África- Linhas tortas nos livros didáticos

África- Linhas tortas nos livros didáticos

ÁFRICA

LINHAS TORTAS NOS LIVROS DIDÁTICOS

Agostinho Menotti Orlandi *

RESUMO

O artigo é um estudo comparativo de como o conteúdo África aparece nos livros didáticos de ensino fundamental. De como as páginas do continente chamado de “ negro” nos revelam díspares textos

Palavra-chave: África, educação, livros, negros

*Aluno do Curso de História da Universidade Salgado de Oliveira, Belo Horizonte, MG, menottiorlandi@msn.com

Introdução

Nos últimos anos,os olhos do mundo voltaram-se para a África. Não é para menos. Indicadores sociais elaborados pelos mais diferentes organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas – ONU-, apontam o continente, sobretudo a região Subsaariana, ao sul do deserto do Saara, como uma das mais pobres do mundo. Em alguns países africanos, por exemplo , a expectativa de vida da população é inferior a 40 anos de idade. Quanto a Aids, apenas em 2003, em todo o mundo, morreram cerca de 3 milhões de pessoas vítimas da doença- 2,3 milhões delas habitavam o continente africano deixando 11 milhões de órfãos. È sugestivo pensar que essa situação ocorre justamente no lugar em que a humanidade começou a se formar, há pelo menos 5 milhões de anos. E é esta África que analisaremos nos livros que nosso filhos leem no período fundamental da educação. O que sabem eles da verdade?

A África e os Negros

Foram pesquisados diversos livros, conforme referência, dentre eles 4º e 5º ano que ensinavam História do Brasil e 6ª série que contava História do Brasil, Europa e América.

Todos imaginam a África como um continente repleto de matas, um paraíso da vida selvagem, habitantes apenas negros, que não se organizam socialmente, tribos selvagens nada amistosas, habitantes incapazes de se defenderem frente a uma exploração e/ ou intervenção agressiva do homem branco. Total miséria, inexistência de centros urbanos, e quando, alguns sabem da existência de vilas e cidades, imaginam ser locais desprovidos de qualquer infraestrutura e desenvolvimento social e cultural.

Observei nesta coleção vários problemas no que diz respeito à representação da população negra. Primeiramente constatei poucas referências e menções sobre a população negra nos livros. Isto se constitui como um problema, uma vez que, apesar de o segmento negro se colocar como um amplo contingente populacional e estabelecer uma grande contribuição para a nação em vários aspectos, este permanece á margem não só da sociedade, mas também de várias formas de representação da população negra. Um segundo ponto problemático constatado é que essas escassas apresentações da população negra se caracterizam, na grande maioria dos casos, em estereótipos.

Tanto os ensinos fundamental e médio, aprendemos que a África era um continente em que havia somente negros selvagens, animais exóticos, um continente que fornecia mão-de-obra escrava para os colonizadores europeus e que não havia uma cultura nativa rica em detalhes, com nações inteiras organizadas socialmente em reinos, com nobreza, tribos, vilas, cidades, clãs e povoados.

Visão Eurocêntrica

De acordo com os livros analisados, os números de páginas destinadas á história da África é significativamente menor que o de outros assuntos. Os capítulos que tratam de temas como Europa Medieval, Absolutismo Monárquico, Renascimento Cultural e Construção do Pensamento Moderno Ocidental ocupam entre 13 e 17 páginas e vasta bibliografia. Já a história da África é, quase sempre, abordada em um único capítulo que varia de 07 a 13 páginas, e com uma literatura de apoio restrita. A visão eurocêntrica ainda predomina na disciplina. Em outros livros didáticos, quando se encontra muito sobre a África, há somente uma página e meia. O assunto gira em torno dos tipos básicos de

colonização européia durante a Idade Média, faz uma leve referência a existência dos reinos de Congo, Gana, Mali e Zimbábue. Enfoca mais a busca do caminho marítimo para as Indias e como os negros eram transportados. Não há nenhuma narrativa acerca dos povos africanos, seus costumes e cultura, como há sobre as demais civilizações ocidentais e do oriente próximo.

Os livros didáticos, sobretudo os de História, ainda estão permeados por uma concepção positivista da historiografia brasileira, que primou pelo relato dos grandes fatos e feitos dos chamados “heróis nacionais”, geralmente brancos, escamoteando, assim, a participação de outros segmentos sociais no processo histórico do País. Na maioria deles, despreza-se a participação das minorias étnicas, especialmente, índios e negros. Quando aparecem nos didáticos, seja através de textos e ilustrações, índios e negros são tratados de forma pejorativa, preconceituosa ou estereotipada.

Um dos maiores equívocos encontrados é referir-se á África apenas a partir do tráfico , como se o continente não tivesse uma história anterior á escravidão atlântica. Outro dado inquestionável para professores e alunos é que a história da escravidão, dos africanos e dos afrodescendentes se confundem em nossos olhares para o passado. Ou seja, os africanos chegam até os bancos escolares como escravos e impregnados pelos estereótipos e pelas leituras acadêmicas realizadas sobre a escravidão no país.

Nos mapas dos livros didáticos sobra a África, os autores mostram quais os países africanos e seus respectivos colonizadores . Vários livros apenas registram o quanto os países da Europa ficaram maravilhados face ás riquezas naturais do continente africano, e quando fazem uma pequena referência sobre os povos africanos, que reagiram á exploração européia, mostram os africanos como “ incapazes” frente ao poderio europeu. Os livros didáticos pesquisados relatam a escravatura como um fato histórico, enfatizando a supremacia branca e justificando o fato da condição do negro estar sendo subjugado, devido ao atraso cultural, ao fator numérico do país.

Para o historiador Florentino, não se trata de "florear" a história da escravidão no Brasil. "O problema é que os livros ignoram os caso de ascensão social de negros. Há registros de negros que se tornaram livres e compravam escravos".Apesar desses casos não serem regra no Brasil colonial, Florentino acha importante citá-los por uma questão de formação da identidade negra. "Que criança vai querer se identificar com uma figura que só apanha ?

Legislação

A atual legislação educacional é enfática em relação a necessidade de alteração da abordagem dada ao negro no sistema educacional. A LDB – Lei 9394/06, em seus artigos Art.26, 26 A e 79 B- determina a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de educação básica. Tanto o Parecer 03/04 do Conselho Nacional de Educação, quanto a Deliberação de 04 de agosto de 2006 - do Conselho estadual da Educação- abordam as necessidade de cuidados com a utilização de determinados materiais didáticos.

O que deve-se observar e quanto ao ensino da História da África e da presença do negro no Brasil é que os professores devem fazer abordagens positivas, sempre na perspectiva de contribuir para que o aluno negro-descendente mire-se positivamente, quer pela valorização da história de seu povo.

Onde o Brasil acerta, conforme Oliva:

Em meio ao erros, algumas iniciativas foram elogiadas pelo historiador Oliva. Ele afirma que muitos autores de livros didáticos optaram por não utilizar imagens de negros escravos. Outros ainda chamam a atenção dos alunos para as representações feitas dos africanos pelos europeus: a mudança da fisionomia dos africanos, de seus gestos, roupas e comportamentos, que recebem feições européias. Ou ainda destacam aspectos dos padrões artísticos, sociais, políticos e as visões de mundo de algumas sociedades africanas, permitindo aos alunos criar uma intimidade maior com o continente. E o pesquisador vê com otimismo os rumos desse segmento. De acordo com Oliva, editoras brasileiras têm se esforçado para fazer uma abordagem maior sobre o assunto. Já foram feitos livros paradidáticos, uma espécie de complemento aos livros que possuem falhas no tema. "É uma forma de preencher a lacuna de anos na educação, mas ainda não é o ideal”, finaliza Oliva.

Não existe verdade absoluta:

Família Colonial

O que está nos livros:

Trecho de livro didático "História Integrada", da editora Scipione, para a 6ª série do ensino fundamental: "Durante o ciclo da cana-de-açúcar, (...) a autoridade do Senhor da casa-grande era absoluta “estando as mulheres submetidas a um papel subordinado.

Os fatos:

O modelo patriarcal, muito estudado pelo sociólogo Gilberto Freyre, não era regra, por exemplo, em São Paulo, onde há registros de mulheres que comandavam a família enquanto seus maridos, os bandeirantes, ficavam anos fora de casa. Vide a série da TV Globo , “ A Muralha”.

Guerra do Paraguai

O que está nos livros:

Trecho do livro "História e Reflexão", da editora Saraiva, para a 7º série do ensino fundamental, sobre a guerra do Paraguai: "Desde sua independência, em 1811, o Paraguai começou a se desenvolver de um modo diferente. Para isso, distribuiu terra aos camponeses, combateu a oligarquia rural improdutiva, construiu inúmeras escolas para o povo. Francisco Solano Lopez prosseguiu a obra de seu pai de construir no Paraguai um país forte e soberanos, livre da exploração do capitalismo internacional"

Os fatos:

O texto coloca os presidentes paraguaios Antônio Carlos Lopez e Solano Lopez como heróis que lutavam contra o imperialismo inglês. Para muitos historiadores, inclusive paraguaios, eles eram caudilhos e ditadores

Escravos

O que está nos livros:

Na história do Brasil Colonial, o negro aparece nos livros, com raríssimas exceções, como escravos. Trecho do livro "História Integrada", da editora Scipione, para 6º série: "A vida do escravo é um inferno. Os africanos são arrancados de sua terra de origem e trazidos como gado em navios. Sua vida na colônia é ainda pior: têm uma existência amarga e penosa".

Os fatos:

Pesquisas mostram que havia negros que ascendiam socialmente e constituíam famílias estáveis mesmo no período da escravidão.

África

O que está nos livros:

Em geral, os livros tratam os negros vindos para o Brasil por meio do tráfico de escravos como "africanos", sem diferenciá-los culturalmente e com poucas referências aos seus hábitos e meios de vida.

Os fatos:

O Brasil é considerado o segundo maior país negro do mundo, atrás apenas da Nigéria. No entanto, fala-se muito pouco da história da África e de sua influência no Brasil.

Egito em 4 períodos.

Sem entrelinhas, subtextos ou subliminares, alguns textos de determinados livros não se coadunam. Todos os livros pesquisados seguem a mesma trilha de estudo: Mesopotâmia, Egito, Persas , Fenícios e Hebreus. Iremos analisar o Egito , país africano banhado pelo Rio Nilo.

As chuvas são fundamentais para para o Nilo, por isso: “ … todos os anos, de JUNHO a OUTUBRO, as águas do Nilo inundam as terras próximas de suas margens.” ( Ref.04-História e Vida Integrada... pág.56) enquanto que “ De JULHO a NOVEMBRO as águas do rio sobem, em decorrência das chuvas. “( Ref.1-Nas trilhas da História....pág.100), chegando a conclusão que durante 6 meses do ano, de junho á novembro, o Nilo fica sob chuvas pelo fato de as datas nos livros não se acordarem entre sí.

Os nomos se reuniram buscando melhor reaproveitamento das águas do Nilo, formando dois reinos: o Alto Egito no sul e o Baixo Egito no norte. Quatro livros confirmam que : por volta de 3100 a.C , os governantes do Alto Egito ( sul) conquistaram o Baixo Egito ( norte)ouum dos governantes do Alto Egito, Menés, conquistou o Baixo Egito e promoveu a unificação territorial. Um pequeno detalhe chama a atenção em um dos livros, o autor declara que “ Por volta de 3200 a.C , esses dois reinos unificaram-se sob a hegemonia dos povos do NORTE”. ( Ref.6 - Por dentro da História, 5ª série, 2006- Pedro Santiago, Ed. Escala Educacional, pág.90)

Mas, o mais interessante é a criação do 4º Período, não citado nos diversos livros didáticos, criado pelos escritores, Ricardo Dreguer e Eliete Toledo. Os livros pesquisados (referência) corroboram entre si, que houveram três períodos: Antigo Império, Médio Império e Novo Império. O Médio Império, termina com os hicsos permanecendo no Egito por cerca de 170 anos, o Novo Império começa com a expulsão dos hicsos e termina com a invasão dos Persas e outras tribos em 332. Já os historiadores citados acima denomina-os: Antigo Reinado- 3200 a 2040 ( Antigo Império), Médio Reinado- 2040 a 1550 ( Médio Império), Novo Reinado - 1550 a 1070 ( Novo Império) e Último Reinado – 1070 a 332, como ele mesmo reproduz nas páginas 53 e 54 do livro “ História, Conceitos e procedimento”, 5ª série, 2006- Ricardo Dreguer/Eliete Toledo, Ed. Atual,

Por volta de 1070 a.C , os líderes religiosos rebelaram-se contra o governo central e acabaram assumindo o poder. Este acontecimento é considerado o marco inicial do Último Reinado, caracterizado por invasões dos Assírios e dos Persas ao território controlado pelos egípcios. Em 332 a.C, o Egito foi invadido pelos Macedônios, fato que assinala o fim do Último reinado, e em 30 a.C. caiu sob o domínio dos romanos.”

Considerações finais:

Este artigo ilustra como o povo negro africano vem sendo tratado nos livros didáticos nos últimos anos , sobretudo nas escolas tanto publicas como as particulares. È fundamental que exista a atenção dos educadores ao veto dos livros que apresente o grupo étnico-racial negro, através de textos, figuras, pinturas, desenhos ou gravuras sempre em situações de constrangimento, de forma inferiorizada ou de forma estereotipada. Desta forma, o educador estará contribuindo para a construção de uma sociedade pautada pela igualdade social, racial e de gênero. Os objetos centrais do ensino de História no Curso Fundamental, prende-se á formação da consciência de cidadania de modo a construir no aluno, através da incorporação de atitudes, valores e comportamentos, a capacidade de inserção e intervenção claras e consequentes em sua realidade.

REFERÊNCIAS:

  1. Alves, Kátia Corrêa/ Regina Célia de Moura Belisário; Nas Trilhas da História, 5ª série, Belo Horizonte, Ed. Dimensão, 2000, 200 p.

  1. Alves, Kátia Corrêa/ Regina Célia de Moura Belisário; Diálogos com a História, 5ª série, Curitiba, Ed. Nova Didática, 2004, 240 p.

  2. Anastasia, Carla Marinho Junio/ Paiva, Eduardo França; História, Imagens & Textos, 5º ano, Belo Horizonte, Ed. Dimensão, 2008, 168 p.

  3. Cotrin, Gilberto; Saber e Fazer História, 5ª série, São Paulo, Ed. Saraiva, 2001, 143 p.

  4. Dreguer, Ricardo/ Toledo, Eliete; História, Conceitos e Procedimento, 5ª série, São Paulo, Ed. Atual, 2006, 160 p.

  5. Melani, Maria Raquel Apolinário ; Projeto Pitanguá- História, 4º ano, São Paulo, Ed. Moderna, 2008, 160 p.

  6. Pilette, Nelson/ Piletti, Claudino; História & Vida Integrada, 5ª série, São Paulo, Ed. Àtica, 2004, 176 p.

  7. Santiago, Pedro; Por dentro da História,5ª série, São Paulo, Ed. Escala Educacional, 2006, 232 p.

  8. Sociedade Brasileira de Ensino da Historia, www.sobenh.org/artigos.htm

  1. Vasentini, J. William/ Pécora, Marlene; História, 5º ano, São Paulo, Ed. Àtica, 2008, 192 p.

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