Surdos: vestígios culturais não registrados na história

Surdos: vestígios culturais não registrados na história

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Karin Lilian Strobel

Florianopolis 2008

Tese apresentada ao programa de pós-graduação doutorado em educação, na linha de pesquisa Educação e Processos Inclusivos, da UFSC, Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito para obtenção do título de doutorado.

Orientadora: Profª Dra. Ronice Muller de Quadros Co-orientadora: Profª Dra Gladis Perlin

Florianópolis 2008

STROBEL, Karin LilianSurdos: Vestígios Culturais não Registrados na História.

4 Florianópolis, 2008. Tese de Doutorado em Educação – UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.

Tese defendida e aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação, Curso de Doutorado, na Linha de Pesquisa Educação e Processos Inclusivos da Universidade Federal de Santa Catarina, pela seguinte banca examinadora:

Orientadora: Profª. Dra. Ronice Muller de Quadros CCE / UFSC

Profª. Dra. Marianne Rossi Stumpf CED / UFSC

Profª. Dra. Mara Lúcia Masutti CEFET / SC

Prof. Dr. Wilson de Oliveira Miranda UFRGS / RS

Profª. Dra. Sueli Fernandes UFPR / PR

Florianópolis, 25 de junho de 2008.

Eu dedico esta dissertação ao povo surdo, que tem trazido bravura e importância para a nossa história cultural!

Quero, em primeiro lugar, humildemente, agradecer a uma Divindade Superior por ter me dado forças nas lutas conquistadas e pelas etapas vencidas e ainda por vencer;

À minha família, em especial a minha mãe, que compartilhou os muitos momentos de nossas vidas, que me motivou e permitiu construir a minha história;

À Sueli Fernandes, pelas suas opiniões e críticas positivas, que me incentivou a crescer academicamente e principalmente por ser amiga e sempre ter fé em mim;

A Rita Maestri, Leandro Patrício, Mauricio Santos e Henrique Stroparo pelo auxilio e paciência nos preparos das incansáveis horas de filmagens, fotografias e documentações das entrevistas com os pesquisados.

Aos meus amigos virtuais Carlos Rafael, Diamantino Mendes, Celso Elias da Silva, Paul Taborda, Marcelo Willy Junior, Marcos Leme e Pedro Arce pela boa vontade e disposição de auxiliar na obtenção de diversas informações navegando na internet e pelas traduções de algumas citações estrangeiras;

À Alice de Castro, Irene Stock, Neivaldo Zovico, Rosani Suzin, Shirley Vilhalva, Christiane Elizabeth Riguetto e aos outros surdos, dignos representantes do povo surdo, que diretamente ou indiretamente colaboraram com minha pesquisa, cedendo relatos do seu dia-a-dia, me permitindo enriquecer a parte histórica dos surdos;

Ao INES – Instituição Nacional de Educação dos Surdos, por ter permitido a coleta de riquíssimos dados da história de surdos em sua imensa biblioteca;

À Roseclélia Borne pelo material pesquisado em sua dissertação, o qual me permitiu a construção da história da instituição pesquisada, e à Ana Paula Kochen pela tradução dos textos em francês;

Ao CAPES e ao CNPq pelo auxílio de bolsa de estudos, sem o qual seria difícil terminar com exultação e com boa qualidade a tese de doutorado;

Aos meus colegas e intérpretes de libras/língua portuguesa do curso de doutorado na área da educação da UFSC, pelos muitos momentos de partilhas, angústias, alegrias, amizades e vitórias;

Aos professores Ronice Quadros e Carlos Skliar que com seus conhecimentos possibilitaram o meu crescimento como pesquisadora. Agradeço por me inspirarem, valorizarem e encorajarem a seguir as minhas idéias dentro dos princípios, aguçando ainda mais a minha observação e senso crítico;

E por fim, à pessoa mais extraordinária que esteve presente em cada passo da minha pesquisa e em todas as páginas desta tese, pela paciência, carinho e co-orientação que me fez abrir os olhos para muitas coisas sobre o ‘Ser Surdo’ e o ‘Povo Surdo’, à Gladis Perlin!

O povo surdo tem muitas faces.

A sua história se faz da realização de cada sonho de surdo. Você também constrói a história, é parte integrante dela.

A presente pesquisa consiste em um estudo empregando procedimento das análises narrativas e pesquisas teóricas etnografias que possibilitou a coleta de dados sobre a cultura do povo surdo. Nas análises narrativas possibilitou a reflexão sobre as práticas ouvintistas nas escolas de surdos e resistências do povo surdo contra esta prática, procurando resgatar a cultura surda na história. Nas pesquisas teóricas observou-se o papel fundamental da língua de sinais, o reconhecimento da cultura surda e a construção de sua identidade. Estas metodologias ressaltam a importância da participação dos povos surdos para a construção da história cultural.

A tese é escrita num conjunto de textos no estilo acadêmico e estilo ensaio ao mesmo tempo, para deixar emergir os saberes onde entram em cena as memórias das experiências do ‘ser surdo’, uma visão abrangente em relação ao que ocorre com o povo surdo, especialmente, no campo do colonialismo e dos sistemas opressivos educacionais e dos corpos amordaçados por políticas institucionais.

Ao usar o tom ensaístico da escrita, as fronteiras estilísticas estão dialogando em universo que é marcado pela negociação de sentidos, as linguagens que são marcadas por diferentes nuances e muitos elementos que são da ordem também das articulações de uma ordem de linguagem que emerge das instâncias analíticas da memória, da subjetividade e do inconsciente.

Com essa pesquisa fazemos reflexões importantes acerca da violência simbólica e física a que os surdos foram sujeitados, traz o papel da família para um campo reflexivo de sua participação, o papel do psicólogo, o papel do professor, entre outros.

Palavras-chave: Estudos Surdos, língua de sinais, análise narrativa, etnografia, historicismo, história cultural; identidade.

This research is a study using narrative analysis and theoretical ethnographic research that led to the collection of data on the culture of deaf people. The narrative analysis enabled the reflection about practices in schools listeners of the deaf and deaf people's resistance against this practice, trying to rescue deaf culture in the history. In theoretical research it was found the key of the sign language, the recognition of deaf culture and the construction of their identity. These approaches emphasize the importance of participation of deaf people for the construction of cultural history.

The theory is a set of texts written in academic style and style test at the same time, to leave the emerging knowledge comes into play where the memories of the experiences of 'being deaf', a comprehensive view on what happens with deaf people, especially in the field of colonialism and the oppressive educational systems and bodies muzzled by institutional policies.

By using the tone of essayist writing, the stylistic borders are talking in a universe that is marked by way of negotiation, the languages that are marked by different shades and many elements that are of the order of the joints, an order of language that emerges from bodies analysis of memory, the subjectivity and the unconscious.

With this research we will make important observations about the physical and symbolic violence that the deaf were subject, the role of the family brings to a field reflective of their participation, the role of psychologist, the role of teacher, among others.

Keywords: Deaf Studies, language of signs, narrative analysis, ethnography, historicism, cultural history, identity.

INTRODUÇÃO: MINHA HISTÓRIA COMO PARTE DE HISTÓRIA DOS SURDOS13
CAPÍTULO 1: ESTUDOS CULTURAIS: BUSCAR A HISTÓRIA DO POVO SURDO2
1.1. Estudos Culturais e Estudos Surdos2
1.2. Representação social: surdos como diferença ou deficiência?31
CAPÍTULO 2: DIFERENTES ‘OLHARES’ NA HISTÓRIA41
2.1. Os discursos diferenciados das histórias dos surdos41
2.2. Historicismo: ocultando sinais de opressões43
2.3. Os surdos: construindo a história cultural57
2.4. A história surda camuflada68
CAPÍTULO 3: OS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS REGISTRADOS79
3.1. As construções das memórias79
3.2. A história dos surdos: o imaginário do ‘outro’80
3.3. Histórias de vítimas surdas no ‘holocausto’93
CAPÍTULO 4: METODOLOGIA103
4.1. Construindo a metodologia103
4.2. Sobre a instituição106
4.3. Os sujeitos da pesquisa108
4.4. A forma de registro das narrativas109
112
5.1. Entrevistas: as grandes narrativas surdas112
5.2. O imaginário familiar117
5.3. Rituais de agressões ao corpo surdo124
5.4. Extermínio cultural dentro da escola dos surdos136
CAPÍTULO 6: REFLEXÕES FINAIS145
6.1. Refletindo as realidades surdas145
6.2. História cultural atual: um novo jeito de ser surdo147
REFERÊNCIAS149

“Pois na língua de um povo, observa Herder, “ reside toda a esfera de pensamento, sua tradição,história, religião e base da vida, todo o seu coração e sua alma”.

Isso vale especialmente para a língua de sinais, porque ela e a voz – não só biológica mas cultural, e impossível de silenciar – dos surdos” Oliver Sacks

O presente trabalho é dedicado ao povo surdo, à história, vivências, experiências e nostalgias, isto é, forma de existência subjacente à cultura; certas coisas que sujeitos surdos gostariam de ter, ser e de fazer, um tipo de clima envolvente; desejo de voltar ao passado, aspirações e desejos nunca realizados. O povo surdo consiste em:

(...) sujeitos surdos que não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução lingüística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços (STROBEL, p.29, 2008).

Os sujeitos surdos existem em todos os tempos, o nosso estilo de compartilhar os interesses semelhantes e a língua de sinais é tão antigo quando o mundo. Deixamos traços abundantes, marcas diferentes, mas dispersas, pois muitas ocorrências nem foram tomadas como objeto a serem representadas em história e, entretanto, nossas histórias permanecem ainda adormecidas esperando para serem despertas.

Desafio esta minha pesquisa? Sim, certamente, se julgarmos depois das lacunas que os pesquisadores fizeram nas suas histórias sobre os surdos. Será por que não puderam ou poucos se inspiravam para pesquisar? Alguns trechos lapidados herdaram a conduta marcada pela intolerância obscura na visão negativa sobre os surdos, viam-nos como ‘anormais’ ou ‘deficientes’.

Ser surdo, ao longo da história, não foi fácil, foram feitas muitas injustiças atrozes contra nós, não aceitavam o ‘diferente’ e nossas ‘diferenças’, assim como autor Foucault (2005), em seu livro ‘Vigiar e Punir’ destaca graves problemas que a sociedade humana e as autoridades públicas afrontam com as diferentes culturas em seus territórios, os sujeitos diferentes são identificados e socialmente estereotipados e também se tende a generalizar as suas limitações e a minimizar as suas limitações e os seus potenciais, a diferença está tão presente e enfatizada para os que os cercam que justifica os seus sucessos e fracassos nos seus atos e realizações.

Para uma melhor enfatização, quanto ao enfoque da história dos surdos e mencionando a forma como percebo a construção do meu ‘ser surdo’, coloco também narrativas de minha história como parte da história dos surdos. Segundo autores surdos Perlin e Miranda, ‘ser surdo’ expressa:

(...) olhar a identidade surda dentro dos componentes que constituem as identidades essenciais com as quais se agenciam as dinâmicas de poder. É uma experiência na convivência do ser na diferença (2003, p.217).

Com quatro dias de vida, no hospital, tive um resfriado muito forte e foi prescrito o uso de antibiótico em dosagem alta e, em conseqüência disso, fiquei surda profunda.

Na época muitos especialistas na área da surdez tinham assegurado à minha família que somente o aprendizado da língua oral era o que poderia me ajudar a sair do isolamento. Por isto a minha mãe procurou uma escola de surdos onde eu pudesse aprender a língua oral.

Na maior parte de minha infância estudei em uma escola para surdos1 onde usavam o método verbotonal2, uma metodologia oralista3, que foi implantada na época.

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