividade têm sido o foco de muitos debates (Landres et al., 1988; Landres, 1992; Pearman et al., 1995; Simberloff, 1998). Muitos grupos animais ou espécies têm sido propostos como indicadores da qualidade ambiental. Autores, geralmente, defendem o uso de um dado táxon como um indicador oferecendo uma lista de várias características (como, por exemplo, comportamento de especialista, sensibilidade à mudanças de habitat, ampla distribuição), mas nem sempre expressam claramente o que o indicador proposto realmente indica. Na verdade, poucos estudos abordam a questão essencial sobre a correlação entre o status do indicador e as mudanças nas variáveis ambientais.

Algumas revisões têm abordado o impacto da exploração madeireira sobre a fauna (Johns, 1997; Putz et al. 2000), mas uma análise de bioindicadores no manejo florestal e sua efetividade para programas de monitoramento ainda é rara na literatura (mas veja Lindenmayer et al., 2000).

Animais como Indicadores

Enquanto o desmatamento, e mesmo a redução do dossel das florestas, podem ser medidos por satélite, e mudanças no ciclo biogeoquímico podem ser vistas nos cursos d’água que drenam cabeceiras ocupadas, tem sido muito mais difícil identificar técnicas robustas para monitorar o status de assembléias de plantas ou animais de um ecossistema, especialmente quando envolve o empobrecimento crítico da floresta, como pode acontecer após a retirada de madeira.

Neste trabalho, nós pesquisamos a literatura atual para comparar a resposta dos animais à exploração madeireira em regiões tropicais. A partir daí, nós avaliamos se alguns dos animais estudados podem ser potencialmente usados em programas de monitoramento para o manejo florestal sustentável, analisando as vantagens e desvantagens no uso da fauna como indicador. Finalmente, nós identificamos algumas lacunas e fizemos recomendações específicas para futuros estudos.

Animais como Indicadores

MET ODOLOGIA02 MET ODOLOGIA02

Nós analisamos 90 revisões, artigos e notas publicadas nos últimos 20 anos que trataram da relação entre a espécie alvo ou comunidade e o manejo florestal ou exploração madeireira em florestas tropicais nativas, na busca por espécies ou grupos de espécies que poderiam indicar a integridade da comunidade (em termos de diversidade animal, composição e abundância) após a floresta ter sido explorada. A pesquisa bibliográfica foi feita usando periódicos indexados e a combinação de palavraschave (por exemplo, “indicadores”, “exploração madeireira”, “floresta tropical”, “manejo florestal”). Nós também encontramos outras literaturas relevantes através de citações dentro dos artigos encontrados na busca primária.

Nós analisamos os estudos através de quatro principais aspectos para torná-los comparáveis dentro do mesmo grupo e ajudar na avaliação de variáveis de previsão: (1) o táxon ou grupo alvo (espécies, grupos funcionais, comunidades); (2) o efeito da extração madeireira sobre a espécie alvo (ou grupos) baseado em: tempo desde a exploração, intensidade de exploração, área ou esforço amostral, fatores envolvidos (ex: exploração madeireira, fogo, conversão para outros ecossistemas) e variáveis analisadas (ex: riqueza, abundância, composição); (3) a correlação da resposta com qualquer mudança específica nas variáveis ambientais (ex: temperatura, umidade, calor,

Animais como Indicadores cobertura vegetal); (4) a possibilidade de uso de um indicador como substituto de outros grupos. Obviamente, nem todos os estudos incluíam resultados para todos os quatro aspectos. Ainda, como os artigos variavam no grau de detalhe informado para cada variável analisada, nós optamos por incluir mais informação detalhada onde fosse possível e usar comentários gerais para os efeitos (exemplo: “baixo”, “alto”, “sim”, “não”) quando apenas afirmações subjetivas foram usadas no artigo (ver tabelas). Nós simplificamos os critérios previamente sugeridos para a determinação de indicadores devido a conflitos entre eles e controvérsias entre autores sobre o melhor critério a ser usado (ver Hilty e Merenlenger, 2000 para uma revisão mais ampla). Por isso, nós escolhemos aqueles critérios mais amplamente aceitos e consideramos como bons indicadores do status da floresta após a exploração madeireira taxa que tenham (1) boa informação sobre a história natural, (2) atributos práticos (exemplo: fácil de encontrar e mensurar) e (3) correlação com as mudanças no ecossistema estabelecida e, por isso, habilidade para funcionar como um alerta precoce para impedir mudanças críticas nos grupos de plantas e animais, ou no ecossistema com um todo. Atributos secundários, como ampla distribuição, especialização, baixa mobilidade e baixa variabilidade (Noss, 1990; Pearson e Cassola, 1992; Spector e Forsyth, 1998), foram usados para reforçar ou descartar o uso de um grupo

Animais como Indicadores taxonômico específico após os três principais critérios terem sido alcançados. Nós procuramos por uma resposta consistente de uma espécie ou grupo à exploração madeireira e às mudanças de habitat. Por razões práticas e uso efetivo nas operações florestais, um bom indicador deveria oferecer um método barato para detectar mudanças na composição de espécies que complemente técnicas que monitorem com sucesso os aspectos estruturais e funcionais dos ecossistemas. As informações sobre as características das espécies foram obtidas nas publicações. Embora isto possa subestimar o conhecimento existente sobre alguns critérios, muitos artigos comumente as discutem de forma até ampla enquanto abordam o papel dos indicadores ou o impacto de distúrbios em florestas sobre a fauna.

Animais como Indicadores

RESUL TADOS03 RESUL TADOS03

Resposta da fauna à exploração madeireira

In ver tebrados

Os efeitos da exploração madeireira sobre os invertebrados da floresta (aproximadamente 15% dos artigos analisados) ainda são pouco compreendidos. Há uma grande variabilidade entre os poucos estudos que abordam esta questão em termos de tempo desde a exploração, intensidade da exploração e grupos taxonômicos estudados, e muitos destes estudos continham baixo esforço amostral, possivelmente gerando dúvidas sobre as conclusões (ver tabela 1, p. 2-25)

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