Morfologia Distribuída: Empobrecimento e Fissão

Morfologia Distribuída: Empobrecimento e Fissão

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MORFOLOGIA DISTRIBUÍDA: EMPOBRECIMENTO E FISSÃO Morris Halle

Tradução para o português do texto original em inglês Distributed Morphology: Impoverishment and Fission (HALLE, 1997) feita por Adeilson Pinheiro Sedrins, Marcelo Amorim Sibaldo e Thaise dos Santos Tenório.

1. Comentário Introdutório sobre a Morfologia Distribuída

A morfologia está preocupada com os elementos que compõem as palavras e com a organização desses elementos em hierarquizar constituintes de tipos diferentes. Em discussões sobre sintaxe geralmente nós sempre falamos como as palavras são os elementos que maquiam as cadeias terminais que são operadas pela sintaxe. É preciso dizer que isso é no melhor dos casos uma aproximação grosseira. É bem sabido, por exemplo, que o morfema Tempo dos verbos e os morfemas de Número e Caso dos nomes têm o status de elementos sintáticos independentes que requerem nós separados na cadeia terminal, ainda que nenhum desses morfemas seja uma palavra. E um objetivo principal da morfologia é dar conta amplamente dos diferentes modos em que diferentes línguas manifestam essas entidades morfológicas universais em palavras. Como um exemplo considere as formas verbais finitas do inglês em (1):

(1) Mary play-ed there “Mary jog-ou lá.”

Mary play-s there “Mary jog-a lá.”

As formas verbais são compostas de uma base e um sufixo. Uma simples ilustração de seu caráter bipartido é dada pelas sentenças em (2) onde o morfema de tempo aparece distante da base do verbo.

(2) Di-d Mary play there?

Aux-Passado Mary jogar lá “Maria jogou lá?”

Mary doe-snot play there

Mary Aux-Presente não joga lá “Maria não jogou lá.”

O sufixo /d/ é o expoente do tempo Passado, enquanto que o sufixo /z/ é o expoente não apenas do tempo Presente, mas também indica o fato de que o sujeito da sentença é 3ª Pessoa e Singular. Uma representação mais explícita dos verbos em (1) é dada em (3), onde os colchetes angulados representam a informação gramatical – isto é, não fonética – expressada pela base e pelos sufixos e a informação fonética aparece entre barras.

(3)V V
33
V Tempo V Tempo
gg g g
[/pley/<+Vb>] + [/d/<PASS>] [/pley/<+Vb>] + [/z/<PRES, 3P, SG>]

Os nós terminais nas árvores sintáticas em (3) são, portanto, compostos de duas partes: uma cadeia de fonemas e um complexo de traços gramaticais. Eu irei me referir aos elementos terminais das árvores sintáticas como morfemas e usarei o termo expoente fonológico ou fonético para designar a seqüência de fonema em um morfema. Já que os morfemas são os elementos terminais das árvores sintáticas, há morfemas em cada nível de representação de uma sentença. Contudo, como veremos abaixo, nem todo morfema precisa ter um expoente fonológico.

É bastante sabido que a relação entre os traços gramaticais de um morfema e seu expoente fonético é de muitos para muitos. Isto é, um determinado complexo de traços gramaticais pode ter muitos expoentes fonológicos e uma determinada cadeia fonológica pode servir como expoente para muitos complexos de traços gramaticais distintos. Por exemplo, o expoente fonológico do tempo Passado do inglês é /d/ em play-ed “jog-ou”, decid-ed “decid-iu”, mas /t/ em bough-t “compr-ou”, lef-t “deix-ou”. Por outro lado, o sufixo /z/ é o expoente fonológico do complexo de traços gramaticais [3Pl, Sg, Presente] depois de verbos, mas de [Pl] depois de nomes. Para adicionar mais complexidade a essa relação, o NULO fonético pode funcionar como o expoente de certos morfemas. Por exemplo, em inglês, NULO é o expoente dos morfemas de tempo Presente diferente dos de 3Sg, assim como do Particípio Passado e os morfemas de tempo Passado finito de verbos como hit “bater”, put “pôr”, strike “atingir”1.

Essa manifestação do que tem sido denominada de l’arbitraire du signe (arbitrariedade do signo) tem sido a fonte de problemas inumeráveis para projetistas de analisadores mecânicos da fala e para lingüistas. Embora uma maior dificuldade para engenheiros e cientistas da fala, a relação arbitrária entre o expoente de um morfema e seu referente é aparentemente de pouco interesse para os falantes, exemplos dessa relação são facilmente encontrados em todas as línguas.

As duas partes do morfema – isto é, o expoente fonológico e o conjunto de traços gramaticais e semânticos – têm um papel radicalmente diferente na sintaxe mais do que elas têm na fonologia. A sintaxe está preocupada apenas com as propriedades gramaticais dos morfemas e os expoentes fonéticos são efetivamente invisíveis à sintaxe. Para a sintaxe, não faz diferença se o expoente fonético do Particípio Perfeito é /d/ ou /t/ ou NULO. Ao contrário da sintaxe a fonologia não é exclusivista: na fonologia, tanto os traços fonéticos quanto os traços gramaticais interessam. A ligação entre essas duas partes da gramática – a sintaxe por um lado e a fonologia por outro – é preenchida pela morfologia num modo a ser esquematizado abaixo.

Os exemplos do inglês revistos acima ilustraram aspectos da concordância Sujeito-Verbo.

As línguas diferem no modo em que elas implementam a concordância Sujeito-Verbo. Assim, em inglês, os então chamados traços-phi do sujeito são fundidos em um único morfema com os traços de Tempo, mas, como ilustrado em (4), tanto o alemão quanto o russo separam o Tempo de Agr.

(4) a. sag-te- st sag- NULO st
gg g g g g
“dizer” “Pass” “2Sg” “dizer” “Pres” “2Sg”
b. nes- l- á nes- é- te-
gg g g g g
“carregar” “Pass” “SgF” “carregar” “Pres” “2Pl”

1 NULO é também o expoente fonológico para o singular dos nomes do inglês, bem como para o plural de nomes como deer “cervo”, fish “peixe”, moose “alce” e geese “gansos”, mice “ratos”.

ninar, dizer, dormir. Essas bases “são desambigüisadas por diferentes partículas para que cada raiz zero selecioneo

Em Nimboran, uma língua da Nova Guinea discutido por Inkelas 1993 e Anceaux 1965, toda primeira série de verbos tem uma base foneticamente NULA: ser, tornar, trazer, sonhar, entender, ir escutar, beijar, sorrir, fazer um gato par partícula raiz-zero <0, -rár-> “trazer” ocorre somente quando a ação é não direcionada enquanto o par <0, -tár-> “fazer o gato ninar” ocorre somente quando a ação é não direcional. Estas restrições semânticas são exatamente dos mesmos tipos que caracterizam raízes visíveis...” (Inkelas, 1993, 610-611).

O russo e o alemão diferem em relação aos traços gramaticais que são sinalizados pelo morfema Agr. Em alemão o expoente do morfema de Agr é selecionado em ambos os tempos pelos traços de Pessoa e Número do Sujeito. No russo, em contraste, os traços de Pessoa e Número selecionam o expoente Agr somente no tempo Presente, enquanto no tempo Passado o expoente Agr representa Gênero ou Plural.

É assumido aqui que todos os traços-phi do NP sujeito – isto é, Pessoa, Gênero, Número e

Animacidade – são copiados em um nó Agr especial que é irmão do nó Tempo. Em russo e alemão os nós Tempo e Agr continuam distintos e são supridos com expoentes fonéticos de uma maneira a ser descrita abaixo. Em inglês, uma operação da morfologia funde esses dois conjuntos de traços num único morfema, como resultado existe apenas um morfema em que os sufixos Tempo-Agr do inglês podem ser inseridos.

Na Morfologia Distribuída (Halle & Marantz 1993, 1994), os expoentes fonéticos de diferentes morfemas são listados no Vocabulário. Como ilustrado em (5) e (6), cada item de Vocabulário emparelha um expoente fonológico com a informação sobre os traços gramaticais do morfema em que o expoente é inserido. Os itens de Vocabulário constituem uma parte essencial do conhecimento da língua dos falantes; esse é o conhecimento que os falantes devem memorizar item por item.

Foi assumido acima que os traços-phi do Sujeito são copiados no nó Agr. Isso parece acontecer em todas as línguas com concordância Sujeito-Verbo e isso vale em particular para as três línguas mencionadas acima: inglês, russo e alemão. Assim, em todas as três línguas a informação sobre Pessoa, Gênero e Número do Sujeito é copiada no nó Agr. Entretanto, é óbvio que nem toda essa informação é requerida para a seleção do expoente fonético correto: especificamente, como já notado, nas formas do tempo Presente do russo, nós precisamos da informação sobre Número e Pessoa do Sujeito, mas não sobre seu Gênero, enquanto que nas formas do tempo Passado, nós precisamos da informação sobre Número e Gênero, mas não sobre Pessoa. Esse fato é refletido na forma das entradas de Vocabulário do russo: aquelas do tempo Passado, mostradas em (5), não contêm nenhuma informação sobre a Pessoa do sujeito, enquanto aquelas do tempo Presente, mostradas em (6), não contêm nenhuma informação sobre o Gênero do sujeito.

(5) /i/ ↔[_, +Pl]
/a/ ↔[_, +Fem] em contexto [-Pres] + __
/o/↔ [_, +Neut]
/O/↔ [_ ]
(6) /mO/ ↔[_, 1, +Pl]
/te/↔ [_, 2, +Pl]
/u/↔ [_, 1] em contexto [+Pres] + __
/šO/↔ [_, 2]
/tO/↔ [_]

Os itens em (5) e (6) são subespecificados: nenhum deles contém toda a informação que foi copiada no nó Agr. Claro que seria pouco relevante fornecer toda essa informação aqui, porque a função de listas como (5) e (6) é inserir o expoente fonológico correto em cada nó Agr e para acontecer a inserção apenas um subconjunto dos traços no nó terminal deve ser combinado pelo item do Vocabulário. Mas formalmente, a inserção de expoentes fonológicos é regida pelo Princípio do Subconjunto em (7):

(7) O expoente fonológico do item de um Vocabulário é inserido num morfema na cadeia terminal se um item combina todos ou um subconjunto dos traços gramaticais especificados no morfema terminal. A inserção não acontece se o item de

Vocabulário contém traços não presentes no morfema. Onde muitos itens de Vocabulário encontram as condições para a inserção, o item que combina o maior número de traços especificados no morfema terminal deve ser escolhido.

O Princípio do Subconjunto (7) determina, em parte, a ordem de precedência entre os itens de Vocabulário que, como os itens em (5) e (6), competem para a inserção num dado morfema. Os itens que combinam mais traços precedem os itens que combinam menos traços. É por essa razão que os itens em (5), (6) e (8) e elsewhere são listados na ordem de redução do número de traços que os itens devem combinar.

2. Empobrecimento

Não apenas os afixos, mas também as bases, podem ter múltiplos expoentes. Um simples exemplo é o verbo cópula be “ser/ estar”, do inglês, que tem um grande número de alternantes selecionados por morfemas diferentes de Tempo-Agr. Em (8) eu dei uma lista dos contextos para as diferentes alternâncias de be, omitindo por enquanto as formas de 2PessSg2.

(8) am ↔+ [+Aut,-Pl, +Pres, +Finito] 1Sg, Pres
i-<z> ↔+ [-Pl, +Pres, + Finito] 3Sg, Pres
was ↔+ [-Pl, + Finito] 1/3Sg, Pass
are↔ _ + [+Pres, +Finito] Pres elsewhere
were ↔+ [+Finito] Pass elsewhere
be↔ _ elsewhere

Em (8) e nos exemplos abaixo, a informação sobre as categorias gramaticais diferentes é representada por meio dos traços binários. A decisão para representar a informação não fonética em morfemas como complexos de traços binários não é simplesmente uma convenção notacional. Muito do que se segue depende crucialmente dessa decisão e para a extensão de que as análises abaixo refletem os fatos corretamente, eles também fornecem suporte para a decisão. Enquanto traços de Tempo e Número são auto-explanatório, os traços para Pessoa não são, e uma proposta específica é dada em (9)3.

(9)1 2 3
Participante no Evento de Fala + + -
Autor do Evento de Fala + - -

Já que esse não é, claro, o único modo em que a Pessoa gramatical deve ser representada, os traços propostos em (9) devem ser apoiados com dados empíricos. Um pouco dessa evidência é o vazio no paradigma (9). Dados os traços em (9), esperamos uma 4ª Pessoa com os traços [-PSEi, +A]. Existem de fato línguas com esse tipo de 4ª Pessoa. Um exemplo é o walbiri, como descrito por Hale 1973, e discutido na seção 6 abaixo. Em adição às terceiras pessoas normais, o walbiri também tem uma 4ª pessoa, cujo referente é “eu e alguém mais, mas não você”. A 4ª Pessoa difere das outras três Pessoas por não ter Singular. Isso provém naturalmente do fato de que a composição dos traços [-PSE, +A], que foi atribuído à 4ª Pessoa, é uma que nenhum único indivíduo pode satisfazer.

2 O expoente da 3Sg do tempo Presente inclui z fechado por colchetes angulados. A notação reflete o fato de que no verbo de cópula is “é”, /z/ é o mesmo expoente do tempo Presente da 3Pess como em play-s “jog-a”, buy-s “compr-a” etc. Eu devo esta observação a Carson Schütze. 3 No sistema de pessoa de algumas línguas, Mam (ver Noyer 1992), por exemplo, [±Destinatário] figura no lugar de [± PSE].

Um comentário deve ser feito sobre o número de itens que aparece na lista (8). Note, em particular, que temos uma única entrada are “ser.PRES.PL” para o tempo presente do plural e uma única entrada were “ser.PASS.PL” para o tempo passado plural. Não existiriam conseqüências óbvias para a cobertura empírica dos dados se nós substituíssemos essas entradas simples pelas três entradas em (10).

(10) aare ↔ [+A, +PSE, +Pl, +Pres, +Finito] + _
are↔ [-A, +PSE, +Pl, +Pres, +Finito]
are↔ [-PSE, +Pl, +Pres, +Finito]
bwere ↔ [+A, +PSE, +Pl, +Finito] + _
were↔ [-A, +PSE, +Pl, +Finito]
were↔ [-PSE, +Pl, +Finito]

Embora a cobertura empírica completa não seja afetada quando as entradas em (8) são substituídas por aquelas em (10), essa substituição não é aceitável porque o que nós estamos tentando caracterizar é o conhecimento que os falantes têm das palavras da sua língua e existe razão para acreditar que esse conhecimento não é expresso corretamente por meio de uma lista exaustiva de todas as palavras da língua.

Uma dessas razões é que crianças aprendizes do inglês produzem seqüências de morfemas que elas nunca encontraram anteriormente; por exemplo, mous-es “ratos” ou ox-es “bois”. Para dar conta desses fatos, nós devemos assumir que as crianças analisam as formas Plural dos nomes como base + morfema Plural. No estágio do processo de aquisição, onde os erros ocorrem, assumimos que as crianças não têm ainda aprendido o fato de que, em adição ao /z/, os nomes do inglês tomam também como o expoente Plural o /n/ - por exemplo, ox+en – e NULO – por exemplo, mice “ratos”+NULO, moose “alce”+NULO.

Há, assim, evidência para mostrar que os aprendizes não aprendem a forma Plural dos nomes como itens adicionais do Vocabulário, mas, em vez disso, analisam as novas formas que eles encontram. Nós assumiremos que os aprendizes escolhem a análise ao invés de adicionar novos itens de Vocabulário, porque o processo de aprendizagem está sujeito à restrição (1).

(1) O número de traços mencionados no Vocabulário deve ser minimizado.

Este tipo de restrição econômica é, óbvio, inteiramente plausível, porque as entradas de Vocabulário representam itens que os falantes devem memorizar e já que nossas memórias são finitas, a carga sobre a memória deve ser minimizada. Uma conseqüência imediata de (1) é descartar as entradas múltiplas em (10) em favor das entradas únicas que aparecem em (8).

Retomando as formas supletivas do verbo be, eu ilustrei em (12) como os itens de Vocabulário são inseridos nos morfemas.

(12) a. [Cop, +Vb] + [+PSE, +Aut, - Pl, +Pres, +Finito]1Sg, Pres
am _ + [+Aut, -Pl, +Pres, +Finito]
b. [Cop, +Vb] + [+PSE, +Aut, +Pl, -Pres, +Finito]1Pl, Pass
were _ [+Finito]
*was _ + [-Pl, +Finito]
d. [Cop, +Vb] + [+PSE, -Aut, -Pl, +Pres, +Finito]2Sg, Pres
*i<z>+ [-Pl, +Pres, +Finito]

c. [Cop, +Vb] + [+PSE, -Aut, -Pl, -Pres, +Finito] 2Sg, Pass ↓ ↓

Em cada um dos quatro exemplos, o expoente inserido é o mais proeminente em (8), satisfazendo a condição do subconjunto (7). Isto produz o output correto em (12i, i), mas não em (12ii, iv). Um modo de essas falhas serem remediadas seria pela adição de entradas ao Vocabulário. Buscando a restrição de economia (1), esse seria um passo questionável, na melhor das hipóteses. Ainda, isso falharia para capturar o fato de que, em ambos os casos, os outputs corretos não são apenas quaisquer expoentes, mas os expoentes defaults, isto é, os expoentes menos marcados na lista.

Essa expansão do domínio do expoente não marcado foi notada primeiramente por Alec

Marantz, cuja atenção a esses fenômenos foi esboçada pela discussão de Eulalia Bonet (1991) sobre a distribuição do clítico em catalão. Marantz sugeriu que, em vista da condição do subconjunto (7), o próprio significado da expressão dessa extensão do domínio do expoente default é uma regra especial de Empobrecimento que apaga um traço no morfema terminal. No exemplo em discussão aqui, a regra de Empobrecimento requerida é (13), que apaga o traço [-Pl] em morfemas de 2Pess.

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