O trabalho com pessoas surdas numa congregação deouvintes

O trabalho com pessoas surdas numa congregação deouvintes

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MESTRADO EM TEOLOGIA Área de Concentração: Teologia Prática

São Leopoldo, julho de 2006 por Klaus Ernesto Kuchenbecker

Em cumprimento parcial das exigências do Instituto Ecumênico de Pós-Graduação em Teologia para obtenção de grau de Mestre em Teologia

Escola Superior de Teologia

São Leopoldo, RS, Brasil Julho de 2006

1º Examinador:

2º Examinador:

3º Examinador:

- Ao orientador, prof. Dr. Rodolfo Gaede Neto, por toda ajuda, sábia orientação e paciência com que me conduziu ao longo deste trabalho;

- à Congregação Ev. Lut. São Paulo e sua diretoria pela compreensão e apoio;

- à Missão Surdos por tudo que é para mim, pelo que representa para este trabalho e pelo carinho que sempre demonstram ter para comigo;

- aos meus pais, irmãos, irmãs e familiares, por toda fora e incentivo;

- aos amigos e colegas de trabalho;

- a Deus, pelas muitas bênçãos e pelo seu amor por mim, em Cristo, o Salvador.

Dedico à minha esposa, Liège, por todo carinho, amor e presença em minha vida.

KUCHENBECKER, Klaus. O trabalho com pessoas surdas numa congregação de ouvintes. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo: IEPG, 2006.

comunidadeAo final do capítulo, apresento o

Esta dissertação trata do espaço da pessoa surda e de sua convivência com os ouvintes numa congregação cristã. A partir de um modelo de trabalho com surdos numa congregação cristã, levanto questões sobre a possibilidade do convívio entre surdos e ouvintes, o espaço de cada um e fatores práticos relevantes no atendimento aos surdos. A reflexão inicia com o primeiro capítulo que destaca aspectos históricos da deficiência. Apresento a pessoa do surdo, sua língua e sua cultura, história e intérprete, como profissional da LIBRAS, sua ética e postura. No segundo capítulo, a ênfase é teológica. Reflito sobre as causas da deficiência, sua relação com o pecado original e com o castigo divino, focando a Teologia da Cruz de Lutero. Em seguida, trato do surdo no contexto bíblico e a atitude de Jesus para com a pessoa surda. E, termino o capítulo abordando a Igreja como corpo de Cristo e a sua diaconia com os surdos. No terceiro capítulo, levanto questões práticas referentes ao modelo da Missão Surdos, a partir do qual busco indicar ações viáveis, bem como apontar a possibilidade de mudanças neste trabalho. O resultado desta pesquisa indica a possibilidade de uma convivência digna e respeitosa entre surdos e ouvintes, bem como a importância dos surdos terem os seus momentos em separado.

KUCHENBECKER, Klaus. O trabalho com pessoas surdas numa congregação de ouvintes. Dissertação de Mestrado. São Leopoldo: IEPG, 2006.

This work aims to discuss the space of the deaf person and his/her contact with hearing people at a christian congregation. From the model of a work with the deafs at a christian congregation, I come into questions about the possibility of contact between deaf and hearing people, the space of each other and the relevant aspects at the deafs work. In first chapter I highlight historical aspects of the handicaps. Next, I present the deaf person and his/her culture. In the end of this chapter, I introduce the interpreter, his/her ethics and posture as a professional of LIBRAS. In the second chapter, the main issue is teology. Through a reflective thinking I analyze the motive of handicap and the relation with the original sin, the divine punishment, focusing on the Theology of the Cross of Luther. After that, I deal with the deaf on the biblical context and the atitude of Jesus with the deaf person. I end this chapter pointing out the Church as Christs body and his diacony with the deafs. In the third chapter I analyze the work with deaf people and the implications in a hearing congregation. The results of this study indicate the possibility of a joint work with deaf and hearing people and also point out the importance of having separated moments.

CEDA – Centro Educacional para Deficientes Auditivos LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais ULBRA – Universidade Luterana do Brasil UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul

FENEIS - Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos

INES - Instituto Nacional de Educação de Surdos NTLH – Nova Tradução da Linguagem de Hoje (versão da Bíblia) ARA – Almeida Revista e Atualizada (versão da Bíblia)

Livros Bíblicos Gn - Gênesis Dt - Deuteronômio Lv – Levítico Sl – Salmos 1 Sm – Primeiro livro de Samuel Is – Isaías Mt - Mateus Mc – Marcos Jo - João Rm – Romanos Ef - Efésios Jo – João 1 Co – Primeira carta aos Coríntios 2 Co – Segunda carta aos Coríntios Cl – Colossenses 2 Tm – Segunda carta à Timóteo 1 Sm – Primeiro livro de Samuel 1 Jo – Primeira epístola de João

INTRODUÇÃO1

INDICE I – A PESSOA SURDA: DEFICIÊNCIA, HISTÓRIA, CULTURA E LÍNGUA.15

1.0 – INTRODUÇÃO15
2.0 – A PESSOA SURDA COMO PESSOA COM DEFICIÊNCIA15
2.1 – Terminologia e preconceito15
2.2 – A deficiência na história18
2.3 – A pessoa da pessoa com deficiência23
2.4 – A pessoa surda como pessoa com deficiência24
3.0 - A PESSOA SURDA E SUA CULTURA26
3.1 – Conceituação do surdo29
3.2 – A barreira da comunicação31
3.3 – Formação da cultura e comunidade surda3
3.4 - A comunidade surda3
3.5 – A luta até o reconhecimento35
4.0 – AS PESSOAS SURDAS E SUA HISTÓRIA36
4.1 – Aspectos históricos36
4.2 – Antes da Língua de Sinais37
5.0 – A LÍNGUA DE SINAIS45
5.1 - Linguagem ou língua45
5.2 – A Comunicação Total47
5.3 – A Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS49
5.4 – O Intérprete de LIBRAS51
5.4.1 – A legislação51
5.4.2 – A formação do intérprete5
5.4.3 – O Código de Ética58
5.4.4 – Postura do intérprete61
6.0 – CONCLUSÃO62
I – IMPLICAÇÕES TEOLÓGICAS NO TRABALHO COM OS SURDOS63
1.0 – INTRODUÇÃO63
2.0 – A DEFICIÊNCIA DO PONTO DE VISTA TEOLÓGICO63
2.1 – A pessoa com deficiência na Bíblia64
2.2 – As causas6
2.2.1 – Causas humanas67
2.2.2 – Causas espirituais68
2.3.2 – Criação, Queda e Imagem de Deus71
2.5 - Teologia da glória e teologia da cruz78
2.6 – O uso do termo surdo na Bíblia80
2.7 – Compreendendo o texto de Êxodo 4.1-1282
2.8 – Jesus e a relação com a pessoa com deficiência84
2.8.1 – A cura de um cego85
2.8.2 – A cura de um surdo-gago8
2.9 – A dignidade do surdo92
2.10 – O surdo como membro do corpo de Cristo95
2.1 – Diaconia no trabalho com os surdos101
3.0 – CONCLUSÃO105
OUVINTES107
1.0 – INTRODUÇÃO107
2.0 – O MEU INÍCIO107
3.0 – O INÍCIO DO TRABALHO COM OS SURDOS NA IELB108
4.0 – O QUE É A MISSÃO SURDOS109
5.0 – A MISSÃO SURDOS NA CONGREGAÇÃO SÃO PAULO110
6.0 – RECEBER O SURDO EXIGE RESPEITO, ACEITAÇÃO E AMOR1
7.0 – SURDOS E OUVINTES – COMPARTILHANDO O MESMO ESPAÇO113
7.1 – A língua de sinais no compartilhar do espaço114
8.0 – O TRABALHO COM OS SURDOS ENQUANTO NÚMERO EXPRESSIVO117
8.1 – Dois mundos, duas culturas117
8.2 – Adequações no uso do espaço118
8.3 – Adequações no culto120
8.3.1 – Ficar sentado120
8.3.2 – A liturgia120
8.4 – A música121
8.5 – Teatro122
8.6 – O surdo na tradução123
9.0 – ENVOLVIMENTO DOS OUVINTES123
9.1 – O envolvimento é diaconia125
9.2 – O suporte dos ouvintes127
10.0 – A LIBRAS SALVANDO VIDAS128
1.0 – O INTÉRPRETE E O PASTOR132
12.0 – SEGUINDO O EXEMPLO DE JESUS134
13.0 – UM CAMINHO PARA O TRABALHO COM OS SURDOS136
13.1 – O grupo dos surdos - uma mini-congregação136
13.2 – Atividades em separado - entre os iguais137
13.2.1 – Reunião de jovens140
13.2.2 – Passeios e retiros140
13.2.3 – O ensino confirmatório141
13.2.4 - Esportes141
14.0 – O CULTO EM LIBRAS142
15.0 – CONCLUSÃO145
CONCLUSÃO147
BIBLIOGRAFIA151

A presente pesquisa tem por tema a pessoa surda no convívio entre pessoas ouvintes numa congregação cristã.

O assunto emergiu das inquietações práticas no trabalho com os surdos desenvolvido na Congregação Evangélica Luterana São Paulo, de Porto Alegre, filiada a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), presentes no dia-a-dia da congregação, especialmente nos momentos conjuntos de surdos e ouvintes.

A atividade com os surdos é um fascínio pessoal por mais de quinze anos. A partir da experiência prática com os surdos, tanto a nível escolar quanto congregacional, muitas questões foram levantadas sobre a atividade com os surdos pela Igreja.

Atualmente, entre a sociedade secular, os surdos estão cada vez mais unidos enquanto comunidade em associações, agremiações e entidades próprias. Existem atividades sociais e esportivas voltadas somente aos surdos e organizadas por eles mesmos.

Tal realidade já é por si só uma grande alegria, especialmente aos surdos, visto que aspectos históricos mostram atitudes de discriminação, de desvalorização, de preconceito e de falta de dignidade e respeito aos surdos.

Diante dos desafios da convivência entre surdos e ouvintes numa mesma congregação cristã e de suas implicações práticas, iniciei o presente trabalho pressupondo que a forma mais acertada para o trabalho com os surdos seria recebê-los em separado, oportunizando o seu convívio na congregação enquanto iguais.

Tendo por base a hipótese formulada, organizei a pesquisa em torno das seguintes questões:

- qual a comunicação utilizada pelos surdos e sua relevância no relacionamento com os ouvintes?

- qual a melhor maneira de uma congregação ouvinte trabalhar com os surdos?

- em que o espaço e atividades próprias com os surdos favorece ou desfavorece o convívio entre surdos e ouvintes?

- por que uma congregação deveria se preocupar com o trabalho com os surdos?

Diante disto, voltei-me para o levantamento e pesquisa bibliográfica e análise prática a partir da experiência pessoal no trabalho com os surdos. A vida junto aos surdos, a troca de idéias, suas opiniões e preferências, em muito se faz refletir neste trabalho.

No levantamento bibliográfico, deparei-me com a escassez de obras e autores que tratassem do tema específico: a convivência numa congregação cristã. No entanto, esta dificuldade foi menor no que se refere à vida dos surdos, sua história, cultura e comunidade.

Quanto ao trabalho da Igreja com os surdos, a obra “Moses,

My Servant, Is Dead” and That Leaves You and Me, de vários autores, bem como o livro de DeAnn Sampley: A guide to Deaf Ministry foram relevantes para a pesquisa.

Na pesquisa sobre aspectos históricos do surdo, sua cultura e comunidade, bem como da deficiência, destaco as obras como: A Surdez, um olhar sobre as diferenças, organizado por Carlos Skliar; Vendo vozes, de Oliver Sacks; Epopéia Ignorada, de Otto Marques da Silva e Deaf in América, de Carol Padden e Tom Humphries.

Quanto à pesquisa teológica, o livro de Walther Von

Loewenich: A teologia da cruz e Deixa Deus ser Deus, de Philip S. Watson, foram relevantes para a exposição do tema.

A pesquisa volta-se para a Teologia Prática que nos dizeres de Lothar Carlos Hoch ajuda para que “o mundo e a própria Igreja acertem o passo com Deus”1 . Neste sentido, o presente trabalho busca auxiliar a compreensão e a necessidade do trabalho da Igreja com os surdos, uma vez que a Igreja pode ser instrumento transformador na sociedade. Isto se faz relevante, pois em Deus está o exemplo de cuidado e amor para com os surdos, visto que tanto a Igreja quanto a sociedade mostraram descuidado social e cultural com o surdo.

A Igreja pode oferecer uma prática que busque favorecer tanto aos surdos quanto aos ouvintes em seu convívio. A partir do que Deus quer, ela pode se voltar aos surdos diante de suas necessidades para, então, recebê-los de forma digna e respeitosa sem esquecer ou desmerecer a sua presença e caminhada neste mundo.

Esta dissertação está estruturada em três capítulos.

sociedade dita “normal”

No primeiro capítulo, apresentar-se-á aspectos históricos da deficiência e sua conceituação, bem como uma reflexão sobre a pessoa com deficiência, desvalorização e respeito em meio à

Num segundo passo, enfocar-se-á a história do surdo, a existência de uma cultura e comunidade surda. Diante da

1 Lothar Carlos HOCH, apud Rodolfo Gaede Neto, A diaconia de Jesus, p. 36.

questão: língua ou linguagem, o trabalho tratará da LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, que marca uma grande conquista da comunidade surda. Em seguida, é apresentado o profissional intérprete, sua postura e seu código de ética.

No segundo capítulo, o enfoque será a fundamentação teológica, refletindo sobre a existência da deficiência, sua relação com o pecado original e a punição divina. O conhecimento geral e particular de Deus, e a teologia da cruz são essenciais para a compreensão da ação e vontade de Deus.

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