Crítica ao Método Histórico Crítico

Crítica ao Método Histórico Crítico

FTBB – Hermenêutica / Crítica ao Método Histórico Crítico

Professor Valdeir Contaifer, pr. 

Introdução:

     O movimento de absolutização da racionalidade levou nos séculos passados a sociedade a rejeitar toda forma de explicação que não fosse “científica”. Este cientificismo estava aliado ao ceticismo (francês) e ao deísmo (inglês), bem como ao próprio humanismo que colocava o homem como centro do universo e sua mente como critério de julgamento para toda a realidade. O conceito de Revelação Bíblica não se encaixava na intelectualidade desta sociedade que se impôs, porque o sobrenatural não pode ser explicado em termos científicos. Então, uma ciência do espírito toma forma e dita as normas para que a interpretação da Bíblia pudesse ser aceita pela mentalidade moderna. O método histórico-crítico é resultado deste movimento histórico racionalista. 

A Pesquisa dos Séculos XVIII e XIX

     Johann Salomo Semler (1725-91), um teólogo alemão da Universidade de Halle, seguindo as tendências de seu tempo que dizia da importância de se estudar a Bíblia de forma neutra – e assim não considerar a Inspiração Divina – e da rejeição do aspecto miraculoso1 – que considera o sobrenatural como mito – ensinava que a Bíblia é um livro igual a todos os outros e que devia ser estudado como tal. Ele fez a separação dos conceitos Palavra de Deus e Escritura Sagrada, e desarticulou da hermenêutica o conceito de Inspiração.

     No século XIX dois teóricos – F.C. Baur e Julius Welhausen2 – aplicando a teoria histórica de Hegel – a história como um processo evolucionário e dialético – deram início a Teoria Documentária de Composição do Pentateuco. Segundo o desenvolvimento dessa teoria as fontes Javista, Eloísta, Deuteronômica e Sacerdotal (conhecida como JEDP) são identificadas com diferentes autores negando a autoria de Moisés3.

     Tudo havia começado através de um Médico francês, Jean Astruc, que havia formulado sua impressão de que no primeiro capítulo de Gênesis Moisés utilizara duas memórias principais e outras secundárias para redigir seu texto. Ele chamou de Fonte A, aquela que utilizava a palavra hebraica Elohim para referir Deus, e Fonte B, às partes do escrito que fazia uso do nome Yahweh. Logo seu argumento ganhou popularidade e expandiram sua idéia para todo o Pentateuco negando até a autoria mosaica4. Ainda Alexander Geddes, um padre católico da Escócia, dizia que havia fragmentos lendários de vários autores no Pentateuco que eram desconexos entre si, mas que ganharam forma a partir de um redator fixo. Ele sugeriu não um Pentateuco, mas sim que deveria ser pensada a existência de um Hexateuco5 composto durante o reinado de Salomão por um desconhecido. Tais teorias afastavam qualquer idéia de um cânone. O pressuposto da Inspiração sequer era mencionado entre os teóricos. Chegando ao ponto de Hartmann (1831) dizer que talvez a escrita fosse desconhecida no tempo de Moisés, sendo o Pentateuco constituído de vários documentos pós-mosaicos, com muitas adições, em tempos diversos, até formarem o Pentateuco que conhecemos hoje. 

     O descrédito a Bíblia era tal que Wilhelm Wette (1780-1849) escreveu em 1805 dizendo que o Pentateuco pertencia ao tempo de Josias (621 a.C.), Reuss, em 1850, atribuiu ao tempo de Esdras, e Karl Graff, em 1865, se referindo ao Êxodo, Levítico e Números, apresentou a teoria de que essas literaturas pertenciam ao período do cativeiro babilônico! Todos partiam da premissa de que não fora Moisés o autor e de que não havia unidade literária no Pentateuco

A Teoria Documentária

     Alguns pensam que há vários documentos principais combinados por um redator para formar o Pentateuco e possíveis documentos secundários. Hermann Hupfeldt, em 1853, ensinou que, além do Deuteronômio, havia três documentos. Ele os chamou de ‘J’, ‘E1’ e ‘E2’. Riehm, em 1854, propôs um quarto documento que chamou ‘D’. Assim, seriam os documentos da composição E1, E2, J, D. Reuss, em 1850, diz serem os documentos em número de cinco: J, E1, E2, D, P. Foi ele quem adicionou o documento P na teoria documentária. Mas foi Julius Wellhausen6 quem deu popularidade à teoria documentária do Pentateuco e ao criticismo como um todo (1876).

     Há problemas com a ‘Teoria Documentária’ que ficam logo evidentes: 1º) Os proponentes e adeptos da teoria não concordam entre si quanto ao número de documentos, ao grupo que pertencem, ou mesmo quanto à identificação dos documentos principais e secundários; 2º) a teoria não conseguiu ser provada por causa da ausência de evidências históricas; 3º) quando a teoria rejeita Moisés como autor, está ao mesmo tempo rejeitando o testemunho dos escritores bíblicos que afirmam a autoria mosaica7. 4º) os teóricos da composição têm imputado ao autor ou redator do Pentateuco uma sórdida má intenção que manipularia ao seu prazer o texto apenas para prevalecer sua posição ideológica em detrimento da Palavra de Deus; 5º) E negando o sobrenatural da Bíblia descartam a intervenção de Deus na história.

     A Bíblia afirma que Moisés sabia escrever (Nm 33.1,2; Dt 31.24) e recebeu ordem para fazê-lo (Êx 17.14; 34.27). Ele era profeta de Deus e com autoridade suficiente para tratar da escrita inspirada (Dt 18.15; 31.9-11).

     A teoria das Fontes do Pentateuco (JEDP) tem sido questionada. Ela não parece subsistir à luz da investigação. Os trabalhos de John Van Seters (1975), Hans Heinrich Schmid (1976) e Rolf Rendtorff (1977) demonstraram que a Teoria Documentária da Composição do Pentateuco não se sustenta. Algumas alternativas estão sendo elaboradas para fugir da forma rígida, mas aparenta ser uma serpente com a cabeça esmagada que apenas se debate agonizante. 

O Método Histórico-Crítico Hoje

     O método histórico-crítico é, em realidade, um conjunto de métodos para a análise do texto. E há variações na abordagem conforme a necessidade exegética do texto em questão. Pode-se distinguir no método: crítica textual; crítica literária; história traditiva; história redacional; história da forma; história temática; análise de detalhes; conteúdo teológico8

     Na atualidade é quase uma imposição a utilização do método histórico-crítico. Quem não o utiliza logo é taxado de anticientífico, pelas razões que acompanharam o desenvolvimento do método na história. Porém o método é problemático9 e suscita questões que precisam ser tratadas. Hoje, pelo tempo decorrido, já temos condições de notarmos pelo menos três objeções:

  1. Objeção quanto à premissa crítica.

A visão crítica da Bíblia é por si só uma bitola por demais limitadora. A premissa obrigará o pesquisador a uma crítica da Bíblia que o levará a distinguir entre Palavra de Deus e Escritura, entre o que é considerado autêntico e inautêntico na Bíblia! Um subjetivismo autoritativo e ideológico é a ferramenta para a análise. Contudo, quem tem esta autoridade? Qual chave hermenêutica possibilitaria o discernimento do que é Escritura dentro das Escrituras? A questão não é passível de consenso.

  1. Objeção quanto à concepção de história.

A visão histórica que nega a Revelação de Deus na Bíblia desconsidera a coordenada hermenêutica do objetivo da escrita, do caráter do escrito, da especificidade que o escrito propõe a si mesmo. E se há negação da proposta do escrito como será possível a compreensão do seu intento? E a Bíblia é completamente categórica a respeito do seu intento: homens santos a escreveram inspirados pelo Espírito de Deus para que a Pessoa, Vontade e Ação da Divindade fossem reconhecidas. A Bíblia não é apontamento de tradições e harmonização de contradições. Ela revela Deus.

  1. Objeção quanto ao efeito do método.

O resultado da aplicação do método histórico-crítico se faz notar nas instituições teológicas e nas igrejas. Ele não produz uma erudição crente. Pelo contrário, destitui o equipamento da fé, debilita o fundamento espiritual, afugenta as vocações, inibe a contemplação, causa embaraço a evangelização e ao acesso da pessoa não-especializada ao texto bíblico. Funciona como um desserviço para a causa do Evangelho.

     Uma consideração se faz importante aqui. Há pessoas doutas e crentes que utilizam o método. É inegável o esforço daqueles que mantém um elevado padrão da Inspiração das Escrituras em sua exegese, mesmo aplicando a questão “crítica” à Bíblia10. Mas não é a regra geral.  Contudo, louvamos a Deus pelas exceções. 

Conclusão.

     Temos necessidade hoje de método hermenêutico que trabalhe com pressupostos mais salutares para a fé cristã, que não negligencie as doutrinas bíblicas, que aplique as questões históricas corretamente sem negligenciar a especialidade hermenêutica da Bíblia Sagrada, que não se feche ao horizonte do texto e permita ao leitor aplicabilidade na vida pessoal e na proclamação evangélica, bem como no ensino douto e na prática eclesiástica.

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