Manejo e Nutrição de Peixes em Tanques-rede

Manejo e Nutrição de Peixes em Tanques-rede

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Salaro, A.L., 2009 MANEJO E NUTRIÇÃO DE PEIXES EM TANQUES-REDE

Introdução

O uso de tanques-rede é uma das formas mais intensiva de criação de peixes.

Neste sistema a água circula de forma livre e constante, permitindo a remoção total dos metabólitos e o aporte de oxigênio aos peixes (Belveridge, 1996), o que possibilita a utilização de altas densidades de estocagem, as quais podem chegar a 500 peixes/m3 e produtividade de 300 kg/m3. Entretanto, a densidade de estocagem de cada tanque-rede dependerá do tamanho do tanque-rede, da fase de crescimento e do peso desejado para a despesca final dos peixes.

A possibilidade de utilização de áreas represadas, lagos, lagoas e rios torna desnecessária a construção de viveiros e o alagamento de novas terras, possibilitando o aproveitamento de ambientes aquáticos já existentes. Porém, é importante salientar que não são todas as águas represadas ou rios que são propícias para este fim. Antes da implantação dos tanques-rede é necessário um estudo minucioso das condições do local, principalmente, em ambientes naturais, em função da dificuldade em controlar a qualidade de água nestes ambientes (Beveridge, 1996; Hugueni, 1997).

Os locais destinados a implantação dos tanques-rede devem ser avaliados em relação às características limnológicas, à capacidade de assimilação de matéria orgânica pelo sistema e às comunidades fitoplanctônicas, zooplanctônicas e bentônicas do local, para que se possa determinar a capacidade de sustentação do sistema. Assim, é possível determinar a capacidade máxima produtiva sem que ocorra prejuízo nas condições ambientais, na produtividade e na viabilidade econômica do sistema implantado (Kubitza et al., 1999). Ono & Kubtiza (2003) sugerem que a biomassa econômica estaria entre 60 a 80% da capacidade de sustentação do tanque-rede.

O mercado consumidor e o valor comercial da espécie a ser criada também devem ser pesquisados antes do início de qualquer tipo de criação, pois determinarão o escoamento da produção e obtenção de lucros com a atividade (Salaro e Lambertucci, 2005a, b).

1. Departamento de Biologia Animal – Universidade Federal de Viçosa, Av. P.H. Rolfs s/n, 36570- 0, Viçosa, Minas Gerais, e-mail: salaro@ufv.br

Salaro, A.L., 2009

É possível assegurar que a criação de peixes em tanques-rede apresenta vantagens quando comparada com a convencional como: rapidez de implantação e custo relativamente baixo, controle da densidade de estocagem e da sanidade dos peixes, alta produtividade, facilidade de manejo e despesca, além da utilização de áreas já alagadas e não destinadas a produção agrícola (Ayrosa et. al., 2005).

A escolha da espécie a ser criada será fundamental para o sucesso da produção.

Os peixes devem apresentar características como adaptação ao adensamento, pronta aceitação de rações comerciais, alta taxa de crescimento, bom rendimento de carcaça, tolerância ao manuseio e resistência a doenças, além de apresentar características organolépticas favoráveis (Salaro e Lambertucci, 2005b). Tais características devem ser consideradas no momento do planejamento da criação de peixes em tanques-rede.

Entre as espécies com potencial zootécnico para a criação em tanques-rede, destacam-se a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) e os surubins (Pseudoplatystoma corruscans e P. fasciatum). Espécies como os lambaris (Astyanax sp), piracanjuba (Brycon orbingyanus), pacu (Piaractus mesopotamicus), tambaqui (Colossoma macropomun), pirarucu (Arapaima gigas) entre outras, vêm sendo criadas em tanquesrede, apresentando bons resultados zootécnicos. Porém, ainda há necessidade de estudos detalhados a fim de identificar vantagens e limitações do uso de tanques-rede para essas espécies, em relação à criação em viveiros (Salaro e Lambertucci, 2005b).

Espécies de águas frias ou marinhas como o salmão (Salmo salar) e a truta arcoiris (Oncorhynchus mykiss), se adaptam bem neste sistema de criação. A criação de salmonídeos em tanques-rede em países como Chile, Noruega e Canadá, se encontra em escala industrial. Porém, no Brasil, apesar do potencial para a exploração de ambientes marinhos, são poucos os empreendimentos nesta área.

Associado a escolha das espécies, a qualidade dos peixes para o povoamento dos tanques-rede é essencial para o sucesso da produção. Animais apresentando lesões corporais ou erosões das nadadeiras devem ser descartados, assim como aqueles que apresentam manchas brancas, marrons ou pontos hemorrágicos pela superfície corpórea. Tais sinais indicam problemas na saúde e podem comprometer o crescimento dos peixes. Os peixes devem estar cobertos com escamas e muco, que são proteções naturais dos animais contra traumas mecânicos e/ou patógenos.

A compra dos peixes para o povoamento dos tanques-rede deve ser feita em firmas idôneas e de reconhecida qualidade de seus produtos. Peixes de boa qualidade genética respondem de forma positiva ao manejo intensivo adotado neste sistema

Salaro, A.L., 2009 possibilitam maior rendimento de carcaça. É preciso registrar a origem de cada lote de peixes adquiridos e o desempenho dos mesmos durante todo o processo produtivo, a fim de selecionar os melhores fornecedores para a sua criação.

A autorização de uso da água para a instalação e o licenciamento ao acesso territorial ao tanque-rede são fundamentais para a regulamentação da atividade. O licenciamento da piscicultura em tanques-rede irá garantir a preservação da qualidade do meio ambiente e o desenvolvimento econômico sustentável (Ayrosa et al., 2005).

O Brasil apresenta grande potencial para criação de peixes em tanques-rede em função de seus quase seis milhões de hectares de águas represadas em grandes açudes naturais e artificiais (Carneiro et al., 1999; Zaniboni Filho e Sampaio, 2004) como, por exemplo, em reservatórios das usinas hidroelétricas. O incentivo à implementação de pisciculturas em tanques-rede por Instituições Governamentais poderá contribuir para que o pescador torne-se um produtor, diminuindo, portanto a pesca predatória, contribuindo para a preservação de espécies nativas. Assim, torna-se fundamental um plano de ordenamento do uso racional da água e das espécies de peixes a serem criadas em tanques-rede em águas publicas, como a regulamentação dos empreendimentos em propriedades privadas. A geração de tecnologia acessível, assim como a instalação de novas unidades de processamento são imprescindíveis para a consolidação desta atividade no país.

Manejo alimentar e nutrição

As rações utilizadas na criação de peixes em tanques-rede devem ser de alta qualidade, nutricionalmente completas e enriquecidas com vitaminas e minerais, uma vez que, a ração é a única fonte de nutrientes para os peixes neste sistema. As rações disponíveis no mercado devem ser avaliadas pelo piscicultor, a cada lote adquirido, com base nas seguintes características: níveis de proteína e lipídeos, qualidade dos ingredientes utilizados, assim como o enriquecimento vitamínico e mineral, principalmente de vitamina C.

A proteína é um importante nutriente da ração. O uso indiscriminado das proteínas poderá torná-las um poluente em potencial ao meio ambiente, além de significar um encarecimento das dietas. O nível ótimo de proteína na dieta para peixes, assim como para outros animais, é influenciado pelo balanço dietário de proteína e

Salaro, A.L., 2009 energia, composição aminoácitica, digestibilidade da proteína e disponibilidade de fontes energéticas não protéicas como carboidratos e lipídeos (Wilson, 2002)

Teores inadequados de proteína em uma ração podem afetar negativamente o desempenho animal (Elangovan & Shim, 1997). Altos níveis de proteína resultam no aumento da concentração de aminoácidos livres no corpo do animal e consequentemente maior excreção de amônia (De Silva, 1995). A exigência por proteína diminui com o crescimento dos peixes (Dabrowski, 1986), sendo necessárias avaliações em cada fase de vida do animal.

Altos níveis de proteína geralmente causam desbalanço na relação energia proteína, fazendo com que os peixes supram suas necessidades de energia a partir da elevação do consumo de alimentos, piorando a conversão alimentar e reduzindo o ganho de peso (Cyrino et al., 2000).

O teor de energia de uma dieta poderá influenciar na deaminação da proteína como fonte de energia para o metabolismo (Hernandez et al., 2001). Se essa relação for deficiente em energia, o peixe irá usar primeiro a proteína como fonte de energia para mantença e depois para o crescimento. Em contrapartida, uma dieta contendo excesso de energia pode reduzir o consumo de ração pelos animais e dessa forma diminuir a ingestão da quantidade necessária de proteína e outros nutrientes essenciais ao crescimento e causar deposição excessiva de gordura (NRC, 1993). Portanto, o conhecimento do hábito alimentar e das exigências nutricionais dos peixes são fundamentais para definir os níveis de nutrientes que as rações devem conter com o objetivo de promover melhorias no desempenho do animal sem prejuízo a sua saúde e ao meio ambiente.

Rações inadequadas, quer por desbalanceamento ou por utilização de ingredientes de baixa qualidade, podem levar a diminuição do crescimento dos animais, deformidades anatômicas, distúrbios fisiológicos, canibalismo e até mesmo altos índices de mortalidade, os quais podem ser detectados rapidamente.

Sob condições intensivas de produção, a nutrição apresenta papel fundamental na manutenção da saúde e resistência dos peixes contra a ação de agentes patogênicos (Barros et al., 2007). Assim, o balanceamento de rações deve visar o máximo desempenho e estimular o sistema de defesa dos peixes, uma vez que, animais bem nutridos tem melhores condições de superar os efeitos do estresse (Barros et al., 2006; Barros et al., 2007), muito comum em peixes submetidos a altas densidades de estocagem.

Salaro, A.L., 2009

As deficiências e distúrbios nutricionais apresentados pelos peixes em sistemas intensivos de criação, geralmente, são decorrentes da falta ou excesso de vitaminas nas rações. As vitaminas são compostos instáveis e sujeitos a degradação (Tacon, 1992; NRC, 1993; Schimittou, 1995).

As funções imunológicas podem ser estimuladas com a suplementação das rações com imunoestimulantes, vitaminas, minerais, nucleotídeos e outros compostos (Barros et al., 2007). Dessa forma, é fundamental o entendimento das inter-relações entre os nutrientes e a ação destes na saúde animal, uma vez que o estado nutricional dos peixes é conseqüência direta e indireta da quantidade e qualidade dos nutrientes disponíveis na ração (Barros et al., 2007).

A presença de pedaços visíveis de milho ou trigo, por exemplo, são indicadores de que os ingredientes não foram adequadamente moídos, o que tende a reduzir o aproveitamento dos nutrientes pelos peixes. A coloração, uniformidade de tamanho, presença de finos e o cheiro são características complementares que também devem ser observadas.

A observação do comportamento dos peixes quanto a aceitação ou não do alimento, também ajuda na escolha correta das rações. A ração extrusada facilita a observação do consumo da mesma pelo tratador, sendo a mais indicada em criação de peixes em tanques-rede. A palatabilidade da ração influencia diretamente o consumo e o conseqüentemente o desempenho dos peixes.

O diâmetro do pelete das rações é outro aspecto importante na alimentação dos peixes. Esse deve ser compatível com o tamanho da boca do peixe. É importante salientar que com o crescimento dos peixes, a boca do animal também cresce, sendo necessária a adequação da ração. Peixes alimentados com peletes muito pequenos irão ter maior gasto energético para ingerir a quantidade necessária para suprir suas exigências nutricionais, enquanto que, quando estes são maiores que a boca do animal, os mesmos podem não ser ingeridos ou provocar lesões no tubo digestório ou mesmo provocar asfixia levando-os a morte, além de lixiviação de nutrientes.

A quantidade de ração fornecida aos peixes deve ser suficiente para o bom desenvolvimento dos animais. Portanto, o fornecimento do alimento deve atender as exigências dos peixes em qualidade e quantidade. Assim, a freqüência alimentar e a quantidade de alimento (taxa de arraçoamento) a ser oferecido em cada alimentação irá depender do manejo adotado, da espécie e fase de criação, recomendando-se de 2 a 5 vezes ao dia. O horário da alimentação também deve ser padronizado a fim de se

Salaro, A.L., 2009 condicionar o animal. Parâmetros da qualidade da água também interferem na quantidade de alimento consumido pelos peixes, principalmente temperatura e oxigênio dissolvido.

As observações de temperatura da água devem ser feitas antes do fornecimento da ração, uma vez que, a mesma influencia diretamente a alimentação dos peixes. Em temperaturas extremas, os peixes, geralmente não se alimentam. Cada espécie apresenta uma faixa térmica de conforto para a alimentação.

A alimentação pode chegar a representar cerca de 70% dos custos de produção (sistema intensivo). Esse alto custo pode ser minimizado com o manejo alimentar adotado e o uso de rações de qualidade e em quantidade apropriada. Tanto a falta quanto o excesso são prejudiciais aos peixes pelo não desenvolvimento de seu potencial produtivo.

Nas fases de recria e crescimento recomenda-se fornecer quantidade de ração correspondente a 3 e 6% da biomassa dos peixes por dia, respectivamente. Na engorda, recomenda-se fornecer quantidade de 2 a 3 % da biomassa dos peixes (peso vivo total) de ração por dia.

O armazenamento adequado das rações também contribui para melhores condições de saúde do animal e meio ambiente, por evitar o desenvolvimento de microrganismos produtores de toxinas e a perda de nutrientes importantes para o crescimento dos peixes.

O acompanhamento do crescimento dos peixes durante o ciclo de produção é importante para se evitar a desuniformidade do lote, evitando assim a competição entre os peixes, o que, na maioria das vezes, leva ao estresse dos animais e perdas durante o processamento em peixes destinados à produção de filés. Esse estresse pode ocasionar o enfraquecimento dos peixes, a queda no desempenho produtivo e instalação de doenças oportunistas.

Durante o período de engorda, é comum a realização de triagem dos peixes com o intuito de classificá-los por tamanho e peso. Tal procedimento tem a finalidade de acompanhar o desenvolvimento dos animais em suas várias fases de vida, separando-os em lotes homogêneos, obtendo assim sua padronização e consequentemente, comercialização de lotes uniformes. Durante a seleção dos peixes, costuma-se fazer a amostragem de cerca de 10% dos animais de cada lote (tanque-rede) para a averiguação do estado sanitário e nutricional do plantel, podendo, assim, interferir em tempo hábil,

Salaro, A.L., 2009 na produção, fazendo as correções necessárias na quantidade de alimento administrado e distribuição dos peixes nos tanques-rede.

O manejo alimentar adequado irá garantir o aproveitamento do potencial genético para crescimento dos animais, melhores condições de saúde, e como conseqüência permitir que os mesmos suportem as condições adversas do meio e resistam ao manuseio e transporte, evitando a instalação de doenças (Salaro et al., 2003), assim como contribuir para redução no desperdício da ração (Goddard, 1996; Cho et. al., 2003), diminuindo a poluição ambiental e reduzindo os riscos de um colapso do sistema.

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