Cinema, Arte e a Geografia no Cinema de David Lynch

Cinema, Arte e a Geografia no Cinema de David Lynch

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GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 15, p. 1-18, 2004 GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 15, p. 1-18, 2004

GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 15, p. 1-18, 2004

CIÊNCIA, ARTE E A GEOGRAFIA NO CINEMA DE DAVID LYNCH Pedro P. Geiger *

*Pesquisador associado ao LAGET/Universidade Federal do Rio de Janeiro.

RESUMO: As correspondências entre Geografia e Cinema são densas, cobrindo temas do espaço vivido e das representações do espaço. Este trabalho procura discutir as relações entre Geografia e Cinema em uma perspectiva filosófica das relações Arte/Ciência. PALAVRAS-CHAVE:

Geografia, representação, cinema, arte, espaço geográfico.

ABSTRACT: The correspondences between Geography and Cinema are dense. They cover a range of lived space and representations of space issues. This work discusses the geography and Cinema relationships upon philosophical perspective of the Art/Science relations. KEY WORDS:

Geography, representation, Cinema, Art, geografic space.

1. Introdução. Especificidade tecnológica do cinema.

A luz da sala é apagada para se dar início à sessão de cinema. A escuridão é similar à que reina no Cosmos, e que será quebrada pelo jato de luz do projetor, lançando suas imagens sobre a tela. Não importa que as imagens projetadas descrevam atos vividos que se desenvolvem em velocidades distintas; o rolo do filme continuará girando em um ritmo uniforme Como o faz a Terra, em seus movimentos uniformes, embora, sobre a sua superfície, os acontecimentos estejam se desenrolando segundo velocidades variadas.

Cada arte possui a sua especificidade tecnológica, condicionadora de suas possibilidades de linguagem, sendo que já existe vasta literatura, estrangeira e brasileira, tratando deste tema particularmente, é grande a literatura sobre as possibilidades que a tecnologia da produção cinematográfica oferece para a sua linguagem e para o sentido de sua produção.

O cinema é uma arte que trabalha com a imagem construída, regra geral, por um conjunto de fotografias que foram tomadas de forma sequencial e impresso sobre uma fita de celulóide. (No chamado ‘desenho animado’ uma sequência de desenhos substitui a sequência fotográfia).

As fotografias, ao serem transportadas através de um projetor e numa certa rapidez, da fita para uma tela, criam uma imagem virtual que parece animada de movimento. Teatro, música, também lidam com movimento e tempo, mas, transcorrem num espaço limitado. O cinema também se realiza num espaço limitado, porém pode fazer o espectador se deslocar virtualmente por todo o espaço geográfico, por

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todo o tempo histórico. Dada esta possibilidade, o cinema também é utilizado para produzir documentários. Haverá arte na produção de um documentário cinematográfico, do mesmo modo em que há arte na produção do formato de um jornal. O fato de se poder movimentar, tirando fotografias através de vastos espaços geográficos, e depois poder reuni-los num único filme, significa poder utilizar uma enorme quantidade de significantes numa mesma representação. Por outro lado, se o cinema pode servir ao trabalho da documentação, por outro lado, com o jogo de montagem das imagens é possível praticar o ilusionismo, como nas artes plásticas.

Com a capacidade de produzir as representações fotográficas do espaço real, o cinema pode abranger tanto o quadro natural, como o espaço construído, assim como cobrir as experiências vividas da população, inclusive as suas práticas do imaginário e do simbólico. Ele o faz, quer na forma de documentário, quer na forma de ficção. São estes os fatos que fazem dizer do cinema, que é como se ele possuísse um movimento que o faz “sair dos limites do campo da Arte, como se passasse a explicar”, expressão de Michael Fried e citada por Steven Connor (Connor, 1996,127). Como se saísse do ‘seueu-em-si-mesmo essencial’, expressão de Heidegger (Heidegger, 1966). Resulta em estabelecerem relações específicas entre esta área do campo da arte e as áreas do campo da ciência social, com a área da Geografia, em particular.

Regra geral, a produção cinematográfica compreende a utilização de uma câmara que fotografa em série, realizando uma representação do espaço. A observação continuada do espaço é também um aspecto da tarefa geográfica, que muitas vezes ilustra fotograficamente as suas proposições. Mais uma vez são constatados pontos de encontro da Geograifa com o cinema. No presente trabalho pretende-se explorar o tema das relações entre a Geografia e o Cinema no contexto da perspectiva filosófica das relações Arte/Ciência. Mostra-se como algumas proposições correntes do pensamento geográfico podem receber apoio e serem reconstruídas, a partir do cinema de David Lynch.

2. Arte e Ciência. Geografia e Cinema. 2.1. O visível e o invisível.

No filme Cidade dos Sonhos, Mullholand

Drive, há uma seqüência que se inicia com um casal de idosos e uma jovem loura saindo do aeroporto de Los Angeles. O trio conversa anima-damente, enquanto caminha, e a primeira impressão é de que se trata de um grupo familiar, ou de pessoas que se conhecem. Alcançada a saída do prédio, o trio se detém e começam as despedidas, os velhos desejando todo o sucesso e as felicidades para a jovem. O espectador percebe então que foi induzido ao erro, através das aparências produzidas na construção da cena. Na verdade, tratava-se de uma daquelas conversas animadas que se estabelecem entre pessoas sentadas próximas entre si, em situações como as que se reproduzem numa viagem de avião. Este é um dos jogos do cinema, confundir a verdade e o falso através da aparência, ou através dos incontáveis ‘truques’ que a tecnologia cinematográfica dispõe.

É interessante lembrar um momento vivido pela Geografia, quando a questão de interpretar o significado de formas convergentes, mas que podem partir de gêneses diversas, foi motivo de fortes controvérsias. Foi o caso do debate sobre a existência, ou não, dos ciclos de erosão, proposta da teoria davisiana, apoiada sobre formas morfológicas. Teoria que foi contestada pela chamada “escola morfoclimática”.

A seqüência do filme acima descrita mostra um comportamento que ocorre em certos locais, como nos que a Geografia tem denominado de ‘não lugares’. A cena expressaria o que se define como ‘o visível’ da Arte . O ’não visível’ ficaria por conta do não enunciado, de que existe uma proposição que define ‘lugares’ e ‘não lugares’ (visível e invisível corresponderiam ao ‘apolíneo’ e ‘dionísico’), e que aquela cena descreveria o ‘não lugar’. ’Não lugares’ seriam aqueles lugares que não teriam, atrás de si, desenvolvimentos historicamente diferentes. Por isso, apresentariam aspectos comuns em suas paisagens e nos comportamentos de seus freqüentadores. Aeroportos, shoppings, seriam exemplos de ‘não lugares. ’

Ao estabelecer relações entre o visível e o invisível, o cinema constitui uma interação entre o ver imediato e sua significação, diz Jorge Barbosa, citando Psychoanalisis and Cinema, 1982, de C. Metz (Barbosa, 2000). Que “a imagem fílmica é um significador imaginário, tendo em vista o fato de que a realidade evocada está sempre ausente , apenas presente em nossas imaginação”. Na cena do aeroporto, a realidade evocada, a do ‘não lugar’, se encontra oculta, é sugerida. Neste ponto, vale lembrar uma frase de Deleuze e Guattari, de que “os estados das coisas, os objetos os corpos, os estados vividos, fornecem as referências de função”.(Deleuze e Guattari, 1992: 195).

2.2. O espectador é quem interpreta.

Para o cinema, como área do campo das

Artes, é dito que “Toda leitura da imagem é produzida de um ponto de vista: o do sujeito observador”1. É o espectador quem constrói e localiza o significado de um filme. Neste sentido se distancia da Geografia. O cinema, como a Arte, em geral, não produz proposições, uma função das ciências. Na Arte se expressa, basicamente, ‘afectos’ e ‘perceptos’ que se encontram contidos nos objetos, ou nas idéias que constrói. Deleuze e Guattari se utilizam da palavra ‘perceptos’, para distinguir de percepções, pois estes serão vividos pelo espectador. Os perceptos não são propriamente as percepções, pois são independentes do estado daqueles que os experimentam, são fabricados pelos autores das obras. Já “Os afectos não são mais sentimentos, ou afeições, pois transbordam a força daqueles que são atravessados por eles. As sensações, perceptos e afectos, são seres que valem por si mesmos, e excedem qualquer vivido. Encontram-se na obra, não no criador, fazem da obra de arte um ser de sensação, e nada mais, que existe em si. Caberá ao espectador captar sentimentos, afeções”.

(Deleuze e Guattari, 1992: 213).

De certo modo, estas diferenças entre

Arte e Ciência explicam a freqüentação de um público maior para a primeira, em comparação à segunda.

2.3. Os planos da Filosofia, da Ciência e da Arte.

Deleuze e Guattari definem estas três formas do pensamento como sendo criações humanas para enfrentar o caos.

A Filosofia querendo salvar o infinito, dando-lhe consistência. Ela traça um plano de imanência, até ao infinito, de onde faz surgirem os ‘acontecimentos’, com os seus conceitos consistentes.

A Ciência não tem por objeto os conceitos, propriamente, mas as funções, que nos seus sistemas discursivos se apresentam como proposições. Ela define o estado das coisas, suas funções e lança proposições referenciais. Para esta tarefa, ela não necessita da Filosofia, pode renunciar às questões do infinito, desnecessárias para referenciar os seus objetos. Por exemplo, o geógrafo pode estudar um determinado território, propor-lhe funções, sem necessariamente, ter que conceituar sobre o espaço, em termos filosóficos.

Quanto à Arte, ela traça um plano de composição que carrega sensações que atingem afeções e com os quais constrói monumentos. Ela cria no finito, mas tenta re-estruturar no infinito.

O filósofo apresenta as variações. O cientista comparece com as variáveis e se ocupa dos processos de formação. Quanto ao artista, citando Paul Klee, ele produz variedades, apresenta as formas acabadas. Os objetos de arte se conservarão enquanto se conservarem seus suportes materiais. Florença muda ao longo do tempo, mas o Davi de Miguel Ângelo se mantém o mesmo.

Contudo, se os três pensamentos não se sintetizam, nem se identificam uns com os outros, no entanto, os autores citados o afirmam, eles se cruzam e se entrelaçam,

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formando rico tecido de correspondência, que se estabelece entre os três planos, e dando margem a uma rede com pontos culminantes. Quando um objeto é cientificamente construído por funções, é válido buscar-se um conceito filosófico para o mesmo, o que não foi dado pela função. Este será um ponto culminante da rede. Assim, ocorrerão pontos culminantes quando um conceito for o conceito de uma função, ou de uma sensação; quando uma função for função de um conceito ou de uma sensação, e quando a sensação for sensação de um conceito ou de uma função.

Continuam Deleuze e Guattari afirmando que cada elemento criado sobre um dos planos apela por outros elementos, heterogêneos, que restam por criar sobre os outros dois planos. Um elemento não aparece sobre um plano sem que o outro possa ainda estar por vir, em outro plano, ainda indeterminado, ou desconhecido. Assim, o pensamento aparece como heterogêneo.

No entanto, os citados autores apontam para os perigos que podem decorrer da falta de um cuidado maior quanto ao significado deste entrelaçamento dos três planos, quanto a estes pontos culminantes da rede por ele formada. Eles podem reconduzir à uma opinião da qual se queria sair, ou precipitar no caos que se queria enfrentar. (Deleuze e Guattari, 1992: 151-256). Esta advertência é importante quando se notam movimentos no campo da Geografia que visam reencontros com a arte, como na ‘Apresentação’, da publicação Geografia e Arte, em que pede pelo resgate da “beleza e o prazer da geografia” (Paz, e Ricoca, 1996 :3). Propõe-se viver as sensações ao tempo em que se propõem as funções.

2.4. Geografia e Arte, com maiúscula e com minúscula.

Um número crescente de geógrafos vem se posicionando a favor da ‘ampliação do diálogo da Geografia com a Arte’. Tendência que vem refletindo uma condição geral contemporânea, e que vem sendo designada de pós moderna.

A crítica ao cientificismo; a relativização dos princípios da causalidade e da determinação, particularmente, quando aplicados em processos sociais; a maior valorização do papel dos agenciamentos, para serem considerados, tanto quanto as estruturas nos processos sociais; o esmaecimento, no próprio pensamento marxista, do limite entre infra estrutura e super estrutura (Cosgrove, 1998), são alguns dos pontos que sustentam uma corrente de pensamento na qual se inserem novas tendências da Geografia.

Na já citada Apresentação de Geografia e

Arte, se manifesta “Contra a ciência positivista. Em prol das explicações que privilegiem o sujeito e seus sentimentos. Pela fusão entre ciência e arte. Na tentativa de explicação de um imaginárioreal e principalmente, pela necessidade de se resgatar a beleza e o prazer da geografia”. Nesta mesma publicação, num dos seus artigos, lê-se que é importante “ver o mundo pelos olhos da Arte, tanto quanto a arte vê o mundo pelos olhos da Geografia. Fundir num só os olhares imagéticos sobre os espaços da geografia, ciências sociais, literatura, pintura, cinema, arquitetura, veres geográficos”. E mais, que “Acostumados com o objetivo que impregnou o mundo da ciência, dissociamos no mundo o que é dela e o que é da arte. Não nos indagamos se não é este o nó cego que, até agora, afastou o olhar do geógrafo da capacidade de ver e acompanhar o mundo como o espaço tenso do ser contraditório” (Moreira, 1996:41 e 48).

Valeria lembrar, no entanto, como foi visto mais acima, que não se trata propriamente de realizar fusões, nem de sintetizar os pensamentos da Geografia e das Artes. O geógrafo observa o espaço geográfico, a geografia, de ‘g’ minúsculo, e elabora a partir de sua observação geográfica, uma Geografia, a de ‘G’ maiúsculo. O artista pode recorrer, também, ao espaço geográfico para a sua inspiração, à geografia de minúscula. Contudo, não necessita, forçosamente, de recorrer à Geografia maiúscula (à interpretação preparada pelo geógrafo. Sobre esta questão, a das palavras iniciadas com o uso de maiúsculas, ou minúsculas, ver, por exemplo, no filósofo Martin Heidegger).

No entanto, e ainda em concordância com o que fora dito anteriormente, o importante é estabelecer ‘um tecido de correspondência’ entre os dois pensamentos, ou melhor, entre os três, o científico, o artístico e o filosófico. Um texto geográfico deve conter estilo, pode transmitir prospectos e afectos, estimular conceitos. O desenvolvimento cultural contemporâneo se desloca nesta direção através de uma interdisciplinaridade crescente. No próprio campo da Arte se observam os artistas se apropriando dos denominados mídia (não considerados como da tradição da arte) e de métodos de outras práticas, vindas das ciências sociais, da Antropologia, da Lingüística, por exemplo. Acoplado a este desenvolvimento, observa-se, nos tempos atuais, a diversidade na multiplicação da identidade dos artistas. Leonardo da Vinci foi uma exceção, no passado, alguém voltado para os meios não usuais da Arte. Hoje multiplicam-se os artistas que ocupam cadeiras de professores nas Universidades.

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