Mãos que falam da construção de identidades surdasna escola ouvinte

Mãos que falam da construção de identidades surdasna escola ouvinte

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Marita Zorzolli Nebel

Marita Zorzolli Nebel

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação.

Orientador: Prof. Dr. Jarbas Santos Vieira

Dados de catalogação na fonte: Clarice Raphael Pilownic CRB - 10/490

N359mNebel, Marita Zorzolli

Mãos que falam da construção das identidades surdas na escola ouvinte. / Marita Zorzolli Nebel. - Pelotas, 2006. 131f.

Educação. Universidade Federal de Pelotas

Dissertação (Mestrado em Educação) Faculdade de

1. Identidades surdas. 2. Políticas educacionais. 3. Re lações de poder. 4. Relação com a diferença. I. Vieira, Jarbas Santos, orient. I. Título.

Banca Examinadora:

Este é um momento delicado por isso busco na lembrança todas as pessoas que de alguma forma ajudaram na construção deste trabalho. Durante o tempo em que estive envolvida com a pesquisa, muitos foram aqueles que me deram motivos para vencer este desafio. Sendo mãe, filha, esposa, irmã, estudante, professora, pesquisadora entre muitas outras que pude descobrir em mim mesma, agradeço por ser mulher e ter podido enfrentar as pedras no caminho. Agradeço a Raquel, a Camila e ao Rafael, meus filhos, por existirem; eles estão presentes em cada parte deste trabalho, porque alimentam as minhas mais profundas emoções. Ao meu marido Álvaro, agradeço o carinho e a ajuda nas leituras e na organização da dissertação. Agradeço a minha mãe, Zair, por ter vibrado com o meu sucesso e me dado ânimo nos dias mais difíceis. Mesmo sendo esta caminhada um tanto solitária, digo obrigada aos colegas de trabalho que colaboraram e compreenderam as minhas ausências. Obrigada às colegas Daniele e Susele pela ajuda na leitura do trabalho. Dedico este trabalho aos meus alunos surdos e a sua luta pelo respeito ao outro; mais do que sujeitos a investigar, os surdos foram parceiros neste trabalho, e com eles aprendi a aprender. Um especial agradecimento ao meu orientador Jarbas Vieira, pelos ensinamentos cognitivos e afetivos que me fazem acreditar que valeu a pena ter vivido esta experiência.

Acima de tudo, agradeço a minha vida a Deus.

Que gentes tão estranhas não entendo o olhar do outro por cá estou no tumulto das vozes tagarelas, estranhas.

Que gentes estranhas fazem das bocas tamanhas entranhas brancas, vermelhas, amarelas de tantos sabores.

Que estranhos braços, mãos, rostos de corpos que falam das dores, dos desejos, das flores das cores, dos amores

Que não são estranhos. Marita Nebel

Resumo

NEBEL, Marita Zorzolli. Mãos que falam da construção de identidades surdas na escola ouvinte. 2006. 127p. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas.

Nesta dissertação discuto como as identidades surdas vêm sendo construídas pela experiência da inclusão no Colégio Municipal Pelotense - RS, problematizando os efeitos da política inclusiva sobre oito alunos surdos no Ensino Médio e Curso Normal e discutindo os impactos dessa política na construção de suas identidades. Para tanto, utilizei as contribuições de autores como Foucault, Hall, Silva, Larrosa, Skliar, Corazza, Perlin, Ewald e Woodward entre outros. Estudar os alunos surdos significou trazer para essa discussão um pouco da história geral dos surdos e da educação, através de movimentos sociais e políticos, considerando que os fatos transcritos através do tempo interferem no presente e no futuro dos surdos. Proponho uma discussão em torno das políticas educacionais e a questão da inclusão, passando pela visão da escola especial em que estiveram inseridos os surdos desta pesquisa, culminando numa reflexão sobre os dilemas vividos pela escola. Faço uma análise atenciosa no que diz respeito às relações de poder e a relação com as diferenças numa visão multicultural, entendendo que as identidades são construídas e modificadas no contato com outras pessoas. Para tanto, usei o método qualitativo. O próprio Colégio serviu de cenário para a investigação iniciada em meados de 2005. Três encontros foram organizados com a utilização de entrevistas semi-estruturadas e filmagem, recursos que possibilitaram refletir, analisar e elaborar proposições sobre a construção das identidades surdas na escola ouvinte. Também participou dos encontros, a intérprete de LIBRAS. Os alunos narraram suas impressões a respeito da escola, da inclusão, dos professores, dos colegas, das disciplinas, das identidades, da cultura surda, da língua natural dos surdos. Das mudanças, conquistas e dificuldades fizeram uma análise crítica baseada nos resultados e efeitos de suas intervenções nas atividades do colégio. O meu olhar para as alteridades surdas buscou nas narrativas dos surdos, os dados para serem analisados e interpretados.

Palavras-chave: identidades surdas; políticas educacionais; relações de poder; a relação com as diferenças.

Abstract

NEBEL, Marita Zorzolli. Mãos que falam da construção de identidades surdas na escola ouvinte. 2006. 127p. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas.

culture and about the natural languageThe students did a critical analysis about
interpreted through the narratives from the deaf students

In this dissertation I debate how the deaf identities have been constructed along the experience of inclusion at Colégio Municipal Pelotense, RS, discussing the effects of the inclusive policy in eight deaf students of Secondary Education – Normal Course, and discussing the impacts of this policy in the construction of their identities. Thus, this work has the contribution of authors like: Foucault, Hall, Silva, Larrosa, Skliar, Corazza, Perlin, Ewald, Woodward and others. To study the deaf students meant to bring for this discussion a few of their general history and of the education through social and policy movements, considering that the facts occurred throughout the time interfere in the present and in the future of these students. I present a discussion about the educational policies and the inclusion’s matter, observing the special school view where the deaf students, of this search, were introduced, reflecting about the problems experienced in school. I realize a careful analysis about the power relations and the differences relations in a multicultural view, understanding that the identities are constructed and changed in contact with the others. For this, I worked with the qualitative search. Pelotense School was scenery of investigation that has started in 2005. Three meetings were organized for doing semi-structured interviews and film. These recourses enabled to think, to analyse and to elaborate propositions about the construction of the deaf identities on listener scholastic curriculum. Also the LIBRAS’ translator participated of the meetings. The students reported their ideas about the school, the inclusion, the teachers, the subjects, the identities, the deaf the changes, conquests and difficulties from the results and effects of their interventions in the school activities. The data for this study were analysed and Keywords: deaf identities; educational policies; power relations; diferences relations.

ASP Associação de Surdos de Pelotas CMP Colégio Municipal Pelotense DA Deficiente Auditivo

FENEIDA Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos

FENEIS Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos LDB Leis de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96) LIBRAS Língua Brasileira de Sinais LS Língua de Sinais MEC Ministério de Educação e Cultura OEA Organização dos Estados Americanos OIT Organização Internacional do Trabalho ONU Organização das Nações Unidas PCN Parâmetros Curriculares Nacionais PUC do RS Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul RS Rio Grande do Sul SME Secretaria Municipal de Educação SOE Serviço de Orientação Educacional SOP Serviço de Orientação Pedagógica UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura

INTRODUÇÃO10
1 POR QUE ESTUDAR AS IDENTIDADES SURDAS?26
1.1 A Abordagem Teórica do Estudo30
SURDOS35
3 AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS OFICIAIS E A QUESTÃO DA INCLUSÃO43
3.1 Discurso de Inclusão43
3.2 O Contexto da Educação Especial46
3.3 A LDB e a LIBRAS: dilemas vividos pela escola49

2 UM OLHAR ATRAVÉS DO TEMPO – A SURDEZ E A EDUCAÇÃO DE

PODER, DIFERENÇA E MULTICULTURALISMO53
4.1 O que fazem os Currículos?59
4.2 As Relações de Poder65
4.3 A Relação com as Diferenças68
4.4 Multiculturalismo71
5 OS SABERES SOBRE AS ALTERIDADES SURDAS73
5.1 A Margem Esquerda da Normalidade76
5.2 Das Personagens - elas estão entre nós83
6 NA BUSCA DA CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES SURDAS85
6.1 Nós Somos Surdos Porque não Somos Ouvintes?93
ANEXOS126
ANEXO A Questões utilizadas nas entrevistas com os alunos127

A pesquisa que embasou esta dissertação teve como objetivo saber como as identidades surdas vêm sendo construídas pela experiência da inclusão em uma escola totalmente pensada e organizada para ouvintes, problematizando os efeitos da política inclusiva sobre alunos surdos1 no Ensino Médio e Curso Normal no Colégio Municipal Pelotense (CMP) e discutindo os impactos dessa política na construção de suas identidades. Para isso, a pesquisa teve como objetivo mais específico uma análise dos significados/sentidos que alguns estudantes surdos vêm atribuindo a sua experiência dentro desse Colégio2 , valorizando a perspectiva desses sujeitos sobre essa situação e as implicações em suas vidas.

Estudar os alunos surdos significou trazer para essa discussão um pouco da história geral da educação dos surdos, a história de outros surdos que fizeram o mesmo caminho educacional até o CMP e as suas próprias caminhadas nas escolas especial e regular. Também foi importante saber sobre os movimentos políticos e sociais organizados pela Associação de Surdos de Pelotas (ASP). Neste caso, a investigação sobre a construção das identidades se fundamentou na trajetória de uma coletividade surda e nas relações que foram se constituindo ao longo do tempo. Por isso, o leitor poderá observar que em muitas partes deste estudo os surdos aparecem mais como grupos do que propriamente na sua individualidade.

1 Os sujeitos da pesquisa são alunos e alunas surdos. O gênero usado neste trabalho será o masculino, com o propósito de não tornar exaustiva a escrita. Somente será usado o feminino quando for um caso específico. 2 O termo colégio será utilizado quando houver referência ao Colégio Municipal Pelotense.

Os primeiros alunos surdos ingressaram no CMP na condição de pessoas portadoras de necessidades especiais, amparados pela Lei nº. 7.8533, de 24 de outubro de 1989. Desde então, a discussão sobre a educação de surdos começou a fazer parte da história do centenário Colégio Municipal Pelotense. Em 2000, nove alunos e alunas surdas ingressaram no Curso Normal. De lá para cá outros surdos foram chegando para outras modalidades de ensino. Em março de 2006, o quadro de matrículas dos surdos se dividia em: Ensino Médio, Ensino Fundamental, Curso

Normal e Curso Normal – Habilitação: Educação Infantil4 , cada um seguindo organização própria, conforme as condições estruturais e humanas disponibilizadas no Colégio. Mediante análise e avaliação dos professores, da direção e dos alunos, as turmas de Ensino Médio ou Curso Normal poderiam ser mistas, compostas por surdos e ouvintes, ou somente de surdos. O Projeto de Educação do Ensino Fundamental noturno para surdos jovens e adultos foi organizado com turmas somente de surdos. Pelas particularidades atribuídas aos projetos, o currículo disciplinar podia ser (re)pensado, discutido e alterado conforme as necessidades dos alunos. Atualmente, estudam no Colégio em torno de cinqüenta surdos distribuídos nas referidas séries.

As informações contidas no parágrafo anterior têm por objetivo contextualizar as ações dos alunos pesquisados em um ambiente educacional bastante diversificado, dentro de uma estrutura curricular aparentemente rígida, porque existem parâmetros que são os mesmos para todos os alunos, mas que, sem dúvida, estão sujeitos a ações e intervenções em função das relações vividas no interior do Colégio. Essas relações envolvem discussões que problematizam o conteúdo das políticas de inclusão e o currículo disciplinar, com vistas à educação de surdos comprometida com a visão do surdo como sujeito cultural.

A representação do sujeito cultural é uma fabricação que vem se constituindo a partir de certos discursos, entretanto, esse sujeito incluído na escola regular viveu outras imagens dentro da escola especial. Os relatos dos sujeitos

3 A Lei diz que a administração pública deve criar uma educação especial visando a atender necessidades das pessoas portadoras de deficiências nos 1º e 2º graus (agora, Ensino Fundamental e Ensino Médio). 4 A Educação Infantil é uma modalidade do Ensino Normal para jovens que já possuem o Ensino Médio.

pesquisados se misturaram às experiências de outros surdos que estudaram em escolas especiais e depois em escolas regulares. As dificuldades e os problemas que enfrentaram dentro da escola especial deixaram marcas de aflição, de angústia e de medo, esses sentimentos tiveram reflexo nas atitudes dos surdos dentro do CMP. Entretanto, diferentemente do que poderíamos supor, os primeiros alunos surdos do Pelotense se mostraram organizados, fazendo reivindicações para que o Colégio se adequasse minimamente às suas necessidades. Por esse motivo, esses surdos têm sido referências para os sujeitos desta pesquisa.

As representações da surdez e a escola especial

A escola especial5 de onde vieram os primeiros surdos do Colégio e a maioria dos sujeitos da pesquisa foi organizada a partir da perspectiva paternalista, de acordo com as leituras que venho fazendo sobre a história da educação dos surdos. Dentro dessa visão os surdos eram considerados deficientes auditivos, ou seja, pessoas com déficit, carência ou incapacidade. Portanto, a escola não tinha compromisso com o desenvolvimento cognitivo do aluno, baseada no entendimento de que o surdo apresentava limitações que o impediam de aprender. Segundo relatos dos próprios alunos, o ensino ficava restrito a alfabetização, que trazia um caráter lingüístico ouvinte, tornando difícil o aprendizado. O ensino era lento e repetitivo, mesmo assim a reprovação era comum. Sem dúvida, esse processo se caracterizava pela visão tradicional da educação especial que via no seu aluno um portador de deficiências.

A idéia de surdo como deficiente desconhece a possibilidade de existência de uma cultura surda com características próprias. Em um período mais distante, os surdos que usavam sinais eram repreendidos ou até mesmo castigados por insistirem em se comunicar através dos gestos. Os surdos que viveram tais experiências contam que, apesar do risco, usavam a língua própria dos surdos – a

LIBRAS6 , embora a orientação fosse a comunicação oral, tendo como língua oficial a

5 Escola especial: as características discutidas ao longo da pesquisa são baseadas nos relatos dos alunos que, na sua maioria, freqüentou a Escola Especial Alfredo Dub. 6 LIBRAS: Língua Brasileira de Sinais, a língua própria da comunidade surda. Reconhecida como meio legal de comunicação e expressão pela Lei 10.436, de 24 de abril de 2002.

língua portuguesa. Portanto, os surdos aprendiam a oralizar, falar e repetir os sons ensinados pelos ouvintes que, somado a proibição do uso dos sinais, criou entre os surdos uma espécie de aversão à oralização.

Contudo, as mudanças exigidas pela sociedade contemporânea, especialmente por aqueles que se sentiam prejudicados pela história que carregavam, alcançaram o interior das escolas especiais. Na cidade de Pelotas, a Escola Alfredo Dub tem demonstrado interesse pela reforma de pensamentos e práticas que se encaminham para novos fazeres pedagógicos. Hoje em dia, a escola especial busca recursos pedagógicos voltados à educação de surdos em uma perspectiva que sugere melhores condições de aprendizado, tendo a língua de sinais reconhecida e utilizada por grande parte dos professores. Certamente, a educação especial enfrenta as dificuldades próprias da escola subsidiada pela benevolência governamental e particular. Infelizmente, essa situação contribui com a manutenção da imagem da escola de deficientes.

Quando os alunos surdos são incluídos na escola regular, levam as imagens/representações da deficiência, a exemplo dos alunos surdos que ingressaram no CMP. A idéia da deficiência está ligada à doença, portanto, no imaginário ouvinte a visão do surdo não está associada apenas à deficiência auditiva, mas a outros males que os tornam menos inteligentes, menos capazes, menos espertos, menos sociáveis. Assim, a lei que beneficiou a entrada dos surdos no CMP também os expôs a uma situação de discriminação e preconceito.

O movimento dos surdos no CMP

Além de carregar a marca da deficiência, os surdos eram uma minoria que, segundo relatos dos próprios alunos, costumava se agrupar nos mais diversos locais do Colégio, principalmente porque usavam a mesma língua. Considerando o uso comum de uma língua como fator importante em qualquer relação entre pessoas e w.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10436.htm . Considero importante destacar que a LIBRAS não é uma língua universal, cada país tem a sua língua de sinais.

grupos, a comunicação visual que aproximava os surdos acabava por afastar ou dificultar a aproximação entre surdos e ouvintes.

Sendo a Língua Brasileira de Sinais uma língua em processo de divulgação e de difícil acesso à população em geral, os ouvintes não a conheciam. Além disso, a utilização da LIBRAS não se limita aos gestos comuns adotados muitas vezes por ouvintes em algumas situações, ela tem uma estrutura que é diferente da língua portuguesa; a complexidade da língua de sinais exige vontade, estudo e dedicação para compreendê-la. Neste caso, conviviam alunos surdos e ouvintes em um espaço escolar comum, usando formas diferentes e excludentes de comunicação. Tal fato poderia ser motivo de constrangimentos aos jovens surdos se considerássemos o número reduzido de pessoas que usava a língua de sinais. Porém, o uso da LIBRAS conferia ao grupo o poder da comunicação, sendo um signo que os identifica cultural e socialmente como grupo diferente, porque têm uma língua própria. Portanto, a comunicação entre surdos e ouvintes é matéria de importância nos estudos surdos.

Sabemos que nas últimas décadas, a educação de surdos vem sendo foco de debates, embora esse assunto tenha tomado maiores proporções na cidade de Pelotas há pouco tempo. Especificamente no CMP, a discussão começou com o ingresso dos primeiros surdos via políticas de inclusão. Sem dúvida, receber alunos que não usavam a comunicação oral tornou-se um problema para o Colégio, principalmente quando a nova língua se apresentava através de gestos e expressões que estavam além das possíveis comunicações ouvintes que acontecem através do corpo. Assim, a língua de sinais desafiava a comunicação ouvinte tentando se pôr no contexto escolar com a mesma legitimidade da língua falada.

De fato, a história geral da escola revela que essa não é uma instituição pensada ou articulada para trabalhar com o desconhecido, embora as diferenças existissem sempre. Através do tempo, os surdos enfrentaram o preconceito e as dificuldades inerentes à situação de inclusão, contudo os primeiros alunos surdos do CMP conseguiram marcar a sua presença através de ações que provocaram transformações importantes no interior do Colégio. Compreendo que o princípio desse processo de mudança aconteceu quando o pequeno grupo “estranho” passou a ocupar, efetivamente, os espaços ouvintes. O movimento organizado pelos próprios surdos acabou gerando mudança de atitudes por parte de alguns ouvintes, que responderam favoravelmente às ações dos alunos que buscavam mais do que a simples inclusão retratada na tolerância.

Sem dúvida, de lá para cá a rotina do Colégio mudou. Muitas foram as modificações ocasionadas pela presença dos novos alunos, tanto nas salas de aula como nos espaços abertos ocupados por crianças, adolescentes e adultos que se relacionavam em meio aos barulhos, ora sussurrados nas salas, ora estridentes nos pátios e coberturas, somados aos sons que vinham dos risos e gritos daqueles que mexiam as mãos e todo o corpo, significando gestos que contracenavam com as figuras infantis apinhadas nos recreios.

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