Charlotte Bronte - Jane Eyre

Charlotte Bronte - Jane Eyre

(Parte 1 de 62)

Charlotte Brontë

JANE EYRE

Tradução Marcos Santarrita

Francisco Alves

Título original. Jane Eyre

Revisão Tipográfica: Márcia Cherman, Jorge A. Uranga

1983

Todos os direitos desta tradução reservados à:

LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S/A

Rua Sete de Setembro, 177 — Centro 20050 — Rio de Janeiro — RJ

DAS ABAS DO LIVRO:

As irmãs Brontë - Charlotte e Emily sobretudo — constituem um exemplo clássico do que se quer dizer quando se fala na palavra gênio. Filhas de um pároco de aldeia, criadas numa região rural da província inglesa de Yorkshire - que até hoje guarda algumas semelhanças com o nordeste brasileiro - dificilmente essas moças simples poderiam ter a experiência de vida e sociedade que demonstram, Charlotte em seus famosos Jane Eyre e Shirley, e Emily não menos célebre Morro dos Ventos Uivantes.

Talvez por isso haja, em ambas as autoras, uma certa ingenuidade, que leva literatos mais esnobes a fazerem-lhes restrições; mas pode-se dizer que é por isso mesmo que suas obras são tão famosas. O público sabe reconhecer o autêntico, e não vai atrás de sofisticações gratuitas, artifícios literários ou filosóficos, filigranas de beletrista.

Jane Eyre é uma narrativa simples, direta — a história de uma jovem órfã pobre e nada bonita (como a própria Charlotte, que por pouco não chegava a ser feia), e sua luta em busca de afirmação e dignidade, numa época - a vitoriana — e num país - a Inglaterra de até hoje — onde o sentimento de classe se ergue como uma barreira imposta não apenas de cima para baixo, mas também de baixo para cima.

Quando se fala em literatura vitoriana, geralmente se pensa em hipocrisia e moralismo, características que marcaram sobretudo essa época da história inglesa. Acontece, porém, que o grande artista jamais se submete às fronteiras e preconceitos de sua época: quando não sabe, intui "que os valores morais mudam, e que o que é crime hoje pode vir a ser obrigatório amanhã - é isso que constitui a sua grandeza.

A uma primeira leitura, Jane Eyre parece conformar-se inteiramente aos padrões morais de sua época. A heroína, ao descobrir que seu amado é casado com uma louca, impõe um terrível freio à sua paixão e vai-se embora, com a afirmação de que as leis são feitas para os momentos de crise, e não podem ser mudadas nesses momentos — uma total inversão, bem vitoriana, do bom senso, como se os homens fossem feitos para as leis, e não o contrário. Mas, no fim, mesmo sem saber que o amado está desimpedido, ela volta, disposta a arrostar todo o desprezo de sua sociedade. Assim, a contenção e a obediência iniciais servem apenas para acentuar a coragem de sua decisão final. Se há uma concessão, na eliminação do entrave, isso parece resultar mais de necessidades estruturais do romance do que de coerções morais. Para um vitoriano convicto, nem por isso o crime de Jane Eyre seria menor.

De qualquer modo, Jane Eyre, que a autora publicou inicialmente sob um pseudônimo masculino - Currer Bell — tornou-se um dos romances mais lidos da literatura universal, vencendo inclusive em reedições obras de autores mais prestigiados da época. Já mereceu pelo menos duas versões cinematográficas, uma americana e uma inglesa, além de uma grande superprodução da televisão BBC inglesa. E o seu segredo é um só: como todo grande romance, é a história de uma educação, o que significa de uma luta pela liberdade.

Marcos Santarrita

A

W.M. Thackeray, Esq.,

esta obra é

respeitosamente

dedicada

pelo Autor*

* As primeiras edições de Jane Eyre foram publicadas sob um pseudônimo — Currer Bell — masculino, e assim, as referências de Charlotte Brontë a si mesma, na dedicatória e nos prefácios, são feitas neste gênero. — N.T.

PREFÁCIO

COMO ERA desnecessário um prefácio à primeira edição de Jane Eyre, não apresentei nenhum; esta segunda edição, porém, exige algumas palavras, tanto de reconhecimento como de observações variadas.

Devo agradecimentos a três setores.

Ao Público, pela indulgente atenção que prestou a uma história simples, de poucas pretensões.

À Imprensa, pelo bom espaço que seu honesto sufrágio abriu a um aspirante obscuro.

Aos meus Editores, pela ajuda que seu tato, energia, senso prático e franca liberalidade concederam a um Autor desconhecido e sem recomendações.

A Imprensa e o Público são apenas vagas personificações para mim, e devo agradecer-lhes em termos vagos; mas meus Editores são bem definidos; como o são alguns críticos generosos, que me encorajaram como só os homens de grande coração e espírito elevado sabem encorajar um estranho esforçado; a eles, isto é, a meus Editores e aos seletos críticos, digo cordialmente: Cavalheiros, agradeço-lhes de coração.

Tendo assim reconhecido o que devo àqueles que me ajudaram e aprovaram, volto-me para outra classe: uma classe pequena, até onde sei, mas que nem por isso deve ser esquecida. Refiro-me aos poucos tímidos ou descontentes que duvidam da tendência de livros como Jane Eyre: a cujos olhos tudo que seja incomum é errado; cujos ouvidos detectam em cada protesto contra a intolerância mãe do crime um insulto à religião, essa regente de Deus na terra. Eu gostaria de sugerir a esses insatisfeitos algumas distinções óbvias; de lembrar-lhes certas verdades simples.

Convencionalismo não é moralidade. Farisaísmo não é religião. Atacar os primeiros não é agredir as últimas. Arrancar a máscara do rosto de um fariseu não é erguer mão ímpia contra a Coroa de Espinhos. Essas coisas e fatos são diametralmente opostos; tão distintos como o vício da virtude. As pessoas muitas vezes os confundem, e não se deve confundi-los; não se deve tomar a aparência pela verdade; não se deve substituir o credo de Cristo, que redime o mundo, por tacanhas doutrinas humanas, que apenas tendem a ensoberbecer e glorificar uns poucos. Existe repito uma diferença; e é uma boa ação, e não má, estabelecer ampla e< nitidamente uma linha de separação entre eles.

O mundo talvez não goste de ver essas idéias separadas, pois está acostumado a confundi-las; achando conveniente fazer a aparência externa passar por valor autêntico fazer paredes caiadas passarem por santuários limpos. Talvez odeie aquele que ousa examinar e denunciar, descascar o dourado e mostrar o vil metal por baixo, penetrar no sepulcro e revelar relíquias carnais; porém, por mais que o odeie, tem uma dívida com ele.

Ahab não gostava de Miquéias, porque jamais profetizava coisas boas a seu respeito, só más; provavelmente gostava mais do filho bajulador de Chenaannah; e no entanto ele poderia ter escapado a uma morte sangrenta, se tapasse os ouvidos à lisonja e os abrisse ao conselho fiel.

Existe um homem em nossos dias cujas palavras não se destinam a acariciar ouvidos delicados; que, em minha opinião, vem antes dos grandes da sociedade, do mesmo modo como Imlah precedia os reis entronizados de Judá e Israel, e que diz uma verdade tão profunda, com um poder tão semelhante ao dos profetas, tão vital, e com uma expressão tão destemida e ousada, quanto ele. O salirista de Feira das Vaidades é admirado em altos círculos? Não sei dizer; mas creio que, se alguns daqueles entre os quais ele lança o fogo grego do seu sarcasmo, e sobre os quais fulmina o raio de sua denúncia, levassem suas advertências a sério, eles mesmos ou sua progênie escapariam ainda de um fatal Ramoth-Gilead.

Por que me referi a este homem? Referi-me a ele, Leitor, pon que julgo ver nele um intelecto mais profundo e mais exclusivo que o reconhecido por seus contemporâneos; porque o encaro como o primeiro regenerador social de nossa época, como o próprio líder daquele grupo ativo que devolveria a retidão ao distorcido sistema de coisas; porque acho que nenhum comentarista de seus escritos descobriu a comparação que lhe serve, os termos que caracterizam corretamente seu talento. Dizem que ele é como Fielding; falam de seu espírito, seu humor, seus poderes cômicos. Ele se assemelha a Fielding como uma águia a um abutre; Fielding curva-se até a carniça, mas Thackeray não. Seu espírito é brilhante, seu humor atraente, mas ambos mantêm com seu gênio sério a mesma relação que o simples reflexo do relâmpago na borda de uma nuvem de verão mantém com a mortal faísca elétrica em seu bojo. Finalmente, referi-me ao Sr. Thackeray porque a ele se ele aceitar o tributa de um total estranho dediquei esta segunda edição de Jane Eyre.

CURRER BELL

21 de dezembro de 1847

NOTA À TERCEIRA EDIÇÃO

VALHO-ME da oportunidade que me apresenta uma terceira edição de Jane Eyre, de novamente dirigir uma palavra ao Público, para explicar que meu direito ao título de romancista se apóia nesta obra apenas. Assim, se a autoria de outras obras de ficção me tem sido atribuída, trata-se de honra concedida a quem não a merece, e, em conseqüência, subtraída a quem justamente devida.

Esta explicação servirá para corrigir enganos que talvez já se tenham cometido, e para prevenir futuros erros.

CURRER BELL

13 de abril de 1848

CAPÍTULO 1

NÃO HAVIA possibilidade de dar um passeio naquele dia. Na verdade, pela manhã, tínhamos andado durante uma hora entre os arbustos desfolhados; mas depois do jantar (a Sra. Reed jantava cedo, quando não tinha visitas), o frio vento do inverno trouxera consigo nuvens tão sombrias, e uma chuva tão penetrante, que não se podia pensar em mais exercícios ao ar livre.

Isso me agradava; jamais gostara de longas caminhadas, especialmente em tardes frias; era terrível para mim voltar à casa no gélido crepúsculo, com os dedos das mãos e dos pés congelados, o coração entristecido pelas repreensões de Bessie, a babá, e humilhada pela consciência de minha inferioridade física em relação a Eliza, John e Georgiana Reed.

Os ditos Eliza, John e Georgiana reuniam-se agora em torno da mãe, na sala de estar: ela, reclinada num sofá diante da lareira, com seus queridos em volta (no momento nem brigando nem chorando), parecia inteiramente feliz. A mim, proibira-me de juntar-me ao grupo, dizendo que "Lamentava a necessidade de manter-me à distância; mas enquanto não falasse com Bessie e não descobrisse por si própria se eu tentava seriamente adquirir uma natureza mais sociável e infantil, maneiras mais atraentes e alegres — algo mais leve, mais franco, mais natural, por assim dizer — realmente tinha de me excluir dos privilégios destinados apenas a crianças contentes e felizes".

— Que foi que Bessie disse que eu fiz? — perguntei.

— Jane, eu não gosto de objeções e perguntas; além disso, existe alguma coisa de realmente desagradável numa criança que se dirige aos mais velhos dessa forma. Sente-se em alguma parte; c enquanto não souber falar de um modo agradável, fique calada.

Havia uma pequena sala de desjejum vizinha à sala de estar, e me esgueirei para lá. A sala continha uma biblioteca; logo me apoderei de um volume, cuidando de que fosse um livro cheio de figuras. Subi para o batente da janela; recolhendo os pés, sentei-me de pernas cruzadas, como um turco; e, tendo quase fechado a cortina de morim vermelho, fiquei abrigada em duplo retiro.

As dobras de tecido escarlate tapavam minha visão à direita; à esquerda, estavam as límpidas lâminas de vidro, que me protegiam, mas não me separavam, do melancólico dia de novembro. A intervalos, quando virava as páginas do livro, eu estudava o aspecto daquela tarde de inverno. À distância, ela apresentava uma pálida cortina de neblina e nuvem; perto, um cenário de grama molhada, com a chuva incessante açoitando selvagemente, impelida por uma longa e lamentosa ventania.

Retornava a meu livro — a História dos Pássaros Britânicos, de Bewick: com o texto, importava-me pouco, em geral; e no entanto, havia certas páginas de introdução que, apesar de criança, eu não podia passar inteiramente por cima. Eram as que tratavam das áreas de aves marinhas; das "solitárias rochas e promontórios" só por elas habitados; da costa da Noruega, pontilhada de ilhas desde o extremo sul, as Lindeness, ou Naze, até o Cabo Norte...

Onde o Mar do Norte, em enormes redemoinhos,

Fervilha em torno das nuas e melancólicas ilhas

Da distante Thule; e a vaga do Atlântico

Se despeja entre as tempestuosas Hébridas.

Tampouco poderia eu deixar de notar a sugestão das sombrias praias da Lapônia, Sibéria, Spitzbergen, Nova Zembla, Islândia, Groenlândia, com "o vasto círculo da Zona Ártica, e aquelas desoladas regiões de lúgubre espaço — aquele reservatório de gelos e neves, onde firmes campos de gelo, acumulados por séculos de invernos, vitrificados em alturas alpinas, cercam o pólo, e concentram os múltiplos rigores do frio extremo". Desses reinos brancos como a morte eu formava uma idéia própria: sombria, como todas as idéias mal compreendidas que pairam difusas no cérebro de uma criança, mas estranhamente impressionante. As palavras naquelas páginas de introdução se relacionavam com as sucessivas vinhetas, e davam significado à rocha que se erguia solitária num mar de ondas e espuma; ao barco despedaçado encalhado numa costa deserta; à lua fria e espectral que espiava por entre barras de nuvens um náufrago afundando.

Não sei dizer que sentimento rondava aquele cemitério solitário, com sua lápide inscrita; seu portão, suas duas árvores, seu baixo horizonte, rodeado por um muro quebrado, e seu crescente recém-saído, testemunhando a hora do entardecer.

Os dois navios retardados num mar entorpecido, eu julgava serem fantasmas marinhos.

O demônio levando a mochila de ladrão às costas, eu passava por cima rapidamente: era motivo de terror.

O mesmo acontecia com a coisa negra, de chifres, sentada à parte num rochedo, vigiando a distante multidão que cercava um patíbulo.

Cada figura contava uma história; muitas vezes misteriosa para meu entendimento não desenvolvido e meus sentimentos imperfeitos, mas apesar disso sempre de um profundo interesse:' tão interessante mesmo quanto as histórias que Bessie às vezes contava nas noites de inverno, quando acontecia estar de bom humor; quando, tendo trazido sua tábua de passar para o quarto das crianças, deixava que nos sentássemos ao redor, e enquanto aprontava os babados de renda da Sra. Reed, e pregueava as abas de suas toucas de dormir, alimentava nossa ávida atenção com trechos de amor e aventura extraídos de velhos contos de fadas e de baladas ainda mais antigas; ou (como descobri numa época posterior) das páginas de Pamela e Henry, Conde de Moreland.

Com Bewick sobre os joelhos, eu me sentia feliz então; feliz pelo menos à minha maneira. Temia apenas a interrupção, e essa veio cedo demais. A porta da sala de desjejum abriu-se.

— Bah! Senhora Pateta! — exclamou a voz de John Reed; depois ele parou, achou o quarto aparentemente vazio.

— Onde diabos está ela? — continuou. — Lizzy! Georgy! (chamando suas irmãs). Jane não está aqui, diga a mamãe que ela saiu para a chuva... animal ruim!

"Ainda bem que corri a cortina", eu pensava, e desejava ardentemente que ele não descobrisse o meu esconderijo; e John Reed não o descobriria por si mesmo; não tinha nem a vista nem a mente rápidas; mas Eliza acabava de pôr a cabeça na porta, e foi logo dizendo:

— Ela está no batente da janela, certamente, Jack.

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